15/01/20

mudar a casa, sem mudar de casa

As nossas casas são os nossos olhos. As paredes da nossa memória, as veias da nossa existência. Despeço-me desta casa cheia de eus, nós, todos, muitos, todos. Embalo cada detalhe e revisito-me em adolescente, mulher de teatro, filha, mulher, amiga, encenadora, pateta, amante, confidente, clemente. Esta casa acolheu, escolheu, viu, escutou, amou todos aqueles que nela estiveram. Deixo-a ir. De paredes de cores, aprumada, vaidosa, vintage, a rebentar de palavras e anos felizes. Estou quase a receber a outra. A que se fará de novos nós, de esperança, paz e harmonia. A vida faz-se de ciclos. E a nossa casa está a iniciar um novo. Desta vez, do nós que quero para sempre.

09/01/20

a 8 mãos


“a 8 mãos”
Esta peça teve todas as mãos que eu já tive.
Teve as mãos que estiveram comigo desde sempre, teve mãos que fui descobrindo ao longo da vida e teve mãos que também já perdi.
Esta peça teve luto, teve glória, teve espanto e teve medo.
Esta peça teve dor, alegria, memórias, melros e mulheres.
Esta peça teve bocados de todos aqueles que são os mais meus e também teve bocados de mim: os mais obscuros e os mais simples.
Esta peça ontem fez-me realizada. Soou-me a antigo, a memórias, a cheiro de família, a fogão sempre a funcionar, a camisas de rendas, a melros em casa dos meus pais.
Esta peça trouxe gente incrível à minha vida: as vozes, a direção, o apoio, as ideias, as conversas, as dúvidas, as certezas.
Esta peça trouxe-me mais algumas mãos que vou guardar para sempre.

obrigada, a todos vós.

31/12/19

2020

Não te peço coisas ou palavras ou definições ou adjetivos.
Peço-te que entres tranquilo, com a cadência de uma sonata ou da brisa do fim de tarde no meu Algarve, na praia.
Que deixes ir o 2019 que me marcou com tempestades, sustos, perdas mas também tantos ganhos.
Conversa com ele, baixinho, e diz-lhe que pode ir.
Tu ficas. Quero que fiques. Tens um sofá lá em casa, perto da varanda. Daqui a uns meses até vais ter um novo.
Tu ficas. Quero que fiques.
Tens coisas guardadas para nós, que eu sei.
Tens alegria nos teus fios de cabelo louro e tens promessas de coisas boas.
Tens esperança nas mãos e tens um abraço de união feroz.
Tu ficas. Quero que fiques.
Tens embalo, amparo, mimos e olhares calados, com olhos de tudo.
Tu ficas. Quero que fiques.
E que nos deixes ficar.

(recebo-te de braços abertos.)

18/12/19

Carta ao Pai, sem ser Natal.



Pappy, este ano escrevo-te a ti porque mais uma vez não preciso de pedir nada ao Pai Natal.
Queria que soubesses que por aqui as coisas continuam mais ou menos iguais; tempestades com nomes de mulheres, celeumas com o orçamento de estado, gente a zangar-se muito com gente nas redes sociais (agora andam todos a dar em cima de uma miúda…), o estado da saúde, do clima, da transparência, da intransigência, da negligência.
Mas para falar disto basta que se abra uma rede social, um jornal, uma revista, um email.
O que queria realmente dizer-te é que nós por cá continuamos todos a tentar olhar para isto da melhor forma mesmo sabendo que não estás.
Não estás, de facto. Mas para mim estás e sempre.
E sabes disso porque te peço todos os dias para ser um bocadinho como tu eras e ensinaste todos aqueles a quem abençoaste com a tua presença: mais generosa, mais simpática, mais tolerante, mais alegre.
Ando nesta vida assim, diariamente, um dia consegue-se mais um bocadinho de uma coisa ou de outra, disto ou daquilo.
Quando me deito, à noite, além dos teus olhos, encontro os teus ensinamentos e as memórias infinitas das coisas infinitas que me deixaste.
Não quero pedir-te nada. Ou antes, quero.
Que me abraces no sono, que me ensines anedotas e trocadilhos novos e que neste Natal nos inspires, a todos, para que fiquemos felizes e em paz.
Prometo vestir uma roupinha “prosopopeica”, por o “It was a very good year” a tocar e acabar talvez a noite a cantar ou a jogar qualquer coisa.
Um beijo repenicado nas “lêpas” ou na bochecha esquerda, com direito a barulho e tudo.


17/12/19

um conto chinês

de Sebastián Borensztein, com Ricardo Darín, Muriel Santa Ana e Ignacio Huang.

vale muito a pena ver.
passou na RTP2 a 15 de dezembro.

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