21/04/17

quarto com vista

my photo,

eu fazia o aquecimento antes da corrida.
aproximei-me deles.
ele pescava. ela estava parada perto dele. não fazia nada, ela.
a cadeira dele podia ser qualquer uma daquelas cadeiras.
a cadeira dela podia ser qualquer uma daquelas cadeiras.
- posso fotografar as cadeiras? - perguntei.
ele olhou-me sério e desconfiado.
ela sorriu-me num sorriso aberto de fim-de-tarde, espraiado e morno.
- pode, pois. - respondeu.
e eu assim fiz. disparei.
continuei a passo e depois a correr.
e as cadeiras ficaram ali, a olhar o rio.
a descansar entre o marulhar das águas e a dança dos pássaros.
cadeiras voltadas para o rio.
como se estivessem num quarto.
um quarto com vista.
sobre a cidade.



20/04/17

moro num país tropical

ando desde ontem a cantar esta música baixinho.
fiz o meu treino de fim de tarde com sol, chuva, trovoada e um calor abrasador vestido num céu de cores quentes.
a Primavera dilui-se num qualquer estado de tempo que nem parece o nosso tempo.
quando era miúda as estações tinham barreiras bem definidas e características próprias.
lembro-me que as atravessava com absoluta consciência do que exigiriam de mim.
hoje já não sei. tanto posso vestir uma blusa de alças e no dia seguinte um casaco quente de inverno.
a minha roupa anda às turras dentro dos armários para ver qual vai levar a melhor.
e o planeta anda às turras com o efeito de estufa e o aquecimento global.
estaremos a entrar numa era onde passará a haver uma só estação?

the essence of cities as seen by florian mueller



19/04/17

emocionalmente brasileiramente



Há artistas que para mim são como se fossem família porque me foram sempre próximos, desde que me lembro de mim.
Não sei onde ouvi o Roberto Carlos pela primeira vez mas foi decerto numa das primeiras vezes que ouvi música, talvez a par com os “Óculos de Sol”.
Sei que veio, a música dele – um disco de vinil - na mão do meu tio do Brasil, o Sr. Bordalo, como lhe chamavam, metido numa mala elegante no meio de camisas de linho, sapatos impecáveis, fatos de corte clássico e pozinhos de bom gosto a entremear essas coisas todas.
Sei que foi dado, o disco de vinil, a um dos meus irmãos. Mas como acontecia com todos os discos de música brasileira que ele trazia (e foram muitos e muito antes de se ouvirem cá), eu abarbatava-me a eles à cara podre e achava que eram meus e deles e dos que os cantavam sabia acordes, refrões, inflexões, manias.
Arranjava uma música para cada estado de espírito, para cada dia; pintava com elas – as músicas – a alegria, a solidão, os trabalhos de casa, os lanches no quintal, os minutos antes de adormecer, as viagens de carro, as conversas com as bonecas, as histórias inventadas e escritas na parte de trás dos papéis / guias de próteses dentárias do meu pai. O primeiro rímel, o primeiro beijo na boca, o primeiro desgosto de amor, o primeiro livro.

A música brasileira foi-me e é-me muitíssimo mais do que apenas música.
A música brasileira povoou a minha vida desde que me lembro das suas coisas mais bonitas.
Por isso é que deixou de ser música para passar a ser respiração.
Por isso é que exulto quando vejo um dos seus Grandes.
No dia 24 de abril vou meter-me, pequenina, nas horas de música que vou ouvir.
No dia 24 de abril o Roberto Carlos vai levar-me, nas suas canções, a fazer uma das viagens que mais gosto:
A música, eu, o Brasil, pequena, Grande, vida
Emoções.

18/04/17

mudanças

foram dias de.
cortei mais de metade do cabelo.
vi-me a braços com coisas (muito) difíceis.
olhei para coisas com olhos de outros.
ouvi e apreciei.
degustei e recusei.
desisti. insisti.
dormi sobre tudo e debati sobre tudo.
adormeci.
e (finalmente) acordei.

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