27/09/16

cheiros


o cheiro de um fósforo a lamber a lixa:
traz-me o cheiro dos primeiros cigarros fumados à socapa
e esse esse cheiro – dos primeiros cigarros –
traz-me o cheiro da infância e adolescência, em Espinho:
praia, feira, café avenida, arroz embrulhado em jornais na praia,
banheiro, almofadas de pano, liteiro,
moscas zonzas do calor e das conversas das mulheres vizinhas das barracas da praia,
matrecos, primeiros beijos na boca às escondidas e às escuras,
prego na areia, água do mar gelada, piscina de Espinho,
Stevie Wonder a cantar o “Superstition”, roulotte cheia de tralha,
primeiros espetáculos teatrais às 3 pancadas,
pele morena, arrepios de alegria, férias intermináveis,
Ié, Rosi, Marisa, Sandra, tia Mimi. Kiki.
estamos sentadas no avançado da tia Mimi a comer bifes pequeninos e aquele arroz feito na panela.
faz calor; ao longe ouve-se o tilintar dos talheres; um rádio de bolso;
o altifalante do parque a chamar alguém.
à nossa frente estendem-se
dias grandes e preguiçosos com sabor a mar e a família.

nós ainda não sabemos
mas esses dias vão ser dos melhores das nossas vidas.

manifestamente. leva-me.

26/09/16

hoje o meu coração e o meu corpo

 estão pequeninos, na barriga da minha mãe.

25/09/16

48 anos

48 vidas. 48 anos.
48 sonhos. 48 livros.
48 coisas pequenas.
48 coisas grandes.
48 músicas.

e sem mais palavras
cem histórias escritas num minuto, hoje.

23/09/16

o riso muda com a idade?




sem dúvida. mais do que com a idade, com a maturidade.
certo é que por vezes também se torna um riso triste. porque vai acumulando camadas de vida e coisas difíceis.
o meu mudou muito com o tempo.
era de passarinho, em pequena. tornou-se de ave grande depois de crescer.
acalmou-se. ficou mais grave, por causa do cigarro e dos exercícios de voz.
também se tornou mais exigente e selectivo.
gosta de companhia, o meu riso. mas também gosta muito de rir sozinho.
quando for mais velha quero rir muito.
e ler muitas revistas e livros, com caracóis cinzentos e louros e um gato a aquecer-me os pés.

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