14/12/07

Carta aos nossos Pais

Vivemos, em criança, os melhores anos.
Aprendemos a ouvir musica. A não por os cotovelos em cima da mesa. A brincar com coisas sérias para elas não serem tão sérias. Tivemos uma casinha no quintal que era uma casinha de bonecas. Tivemos loucinhas, telefones trazidos de Barcelona, um triciclo vermelho que dele ainda recordo o toque dos puxadores… umas risquinhas de borracha. Tivemos galinhas que morriam no quintal, uma empregada que se fardava quando vinha o Sr. Bordalo. Tivemos uma avó que dava beijos na careca do pai. Árvores de natal grandes, maiores do que nós e depois crescemos e ficamos maiores do que elas e até fizeram uma música por causa disso. Tivemos uma casa com cortinas fantásticas que depois fizeram fatos de palhaço no Carnaval. Tivemos um piano e um escritório com uma mesa pesada. Tivemos uma costureira que comia num tabuleiro e a comida dela cheirava à comida de costureira. Tivemos um opel, um volvo e tantos outros. Cantávamos nas viagens para Viseu. A marcha do vapor, o relipi relipi relipi. Aprendemos o Cebulório que ensinaremos aos vindouros. Comemos bifes na caçarola, ovos verdes e palhuço. Corremos os parques de campismo com o frigorífico
às costas. Tomamos café na avenida a ouvir o “Very superticious”. Lemos as selecções do Reader’s Digest e os romances de Max Du Veuzit. Tivemos uma alcatifa mesclada, uma máquina de secar roupa e vestidos de baile da mãe para brincar. Tivemos uma cadela que gostava de meias para roer. Inventámos o “vilste” e o “por vaixinha”. Tínhamos um pai que gostava de carpinteirar. Uma miúda que andava sempre num suadouro, por andar no corrilório. Um pichorrinho das lavanças, uma escalfeta, uma braseira na cozinha e uma gabardine para a cadela. Tínhamos um irmão músico e dorminhoco, que fazia sandes de vários andares. Uma irmã que andava de túnica, missangas no cabelo e tinha duas amigas inseparáveis. Tivemos uma irmã que passou o cabelo a ferro, dormia com a avó e enchia a casa. Tivemos uma irmã que gaguejava e escrevia bilhetes de amor aos colegas de escola primária. Tivemos uma mãe que fazia domicílios e falava ao telefone com a Juzinha. Tivemos um pai que tinha um assobio próprio para nos chamar. Bebemos Teobar e geropiga. Tínhamos mesas cheias ao jantar e ao almoço. Tínhamos uma prima calma que ajudava a limpar o pó e que leu todos os livros das estantes. Tivemos outra prima que cheirava a Belas Artes e tinha missangas nos cabelos. Tivemos uma avó que descia as escadas ao contrário por causa das correntes de ar. Tivemos empregadas para todos os gostos. Patins, bicicletas e um 2 cavalos. Aulas de ballet e de solfejo. Andámos no conservatório e nas sevilhanas. Tomámos cafés no Bom Dia, no Alfredo e no Cidade Nova. Tivemos uma avó que lia Corin Tellado. Jogámos roleta, lerpa, risco, monopolly, king, sueca, dicionário, obras de arte, cluedo e malefix. Tivemos férias de verão em Espinho. Tivemos férias de Setembro em Viseu. Depois de construída, decoramos uma casa, em Santiago, com o nosso amor e a nossa amizade. Pintámos, todos juntos, uma parede numa adega. Tivemos canas de pesca, jantares na Marisqueira e idas ao Teatro S. Pedro ver a Música no Coração. Tínhamos uma enfermeira Alicinha que cheirava a injecções. Tínhamos o 481535. Tínhamos uma cadela que via o carro do pai passar do parapeito da janela do escritório e vinha esperá-lo à porta da garagem.
Tivemos canários e até um quadro de uma velhinha que metia medo à avó.
Tivemos bolos de anos, festas de pijama, banhos na piscina em Vilamoura. Tivémos risos e lágrimas. Cartuchos, rododendros e até uma mercearia com a Sra. Silvana. Tivemos um salão de estudo, um salão de televisão, uma sala de costura. Tivemos primas que viveram connosco e que se tornaram irmãs. Tivemos uma tia e um tio que é o nosso anjo da Guarda. Tivemos notícias e maravilhas do Brasil. Discos da Rita Lee e do Roberto Carlos. Tivemos zangas e pazes. Abraços e partidas. Mini saias, calças de bombazina cor de laranja e sapatos da Ribeira. Ondas de calor e muita neve no Carnaval. Tivemos matrecos na feira de S. Mateus e fins-de-semana à “Amigos de Alex”. Tivemos casamentos e divórcios. Perdas imensas, irrecuperáveis e gente que veio para ficar. Tivemos festas de passagem de ano como ninguém. Festas de S. João com concursos de quadras. Tivemos programas de televisão e vídeos da Madonna. Jantares com caipirinhas, sushi e leitão. Gravámos nos nossos corações, até à eternidade, a palavra Família e a palavra Ferreira.
Temos caracóis, laços apertados. Vídeos de família, CD’s e árvores genealógicas. Muito amor e tantas memórias que eu era capaz de ficar aqui o resto da tarde.

Depois de tudo isto, que tivemos, graças a vós, que mais é que podemos querer? Nada. Mas podemos pedir-vos uma coisa: nunca se esqueçam disto.
Hoje. E sempre.

11/12/07

As musicas da minha vida

"First of May" by Bee Gees

Ainda sem saber inglês mas percebendo a subtileza e nostalgia dos primeiros acordes desta musica, eu percebi que ela forte. Tocava a todos aqueles que me eram próximos. Ouvíamo-la a partir de um 45 rotações, na aparelhagem pequena do salão de televisão. Os grandes sabiam a letra de cor. Emocionavam-se com as cordas, no iníciom e com as primeiras palavras

“When I was small, and christmas trees were tall,
We used to love while others used to play."


Eu emocionava-me com eles e com a música. Seguia a boca da minha mãe a cantar, os seus olhos húmidos e o sorriso cheio de amor. Lia nos olhos das minhas irmãs a letra desconhecida.
Mas tinha razão, a canção.
Eu era pequena e a árvore de Natal era mais alta do que eu. As bolas eram de vidro, com veludos e brilhantes. Riscas de muitas cores, matizados, estrelas e colagens. Interditas às minhas mãos. As fitas eram grossas e compridas. Azuis, vermelhas e verdes. As luzinhas eram de vidro, muito frágeis. Pareciam neve e tremiam pouco, eu lembro-me de pensar que eram velhas, tão velhas como as fitas e as bolas brilhantes e as caixas onde se guardava tudo, que cheirava a tempo. Mas por isso é que tinham encanto.
No cimo da árvore havia uma estrela grande que era lá colocada somente quando a árvore ficava pronta. Como se fosse a ultima coisa, o seu perfume ou chapéu.
O presépio era de uma riqueza extraordinária. Além de ter todos os que se julga terem participado no nascimento de Jesus, tinha famílias inteiras de ovelhas, machos fêmeas e respectivas crias, que se espalhavam pela montanha artificial, de musgo verde, salpicada de neve branca. O estábulo onde Jesus nasceu até tinha papel de celofane vermelho na janela; e atrás da janela havia uma luz que provocava um reflexo na face de Maria e nas palhinhas onde o Jesus estava deitado. E ele, o boneco de Jesus, tinha lábios de carmim, cabelos louros aos caracóis e uma fralda. Era um verdadeiro bebé e ainda por cima lindo e sorridente.
Maria era lindíssima, tinha um ar muito novo e uma expressão triste mas recatada e eu lembro-me de ter imensa pena dela porque José apoiava-se numa bengala e tinha um ar mais velho do que ela. Os 3 Reis Magos tinham capas ricas e traziam atrás de si um verdadeiro séquito. A vaca e o burro eram tão bem feitos que para mim tinham um nome, uma personalidade e até um temperamento. Tinham olhos meigos de gente. Eu ficava horas a olhar para aquele presépio. Imaginava historias e fazia as respectivas vozes enquanto mudava os bonecos de sítio. Via estrelas cadentes no céu e o frio a sair das bocas de todos eles.
Quando havia música as minhas historias iam mais longe, como ainda hoje acontece. Embalavam-me, levavam-me nos acordes e nas palavras.
Ainda sem saber inglês, eu já me emocionava com esta música, e sem saber porquê sentia um nó na garganta no momento em que se ouvia

“Now we are tall, and Christmas trees are small,..”.

Hoje sei. É a saudade daquela árvore grande, mágica e esplendorosa que os meus pais nos ofereceram e nos ensinaram a amar, que ficou perdida no tempo e que continuará sempre, por todo o sempre, a ser maior do que eu.

04/12/07

olha,



fot. alice wells
se me contares uma história em que eu sou pequena tão pequena que caibo na tua mão eu vou achar imensa graça. Então se me disseres que é bom eu ser assim pequena porque dessa forma pegarás em mim e guardar-me-ás no bolso do teu casaco ou, na camisa, rente à pele, ao morno do perfume, no bolso esquerdo, perto do coração, se me disseres isso, vais ver, eu vou rir-me e vou sentir-me de facto pequena e afundar-me num dos teus abraços que me fazem sentir assim pequena só porque, sabes, gosto de ti.

olhos


Gosto dos teus olhos de miúdo com pestanas grandes.
Gosto dos meus olhos com um risco de eye-liner.
Gosto dos teus olhos depois de acordar.
Gosto dos meus olhos cinco minutos antes de ir ter contigo.
Gosto dos teus olhos a tirar uma fotografia.
Gosto dos meus olhos a falar de ti.
Gosto dos teus olhos a ver os meus livros de colagens.
Gosto dos meus olhos a olhar para as bonecas que me deste.
Gosto de ti e gosto dos teus olhos.
Gosto do amor que vejo nos meus.

Fot. tony ourlser

and that's it

sim às vezes tenho vontade de cortar o que não é de cortar e de ler o que é ilegível de meter a cabeça dentro de um alfinete ou desafiar uma cebola para jogar comigo uns dados de fazer contas com os miúdos da primária a contar pelos dedos de me meter dentro do miolo de um pão e caber nas prateleiras de um hipermercado de ser magra como um palito e sim sou estranha quando posso ser e gosto de o ser e sou quando escrevo coisas e sim ouço vozes nas plantas e nas colheres de sopa e sim sinto os braços tão grandes capazes de chegar ao céu ou a Badajoz e sim sinto-me parecida com um termo ventilador e pequena capaz de caber num grão de arroz e andar de boca em boca e grito fininho e imito o capitão do espaço 1999 e torno-me gás ou num sapato e sim rio sem me sorrir e sim escrevo sem nexo porque é bom não ter nexo em certos momentos e sim tenho cócegas nos pés e de repente torno-me a maior realizadora de portugal e sim às vezes sou isto tudo e acredito que posso ser o que quiser e outras vezes não e sim olhar para as imagens e deixar que elas nos digam escreve Laura escreve sempre miúda grande o que te vai na alma e não te preocupes e escrevo.
And that’s it.

Fot. cornelia hediger

03/12/07

ultra light

esta noite vou adormecer mais devagar
depois tornar-me ar irreal uma poeira ou um insecto
e voar voar tudo até ti
para acordar na tua cama no dia seguinte


fot. bill henson

02/12/07

o rapaz do alfa pendular (4)

Quando termino avanço rapidamente de folha não sem antes voltar os olhos para o corredor, para um senhor de média estatura, barba grisalha, cabelo revolto e com falta de pente. Usa calças de sarja e uma camisa do mesmo tecido. Ao pescoço uma máquina fotográfica daquelas que a gente olha e tem obrigatoriamente que pensar que devem ser boas e caras porque têm um aspecto bom e caro. É engraçada a forma como ele caminha ondulante pelo corredor e segura a máquina, com uma das mãos. É que a maquina está presa no pescoço dele e como tal, não tem como cair, mas ele segura-a com uma atitude protectora, quase de pai. Tem uns olhos grandes, como se os olhos dele já tivessem visto muita coisa e fossem assim grandes, resultado do muito que vêem.
E o senhor de máquina ao peito e barba grisalha, ocupa, assim, a minha segunda página:

“Há quem passe uma vida a fotografar peixes.
Ele passara grande parte da sua vida a fotografar reencontros em estações de comboios.
Aquele momentozinho único em que as duas pessoas se encontram, o minuto, o compasso de tempo em que o coração pára e o relógio também. A luz, o clique.
Entre mães e filhos, entre amantes. Entre avós e netos, entre amigas. Entre pais e genros. Entre namorados de muitos anos e namorados de pouco tempo.
Ele passara grande parte da sua vida a colar em álbuns fotográficos, fotografias de reencontros em estações, numa altura da sua vida em que ele próprio se encontrava disponível para reencontros frequentes e fugazes.
Fotografava mãos pousadas em ombros. Bocas a procurar outras bocas. Corpos trémulos perdidos num abraço. Olhos desfocados e felizes. Abraços chorosos. Reencontros felizes.
Tinha dezenas de álbuns com dezenas de pessoas e de encontros.
Quando fez cinquenta anos sentiu-se só mas continuou a rumar às estações de comboio, às sextas e domingos. E começou, desde essa altura, a coleccionar despedidas.
Porque um dia viu uma mulher que saiu do comboio e que ficou parada na plataforma. Toda ela, corpo, frio, luvas e até a revista Visão que tinha debaixo do braço, procuravam alguém. Alguém que não estava. E isso era terrível. E belo ao mesmo tempo. Era uma situação triste, de perda, porém, com uma luz e uma intensidade extraordinárias.
Aquela mulher solitária fê-lo procurar outras pessoas solitárias que saem dos comboios a achar que está alguém à sua espera mas afinal não. Há 3 anos que as coleccionava.
Desejava ardentemente passar para um diferente estádio da sua vida. É que ele fazia da temática das suas fotografias o reflexo da sua própria vida.
Ultimamente começara a fotografar as pessoas assumidamente solitárias que saem sozinhas dos comboios e que sabem perfeitamente que não vai estar ninguém à sua espera. E destas, destacava as que aparentemente viviam bem com isso e as que tinham a solidão a desenhar-lhe o rosto.
Ambas tinham luz e o tal clique necessário para a fotografia.
Ele enquadrava-se no primeiro grupo, sem bem que havia dias em que tanta falta lhe fazia um pé na cama, à noite, ou uma tigela de sopa quente com dois dedos de conversa.
Podia ser que se começasse a fotografar os que saem dos comboios com ar triste mesmo a pedir que esteja alguém à sua espera, quem sabe, um dia destes não arranjaria maneira de combinar um encontro, uma tigela de sopa ou uma ida à Cinemateca.”

30/11/07

o rapaz que ouvia palavras no silêncio da música

Havia um rapaz que tocava piano e tinha mãos de quem tocava piano. Tinha os dedos torneados como as curvas de um piano de cauda.
Esse rapaz estudava piano até não poder mais. Na sua sala (de um tzero simpático), uma sala musical a cheirar a papel de música, com uma cozinha pequena que mais parecia uma cozinha de brincar. Da janela da sala pequena via-se um grande outdoor com uma garrafa de champanhe e dois copos elegantes. Como se tivessem sido postos ali de propósito para brindar à musica daquele rapaz. A sala tinha mais instrumentos que outras coisas de salas. Mais livros de musica que outros livros que estão nas salas. Tinha uma bateria, tinha microfones, tinha colunas grandes e tinha uma data de coisas que tinham com certeza a ver com música.
Esse rapaz tocava piano até cair a noite. Tocava até ficar fisicamente exausto: músculos e ossos. Até o sangue não conseguir correr mais e adormecer embalado na música dele, até não poder segurar as mãos.
Esse rapaz contou-me um dia que quando tocava certas obras e se deixava levar por elas e ainda pelas mãos, pelo cansaço e pela sua beleza, lhe acontecia uma coisa extraordinária.
É que o ser humano ouve coisas. Ruídos, animais, frases. Ouve, em princípio, o que é audível.
Ora isto que acontecia com o rapaz que tocava piano acontecia mais com uns autores do que com outros.
E então era assim: a entoação da melodia, se quisermos, as palavras que não se ouvem na musica, mas que em muitos casos foram impressas pelo autor num momento forte, ou sem ser num momento forte mas que estavam lá, eram ouvidas pelo rapaz. Ele jurava por exemplo, ouvir, em certos nocturnos de Chopin, a voz dele ou a voz de alguém que, num dado andamento da mão esquerda, rápido e grave, lhe sussurrava ao ouvido “falta dinheiro”.
Tal acontecera-lhe também com Bach e Rachmaninoff. Outras coisas eram sussurradas. Como se os autores as tivessem pensado naquele momento, com tanta força e as tivessem impresso na obra, em forma de música.
Quando isso aconteceu pela primeira vez, o rapaz pensou que estava tolinho. Arrepiaram-se-lhe os cabelos todos do corpo. Ele tirou as mãos do piano, chegou-se para trás e até saiu para a rua para dar uma volta.
O que o rapaz que tocava piano nunca pensou é que isso lhe acontecia assim porque ele ouvia a música de uma forma especial e sentia a música de uma forma especial e tocava a música de uma forma especial.
Eu também fiquei arrepiada quando ele me contou isto.
Em primeiro lugar porque estas coisas não se contam assim a todas as pessoas que encontramos.
E em segundo porque havia alguém que conseguia ouvir na música, aquilo que eu ouço nas palavras.

para JdF.

28/11/07

a mulher e a cadeira



fot. baldomero fernandez
“Escolhe uma”.
E ela escolheu. A que tinha o assento mais escuro, velho e roto.
Talvez por pensar que nela se tivessem sentado mais pessoas.
Escolheu a que lhe pareceu mais solitária e a que tinha as pernas mais bambas.
Escolheu aquela que nunca tinha recebido um banho de tratamento ou de verniz.
Escolheu aquela que se destacava, entre as outras, por ter um ar mais triste.
Escolheu aquela que lhe pareceu ir ficar mais agradecida por ser escolhida.
E depois de lhe ter pedido para escolher ele escolheu também.
E escolheu-a a ela.
E deu-lhe vestidos de veludo, brocados e dourados. Flores para os cabelos e jóias de família.
E apresentou-a aos outros todos como sendo sua, a sua mulher.
Ensinou-a a fugir da solidão e a usar as palavras certas.
Deu-lhe banhos de rosas e chás dos quatro cantos do mundo.
Mimou-a e ensinou-a a rir.
E quando finalmente lhe ensinou isto tudo, mandou tirar um retrato dos dois, para as gerações vindouras conhecerem aquela que um dia escolheu a cadeira mais triste e se tornou sua mulher.

crónica feminina

Havia, em casa da minha avó paterna, no piso de cima da casa enfeitada, um armário que também era sofá e acho que também era divã. Esse armário tinha nas extremidades, duas fileiras de livros da corin tellado e da crónica feminina.
As crónicas femininas faziam as minhas delícias de miúda muito interessada no universo feminino. As unhas compridas da mulher do anuncio do Atrix, uma modelo de olhos verdes, loura, numa pose sensual. A reportagem de moda, a preto e branco.
A sopa de letras no fim. O cheiro daquelas crónicas, que eram um misto do frio de Viseu, os cozinhados da Lucília, as mãos a cheirar a Madeiras do Oriente, da minha avó.
As crónicas femininas eram uma espécie de visto para a idade adulta.
Pegar nelas era sinónimo de sombra azul clarinha nos olhos, batôn vermelho e saltos altos.
Alinhadas naquele armário, pareciam elas próprias guardar os segredos de tantas mãos e mulheres que nelas mexeram. Mãos e mulheres especiais.
Alinhadas naquele armário, foram lidas por mim, em tantas tardes. Tardes de verão quente, muito quente. Com o relógio a bater na cozinha a embalar o cheiro dos cozinhados das flores, das louças e dos perfumes e com o meu desejo e curiosidade latentes, prementes, a brotarem-me das mãos e dos olhos.
Alinhadas naqueles armários, alinharam-se num qualquer recanto da minha pessoa e hoje, finalmente, revisito-as.
Vem-me à memória o cheiro delas, a textura do papel, os anúncios e os dizeres.
A sensação da vontade tão grande de ser mulher adulta.
Idêntica à vontade, que tenho de repente, de ser criança.
Só para poder estar naquela casa mais uma vez, e sentir os cheiros, descobrir os barulhos, ler os objectos e assimilar as cores.
E sentir-me feliz, mais uma vez, por saber que vamos jantar todos na copa, a avó Amélia vai sentar-se mais cedo à mesa e comer a sopa quase com a cara metida do prato. No outro extremo da mesa, o Tio Zé come a salada. Sentamo-nos um a um. Conversas cruzadas. Risos. O cheiro de Inverno e de lareira. De Natal. De Ferreiras.
Porque nós temos um perfume. E a nossa felicidade tem um nome.


Para alguém que me faz assim, feliz, mesmo quando recordo coisas que nunca mais vou poder viver.
E para todos aqueles que embarcaram comigo nesta odisseia que vai ser a 25ª produção do Palavras Loucas Orelhas Moucas.

25/11/07

s i m

há uma cor que ficou comigo
uma mão que ficou na minha
um movimento de corpo que abraçou o meu.

há uns olhos que descansam nos meus
há um segredar que não se ouve
um respirar que adivinho
o cheiro que sei de cor.

há as mesmas palavras de sempre
ritmadas, sentidas, muitas.
ao som de uma música
a música do amor que me ensinaste
no fundo do mar na cama do outro lado do mundo
e aqui, agora, hoje e em qualquer lugar onde me encontro.

o rapaz do alfa pendular (3)

“Cruzaram-se no bar assim como não quer a coisa.
Na verdade não era bem assim porque ele queria a coisa toda, queria-a mesmo toda, com todas as forças do seu ser, lembrara-se desta expressão há uns dias atrás e não gostava dela, da expressão, mas era o mais próximo daquilo que sentia.
Ela pediu um bolo de arroz e um café e ele pediu um café e um bolo de arroz.
Ele reparou no pulso fino dela com a pulseira do senhor do Bonfim a deixar adivinhar uma cor não adivinhável quase por um fio, a pulseira e perto dela, da pulseira e do pulso fino, um fio de cabelo. Ele concentrou-se naquele fio de cabelo enquanto ela pagava um euro e setenta e cinco cêntimos disse o empregado com ar de frete, gordo e anafado, metido nos sapatos parecia que tinha sido metido nos sapatos à força em criança e lá permanecera desde então. O pulso recolheu-se com a mão porque a mão guardou o troco e o fio de cabelo, obviamente também.
Mas ele pensou eu não posso perder este fio de cabelo dela, não posso e então aconteceu uma coisa extraordinária, que só acontece em filmes ou então em obras de ficção, o pulso dela voltou porque a mão voltou para pegar numa mísera moeda de dez cêntimos e eis que o fio de cabelo se desprende do pulso dela como se de repente tivesse ganho vida e fica pousado no balcão à espera dele. Nada mais. Aquele fio de cabelo dela nasceu para esperar por ele, naquele dia.
Ela desapareceu com o café e o bolo de arroz, perdão, o bolo de arroz e o café e foi encostar-se ao pequeno balcão, do outro lado.
Ele repetiu as palavras que ela havia dito, como se as partilhasse.
Um café e um bolo de arroz. O empregado carrancudo anafado metido nos sapatos à força serviu-lhe o pedido. Ele mantinha o cabelo na sua mão. Sentia-lhe o toque, o perfume, a maciez. Sentia-se capaz de reconstituir a vida daquela mulher, por aquele fio de cabelo.
Pagou um euro e setenta e cinco cêntimos e quando se aproximou dela e do pequeno balcão em frente apenas restava o papel do bolo de arroz, inteiro, a chávena de café vazia e nela, uma marca subtil de baton castanho.”

21/11/07

o rapaz do alfa pendular (2)

Eis que um dia me meto no comboio para ir ter com a Estela, a minha namorada de 8 anos e que tem 28 anos e deparo com uma mulher no comboio que me dá um nó na cabeça e noutros sítios também e tenho a minha vida desarrumada de repente.
Durmo três horas por noite. Há um ruído no silêncio da noite que só eu ouço porque ele é a voz da minha ansiedade e esse ruído acompanha-me durante o dia.
Passei de 3 para 13 cigarros por dia, o meu estômago dói-me mesmo depois de comer.
Sinto as pernas bambas quando vejo boinas, emociono-me com músicas ridículas e agora só reparo em coisas como viagens de lua de mel, avós que tratam tão bem os netos, e coisas de casa tipo conjuntos de facas com cabos às bolas pretas e brancas.
Tenho a casa desarrumada, como a vida, vejo aquelas luzinhas brancas e cintilantes, constantemente, típico das pessoas ansiosas.
Fiz anos há uma semana. A Estela ofereceu-me uma colecção de livros de ensaios sobre estética e arte e teatro e fotografia “para te entreteres no comboio” disse ela e eu pensei se tu soubesses como eu me entretenho no comboio davas-me era uma venda para os olhos.
A coisa piorou substancialmente esta semana. Acordei hoje a meio da noite banhado em suor. Estive 3 horas a fazer amor com uma ideia, com a memória de uma pele que não conheço e de um sabor que nunca provei.

19/11/07

a mulher de papel



fot. dinu li
Conheceu-a nas paredes da casa.
Ela era a primeira a dar-lhe os bons dias, todos os dias, sempre que chegava ao fundo das escadas. Parava em frente às fotografias. Corava no início. Beijava-a uns meses depois.
“Estás elegante” – ele punha palavras na boca dela. Num dos retratos, nunca no mesmo.
“Não demores. Tenho saudades”.
Um dia pediu-o em casamento. Mas ele não aceitou porque não podia.
Chorou muito muito e acabou por nunca casar.
E morreu de velho, curvado, convencido amar aquela mulher chinesa embaciada pelo tempo, mãe dos filhos que nunca teve, voz do amor físico que não conheceu, mas amor derradeiro, único e indiscutivelmente seu.

15/11/07

f i c a

Guardava os momentos deles em fotografias.
Com imagem e a imagem às vezes tinha musica e tinha cheiro.
Talvez por isso ela guardasse cada fotografia como se fosse um bocadinho dele.
Pelo menos ela pensava assim.
Podia ser que um dia ela pudesse juntar os muitos bocadinhos para poder fazê-lo inteiro e para depois lhe pedir que não fosse embora amanhã, que demorasse mais tempo, que demorasse o tempo que pudesse.

14/11/07

o rapaz do alfa pendular

um

Fecho os olhos para tentar dormir.
Ao meu lado uma rapariga de boina de fazenda. Gira, a boina. A rapariga, não sei. Não lhe consigo ver a cara. Está sentada de lado e tem a cara tapada com uma revista, a Premiére.
O rapaz da rapariga da plataforma, do outro lado do corredor, de auscultadores nos ouvidos.
Uma senhora de cabelos brancos, dois lugares à frente, que olha através da janela desde que o comboio partiu. Impressiona-me a sua falta de expressão no rosto. Os rostos têm sempre uma expressão, por mais pequena que seja. Mas não aquele. Tenho dúvidas se ela respira. Parece estar morta.
Pego no meu bloco novo. Sinto sempre uma impressão no estômago, quando vou estrear um caderno. Gosto do cheiro do papel e das folhas brancas, dependentes das minhas palavras.
Com a caneta castanha, na primeira folha, escrevo com uma letra redonda “histórias de comboios”. É uma ideia que me veio à cabeça na última viagem.
Anotar o que vejo, o que sinto, o que me emociona. Escrever histórias pequenas, das pessoas que vejo. Histórias irreais de pessoas reais.
Avanço de página e sem pensar, começo a escrever.

(continua)

histórias de combóios

Aquela mulher sentou-se no lugar 45 da carruagem 5 com uma criança incrivelmente sorridente. Ela, a mulher, chorava baixinho. Sentou a criança na mesinha e escondeu-se ali atrás dela a chorar. A criança ria ria e a mulher chorava chorava. A mulher era muito gorda. Tinha uma mola a prender o cabelo e estava vestida de preto, se calhar alguém lhe disse que as pessoas que se vestem de preto ficam menos gordas e é verdade. Embora sendo muito gorda a mulher parecia menos gorda assim vestida de preto. A criança ria e palrava alegremente. Segui o choro da mulher e as gracinhas da criança e dei conta de um homem, na estação. Igualmente gordo. Quase tão gordo como ela. Vestia uma daquelas t-shirts que se ganham nas corridas ou nos rallyes-papers. E chorava. Fumava e chorava e esconda-se atrás da mão porque não tinha nenhuma criança para amparar o seu choro. Dai o seu choro ser um choro abandonado. O peito sacudia-se em convulsões pequenas e envergonhadas, típicas de um homem que supostamente não devia chorar. A criança continuava a palrar, a rir muito para aquele pai inconsolável e a dizer-lhe adeus. E os dois continuaram a chorar até o comboio arrancar e até os olhos dos dois se desprenderem, obrigados, à medida que o comboio arrancava, pesado, tirando a um e a outro aquela segurança que se encontra no olhar quando se gosta.

histórias de mulheres - um (D&G)

A nossa última discussão foi simples e civilizada.
Vai à merda, eu desferi.
E ele respondeu “vou-me por nas putas”.
Ele era assim. Um homem simples. Já a minha mãe me tinha avisado.
Ele não põe o guardanapo nas pernas quando se senta, filha. Arrota na cozinha, quando julga que ninguém o vê.
Eu pensei que essas coisas se aprendem mas na realidade há coisas que não se aprendem.
Eu não chorei grande coisa. Aliás vou chorando cada vez menos. Deve ser da idade. Apaixono-me doentiamente e chorou pouco, quando termina tudo.
Quando ele saiu com o ultimo carregamento de coisas eu vesti-me bem, pintei-me e fui-me sentar numa esplanada, ao sol. Com a desculpa que há muito tempo não me sentava numa esplanada ao sol, com a desculpa que ele era daqueles que ficava furioso quando eu lhe dizia que me ia sentar numa esplanada ao sol. Fui. Com as minhas calças novas D&G, com a minha mala Prada que é um espanto, com o meu gloss cor-de-rosa da Lancôme que comprei no aeroporto.
Não sei o que me deu. Sentei-me, aparentemente bem, comecei a folhear uma Elle e de repente, à minha frente, uma jovem nova, bela, com a cara lisa, a pele lisa, tudo liso, até os olhos e de repente numa convulsão de choro só consegui pedir uma garrafa de água e fiquei para ali a molhar de lágrimas teimosas as folhas da Elle, as folhas com a publicidade e não só. As lágrimas deram para ir até aos acessórios…
Felizmente que a Teresinha me ligou e eu já estava mais calma, de modo que estive com ela ao telefone o tempo todo em que paguei, peguei na revista e me afastei, ondulante, sabendo dos olhos e das cabeças a pregarem-se no meu traseiro bem encaixado nas minhas calças novas de 300 euros.

(to be continued)

05/11/07

profundamente

aquela mulher que esperava todas as tardes perto daquela ponte esperava um amor profundo tão profundo como as águas daquele rio e às vezes ela comparava-o a elas porque esse amor ficava mais cinzento ou mais azul mas não interessava o que interessava era o amor que lhe crescia no peito e que ela lhe dedicava em silêncio e confiava a saudade à sua almofada e muita gente não acreditava nela mas ela sim ela sentia e um dia até lhe tinham dito esperas demasiado não esperes e também lhe disseram daí só vão sair peixes mas ela riu um riso calmo sem pressa ela era assim nestas coisas do amor tinha calma tinha uma calma que não tinha para quase mais nada porque no resto ela era ávida às vezes aflita mas aquela espera era uma espécie de promessa não cumprida irreal feita por um desconhecido que ela sabia existir e sabia sabia como era o cheiro dele e o toque e até a respiração antes de adormecer sabia isso e sabia outras coisas que as pessoas normais não sabem ler e era por isso que ela o amava assim de uma forma profunda como aquelas águas azuis.
Profundamente.

31/10/07

a tua cor

a tua cor,
é a cor que há em mim
foi bom crescer assim,
à tua cor...

a tua cor,
conheço-a do meu peito
pintada a teu jeito:
à tua cor.

e vê-la sempre assim, se desse...
a tua cor em mim fenece.
a tua cor

a tua cor,
roubada à minha estória
procuro-a na memória
da tua dor...

a tua cor:
riscada no teu rosto
marcou, qual fogo posto,
a minha cor...

e vê-la sempre assim, se desse...
a tua cor em mim fenece.
a tua cor

letra e música: tó
tocada por tó e kiki; cantada por lau; no dia dos 50 anos da Bé.
a fotografia acima é da cara dela a ouvir...

30/10/07

Adormeceu naquela noite e acordou ao 3º dia e a mãe que era muito religiosa passou a acender uma vela junto à fotografia dela.
E ao seu lado, enquanto dormiu, entre outras coisas, apareceram umas bolas castanhas que a mãe julgou serem castanhas fora de época e apanhou, embasbacada.
Mais tarde, comprovou estarem estragadas quando fez puré de castanha para acompanhar o assado.
A partir daquele dia, ninguém sabe explicar porquê, toda a gente começou a tratá-la de maneira diferente e a sussurrar, sempre que ela aparecia “aí vem a esquisita…”.

fot. TERESA HUBBARD ALEXANDER BIRCHLER

j e s u s (pronunciado em inglês...)

25/10/07

p a i

Reparei hoje no branco do cabelo do meu pai.
E constatei que o vi embranquecer. E que gostei muito que isso tivesse acontecido.
Reparei hoje nos olhos pequenos do meu pai, chorosos como os olhos das pessoas que já viveram muito, brilhantes e mais pequenos, como se estivessem cansados por terem visto já tanta coisa e se encolhessem para descansar.
Outrora o meu pai tinha olhos castanhos e verdes e isso notava-se logo à partida. Eram olhos rápidos, fortes, grandes.
Hoje saltam à vista, em primeiro lugar a ternura e a seguir uma qualquer inocência que só é visível nos olhos das crianças e isso deve-se à doce inversão dos papéis da vida, depois de uma certa idade.
O meu pai continua a ser o meu porto de abrigo. Que eu procuro na doença, na tristeza, na alegria.
Das únicas pessoas do mundo em quem eu penso como tendo por mim um amor acima de mim. Das pessoas por quem eu tenho um amor que não sei quantificar.
Um amor que persiste a tudo e que continua a aumentar, como os cabelos brancos dele.
Hoje, conversei muito com o meu pai.
E nos 80 anos dele, com o cabelo todo branco e os olhos de felicidade por estar comigo, reflexo da felicidade de eu estar com ele, disse-lhe o quanto ele era importante para mim como acho que nunca lhe tinha dito.
Fiz-lhe festas e mimei-o e voltamos à infância e ele passou a ser o meu pequenino e peguei-lhe ao colo para lhe afagar os cabelos eu passei a ser a mãe dele e ele sentiu em mim uma qualquer protecção que não é nada normal mas ele ensinou-me a ser pouco normal nestas e em muitas coisas, como por exemplo, dizer tudo o que penso e pior, escrever isso aqui.
E ali estivemos os dois, ele a contar-me coisas só dele e eu a aumentar o meu manancial dessas tantas coisas que já tenho guardadas e que continuo a guardar sempre da mesma forma: religiosamente, como tesouros.
E eu, a contar-lhe coisas que os filhos contam mais às mães, mas também foi ele e os cabelos que foram enbranquecendo, que me ensinaram a ser assim.
E de repente disse-lhe que ele era uma das pessoas mais bondosas que eu já conheci e que ele tinha dos melhores sentidos de humor que eu também conheci e ele apoiou a cabeça nas mãos como um miúdo envergonhado, baixando os olhos.
E foi assim que ele se sentiu ali hoje comigo. Pai, miúdo, amigo, irmão, cansado, mas feliz.
Porque o meu pai tem hoje a felicidade plena quando quando está com os filhos.
E foi isso que eu senti ali com ele hoje. Miúda, mulher, mãe, confidente, companheira, irmã, cansada, mas feliz.
Porque tenho a felicidade e plenitude deste amor que lhe tenho, espelhado nos olhos dele.

24/10/07

não sei se demoro



fot. tracey s.
Vou dar uma volta.
Deixo no frigorífico fruta, legumes e um pacote de manteiga que só tem um bocado.
Nas gavetas da arca tens comida.
Levei a mala pequena. Não é sinal que vou demorar-me pouco.
Não levei o carro. Não é sinal que volto depressa.
Avisei a D. Emília do segundo C porque me apanhou a sair de casa.
- Olá menina, ela.
- Olá, D. Emília, eu.
- Vai viajar? – E os olhos pequeninos e gulosos olharam a mala e comeram-na e a seguir vomitaram-na e a seguir comeram-me a mim.
- Não! – Eu, nervosa, com comichão no nariz, a não querer dar explicações.
- E o maridinho está bom? – Ela, gulosa de novidades pequenas, de coisas sem sal, para tornar o seu dia insignificante num dia menos idiota, nem que seja o preço do frango de fricassé.
- Vou levar uma roupa à lavandaria… - menti.
- Ah… - ela, com os olhos pequenos, famintos, a boca a salivar de intrigas, de pequenos venenos.
Eu prestes a começar a gritar, a mão a torcer o vestido e às tantas não saber se é a mão ou o tecido e as lágrimas a obrigarem os olhos a… a…
Zás. Fechei a porta e parti o vidro, por isso vais ter de pagar o vidro porque fui eu que o parti.
Ela ainda disse alguma coisa e logo depois juntaram-se todas à volta dos cacos e porque não têm mais nada que fazer inventaram logo ali uma história sobre os cacos e contaram histórias sobre coisas partidas, corações, vasos, unhas e casamentos.
Eu continuei. Com a mala na mão a contar-me do seu peso.
Com o coração acelerado dos cacos e da partida.
Ainda não sei se demoro.

23/10/07

l u z




fot. tracey baran
Gosto de ti quando adormeço, todas as noites, abraçada no meu próprio abraço porque não posso dormir abraçada a ti.
Gosto de ti quando acordo e abro a persiana do quarto e o dia está cinzento.
Gosto de ti quando como, ao pequeno-almoço, os frutos silvestres sem açúcar com o iogurte magro sem ponta de açúcar.
Gosto de ti até quando me sinto esquisita.

22/10/07

três coisas de falta





fot. jessica bruah
Às vezes fazes-me falta quando encontro uma aranha ou uma centopeia do chão da cozinha e preciso de a matar e não mato.
Quando encontro nas flores que compro um bicho que me salta para o decote e mergulha nele.
Quando quero despachar alguma coisa de casa e não sei que lhe hei-de fazer… tipo vasos mortos.
A minha casa está cheia deles.
Mas não gosto de os deitar fora.
Por isso às vezes fazes-me muita falta.

18/10/07

de e do amor



Vejo os teus olhos azuis vestidos de negro. De amor.
Leio na curva triste dos teus lábios uma tristeza que te faz ficar pequena. De amor.
Percebo no teu corpo de menina um tremor constante de medo que não quer ter medo. Do amor.
E paira sobre ti uma nuvem pesada que te esconde o sorriso e o azul.

Mas..
Já via à tua volta castelos enormes, dosséis brancos e dias felizes.
Risos de menina e flores. Livros cheios e luas enormes.
Gente, muita gente, que fala, que ri, que está.
Pudesse eu resgatar-te essa tristeza.
E fazer de ti outra vez aquela menina feliz que fala, que ri, que está…
De grandes olhos azuis, sorriso franco, da verdade que lhe vem da alma e que lhe mora nas palavras, todos os dias da vida dela.

para p.

fot. de jenny lynn

15/10/07

m ã e

Eu tive uma mãe que não me ensinou a cozinhar, a passar camisas de homem, a ferro. Não me ensinou a limpar pratas ou a ser uma boa dona de casa.
Mas eu tive uma mãe que me ensinou:
A falar com meiguice, com os animais, e a esperar deles um retorno quase humano.
A falar com meiguice, com toda a gente.
A compreender as histórias de encantar para além dos livros. A acreditar que os cabelos compridos das princesas podem ser os nossos cabelos, se nós quisermos.
Ensinou-me a coçar os olhos, e fazia-o, com o seu queixo, com tanta suavidade, nos meus olhos fechados.
Ensinou-me a preservar a minha pele. Ensinou-me a importância do cabelo e da elegância.
Ensinou-me a ouvir, ouvindo-a.
Ensinou-me o significado das palavras “mimo” e “doce”. Ensinou-me a falar baixinho e ensinou-me uma oração para espantar a trovoada.
Ensinou-me a gostar de cinema quando nem sabia ler.
Ensinou-me a amar coisas, como bonecas, momentos e cheiros.
Ensinou-me a gostar de música clássica.
Ensinou-me coisas muito miúdas, que ninguém seria capaz de ensinar. Recordo uma delas, com este carinho todo: a primeira viagem para o Brasil. Ela veio ter comigo com um pequeno saco plástico fechado. E fê-lo porque sabia que eu era a única que o levaria. “Tens rolhas, lá dentro. Pode-vos fazer falta para lavar a roupa”. Eu tive vontade de rir, achei que aquela era só mais uma bizarrice da minha mãe. Mas levei.
E o engraçado é que passados dias, estávamos nós os quatro filhos, no Brasil, a usar as rolhas, para lavar alguma roupa no nosso quarto de hotel...aquelas rolhas que aquela minha mãe me deu, com aquele cuidado especial de quem pensa nas vírgulas...
A minha mãe ainda hoje me ensina coisas pequenas e delicadas como tirar uma nódoa a uma peça boa, de roupa.
A minha mãe ensinou-me a ser a pessoa que sou hoje.
A minha mãe ensinou-me a gostar de coisas pequenas, a agradecer o que tenho, todos os dias.
Ensinou-me a rezar sem peso e sem obrigatoriedade. Ensinou-me a recordar quem já não está, sem tristeza.
Ensinou-me a conhecer as pessoas da família, que não conheci. De tal forma que seria capaz de falar delas a alguém.
Ensinou-me a fazer ovos escalfados.
Ensinou-me, sobretudo, a amar.
Os que me rodeiam, as paredes da minha casa, as fotografias, as jarras e as cores.
A minha mãe tem, quando lá vou, uma pinça para as minhas sobrancelhas, um recorte disto ou daquilo. Tem o meu jantar preferido e o meu pão preferido. Tem uma coisa para me mostrar e uma coisa para me perguntar.
Tem o amor estampado no rosto. Tem o amor a envelhecer-lhe a pele e a tingir-lhe o cabelo.
Tem o amor no corpo magro e nos dedos tortos.
Tem o amor na beleza que ainda conserva. Nos olhos cinzentos cheios de vida e nos dentes brancos, abertos num sorriso.
Tem o amor no abraço que me estende e na voz que me dedica.
E tem, o meu amor, todos os dias da vida dela, com a intensidade com que me ensinou a amar.

12/10/07

La Ballade de la mer salée

Vendeu a casa num Sábado de tarde, a uma família de Torres Vedras.
Uma semana antes, embalou a maior parte dos livros. Muitos, não lidos, far-lhe-iam companhia nos próximos tempos. Levá-los-ia com ele.
Escolheu cd’s e meteu-os noutra mala. Meteu numa mala, para levar, bonecos e cadernos de capa preta escritos. Alguns muito escritos, gordos. A verter memórias.
Escolheu também uma dezena de filmes. E para alguns, o respectivo chá.
Deu plantas, caixinhas, chás e sabonetes. Ofereceu perfumes, livros, amostras, malas e sacos especiais. Mandou guardar revistas, cortinas, filmes e fotografias. Tudo catalogado, numa letra que só ele percebia, numa letra que só ele tinha de perceber.
Entregou a chave de casa num Sábado de tarde e nesse mesmo Sábado, com o coração a querer furar o peito, dirigiu-se para a sua nova casa.
O Barco, onde passaria os meses seguintes.
Carregou para ele os sacos, um a um, como se destinasse mentalmente cada objecto, a cada lugar.
Enquanto ia fazendo isso, o sol ia descendo e a temperatura ia ficando cada vez mais amena.
Às 19 estava tudo arrumado. O carro fechado e a chave no lugar combinado.
Às 19 e 15 pousara na pequena mesa o seu molleskine preto, por estriar e uma caneta oferecida por uma namorada.
Às 19 e 30 estava sentado à mesa com os olhos fixos no carro, no passado e no caderno de capa preta.
Às 20h deixou de ver terra. Desligou o motor. Ligou a aparelhagem e preparou o jantar.
Havia ainda alguma luz. Pássaros cruzavam o céu, baixinho. De vez em quando um barulho de madeira a estalar.
Debaixo dos seus pés o oceano para descobrir.
Deixou-se levar por cheiros e cores. Respirou fundo.
Abriu o livro na primeira página e escreveu.
“Leve”.
E esta palavra era de facto pequena para descrever o que sentia, naquele momento. Ainda que achasse que muito pouca coisa o deslumbrava ou emocionava, sentia-se, naquele momento, emocionado. Aquela era a vida que escolhera. Aquele era o descanso merecido. Com os seus livros, filmes, chás e memórias. Companheiros preciosos, silenciosos, alguns de décadas.
Agora sim, ele teria tempo para escrever, muito tempo. Para fotografar. Para correr o mundo.
Sobretudo para sentir, experimentar e saborear, o novo que sentia, uma espécie de coisa boa que ele não conhecia muito bem, mas que já ouvira falar.


Para alguém com espírito de marinheiro.
Que gosta de molleskines gordos, a verter coisas.
Que eu amo.
E que tem uma alma muito, muito grande.

ilustração - m. prado

10/10/07

Eu queria muito abordá-la.
À minha volta dançava-se e bebia-se. Ou melhor, dançava-se porque se tinha bebido. Muito.
Ela parecia ter ficado assim, do dia anterior. Estava exactamente na mesma posição. O Tony, que entrara comigo, já meio bêbado, comentou “vê lá se ela não está morta”. Depois apertou-me o braço, afectuosamente, e disse-me baixinho “tu arranjas sempre umas gajas muito esquisitas”.
Dirigi-me ao bar. Ela continuava na mesma posição e o lugar ao lado dela estava vazio.
Sentei-me. Pigarreei para me anunciar mas, que idiotice, ela não ia ouvir no meio daquela confusão toda. Seria ela surda, lembrei-me eu de repente. Podia ser.
Observei-a, de soslaio. Nada no seu corpo se mexia, a não ser o peito, para cima e para baixo, num suave respirar e um fio vermelho de cabelo, por causa do ar condicionado. Fiquei assim tanto tempo que começou a doer-me o pescoço.
Fumei um cigarro, esvaziei dois copos de whisky e pedi ao barman que a servisse de um Martini. Com uma azeitona verde. “Para condizer com o seu vestido”. E ri-me para ela. E o meu sorriso bateu numa barreira invisível e voltou para trás mas não para a minha boca porque de repente eu deixei de ter vontade de rir.
Engoli em seco, recebi da pista um olhar penoso do Tony e do barman um encolher de ombros e foi então que decidi avançar.


ilustração: J. Loustal

in a sentimental mood



ilustr. m. prado

09/10/07

Voltou o calor. A erva ficou verde e o céu, afogueado, choveu e teve sol.
Eu própria tornei-me numa mulher diferente.
O meu corpo modificou-se. A cor do meu cabelo também. As mãos têm mais sinais. Às vezes entretenho-me a unir, com uma caneta, os sinais das minhas mãos.
Já bebi inúmeras garrafas deste vinho doce e inofensivo.
Os miúdos da casa cresceram e já se foram.
Até a moda mudou.
Continuo a olhar para a linha do horizonte deste mar, à procura de um ponto de luz qualquer que me indique que vais voltar.
Há quem diga que morreste.
Há quem diga que pura e simplesmente foste embora porque estavas cansado e não tiveste de coragem de dizer adeus.
Há quem não diga nada porque tem pena de mim.
Eu penso, em certos dias, que a coragem é coisa de gente e por isso custa-me a acreditar que me tenhas deixado aqui a engordar e a envelhecer.
Costumavas dizer que há muito mundo para ver a quatro olhos.
Visto este vestido todos os dias na esperança de ser hoje, o Dia. Gostavas do toque deste vestido. Fazia cócegas nas tuas mãos duras. Quando me acariciavas tinhas medo de o “estragar”.
Já tive de o ajustar ao corpo uma dúzia de vezes. É que fica apertado e lá vou eu descoser a bainha para o alargar.
Só que as bainhas não têm muito mais tecido.
Decidi que quando não o puder alargar mais vou deixar de me sentar aqui.
Gostavas que eu me sentasse aqui quando voltavas do mar. “Pareces uma pintura” dizias. Digna de reinar nos melhores museus.
Quando este vestido deixar de me servir será Inverno outra vez. Vou estar mais velha, gorda. O céu vai estar cinzento e o mar zangado.
Não vai valer a pena manter esta janela aberta.

08/10/07

sem filhos e sem verbos

A mulher sentada no autocarro, ao meu lado, diz-me numa voz clara e cheia de sotaque “o carro pára na casa da música, menina”. E mostra-me uma boca de dentes estragados.
O pior é que aquela mulher é bem capaz de ser mais nova do que eu. Trata-me por menina a partir dali.
Conta-me a sua história. Sai de casa às 6 e meia, todos os dias da semana, depois de arranjar o “comer” do marido e deixa os filhos numa ama. Volta a ir buscá-los às 8 e meia da noite. Depois de ter apanhado metro, autocarro e por fim camioneta, 2 horas de viagem.
Trabalha como doméstica numa casa há 23 anos. Ela é que “tem a mão em tudo”. Ninguém sabe onde está nada, diz, orgulhosa.
Criou os 5 filhos da patroa. É como se fossem dela.
Primeiro era interna e depois casou e foi para a casa dela. No meio de tudo ainda arranjou tempo para ter os seus filhos, tirar a carta e fazer até ao 9º ano.
Por esta altura, a adolescente sentada à nossa frente, de unhas pretas com meio verniz e borbulhas atrevidas da puberdade espalhadas pelo corpo e o homem que vai com ela e que pode ser seu padastro ou tio, ouvem a história desta mulher com atenção.
Uma vez foi operada e enquanto esteve internada fazia folhas e folhas de numeração romana, até ensinou um enfermeiro a fazer contas de dividir daquelas que têm muitos números.
Adora ler e tudo que lhe cheira a estudo. Só não lê no autocarro e na camioneta porque fica “ourada”.
A adolescente baixa os olhos. O padastro ou tio continua a olhar para ela, para a mulher.
De rabo-de-cavalo mal feito, corpo grande, casaco de malha demasiado grosso para a época, mas uma qualquer sensibilidade nos olhos extenuados, olhos inteligentes com alguma água e uma alegria que lhe vem de uma qualquer coisa que não a sua vida triste e sacrificada.
Uma vida de viagens, sem filhos e sem verbos.
O “carro” para na casa da música. Eu desejo-lhe felicidades. Ela diz-me “saudinha”. Eu saio. Ela fica. Eu paro no passeio, a olhar para ela.
O autocarro arranca, pesado.
Eu sorrio-lhe. Ela continua a sorrir, mesmo quando deixei de a ver.

19/09/07







Ensinaram-me um dia, que devemos ser a nossa melhor companhia, a sermos o(a) nosso(a) melhor amigo(a).
Claro que é bom termos amigos e gente à nossa volta e assim, claro que é.
É bom termos um animal que olhe para nós com olhos de gente.
Porque os animais que olham para nós com olhos de gente fazem-no, porque nós olhamos para eles com olhos de amor.
É bom termos plantas que vão connosco de casa para casa. E que se acostumam às paredes e ao cheiro, que varia de casa para casa…
É bom termos casacos que vão connosco de armário para armário.
É bom termos objectos que são estáticos, mas que por serem nossos às tantas até se parecem connosco.
Mas é bom, muito bom, termo-nos.
Sentarmo-nos num qualquer banco de jardim, sendo velhos ou novos e conversar…connosco. Ter conversas mais profundas com o chapéu que nos fala do alto, com racionalidade e certeza. Ter conversas com os botões da camisa, rentes ao peito, mais profundas e emotivas.
E depois, chegar a casa e escutar a voz de cada objecto, que tendo incorporado ao longo dos anos a nossa história e as nossas conversas e os nossos pensamentos, discute connosco o tempo, a conjuntura politica, tem conversas de mães e zanga-se como um autentico namorado. E continuam, alguns deles em cacos, outros colados, outros com o pó a esconder-lhes a cor, outros com a cor desaparecida. Mas estão lá, acompanham-nos até ao fim e muitos ficam para além de nós.
À espera de encontrar alguém que os consiga ouvir e a quem possam contar as histórias das vidas que já viveram.

18/09/07

apetecia-me ouvir música contigo...


fot. hans drukker
entendo os que me dizem às vezes tenho vontade de ser sombra ar nada vento roupa para que não doa não sinta não sofra.

fot. de louise bourgeois



14/09/07

1 2 0 5


fot. thora birch
Ela roubava flores em qualquer sítio. Em canteiros, com a placa de "proibido" ou "cuidado com o cão" ou até nas barbas dos donos dos jardins.
Mas fazia-o com tanta graciosidade que os cães ou os donos ou as placas até lhe achavam alguma graça.
Havia quem roubasse carteiras ou bicicletas. Ela roubava flores.E, tal como tantas que ela já roubara, a esta ser-lhe-ia tirada uma fotografia, secaria na cómoda, no meio de outras, até se desfazer e se confundir com o pó e por fim, ser limpa.Seca de corpo, com a alma a ditar uma história.
E numa qualquer agenda, uma data escrita por uma mão feliz, numa qualquer tarde de um quente dia de verão.

deep blue




O meu amor está longe e está aqui.
O meu amor dá-me abraços molhados e conta-me histórias ao ouvido.
O meu amor mostrou-me uma enorme quantidade de azuis.
Ensinou-me coisas pequenas e coisas grandes.
Faz-me chá japonês e oferece-me livros em que a heroína se chama Laura e rouba sorrisos a toda a gente.
O meu amor é grande e tem saudades.
O meu amor é passado e é presente e faz-se todos os dias mais um bocadinho.
O meu amor é paciente e é engraçado.
Levou-me a ver peixes no fundo do mar e estrelas-do-mar vermelhas.
Levou-me a ver um por do sol a sério com todas as cores que um por do sol deve ter.
Levou-me a ver o frio muito longe. A conhecer o quente do abraço dele.
Levou-me a ver coisas que me põem água nos olhos.
Rouba-me sorrisos, muitos.
O meu amor mostra-me filmes em francês e alemão e chinês.
Mostrou-me doces em francês e espargos em português.
Faz-me desenhar e escrever. (pausa longa) …e suspirar.
O meu amor está longe e está aqui.
Porque hoje está longe mas, porque também, está sempre comigo.

11/09/07

s u r e

Estamos sentadas na praia em carreirinha, as sete.
O céu tem umas nuvens pequenas lá longe perto da linha do horizonte.
Nuvens com lilazes, âmbar e salmão.
O sol quase deitado. Escorrem-lhe dos cantos da boca vermelhos e laranjas.
Estamos as sete em carreirinha com as pernas flectidas e o rabo húmido da areia húmida e fria. As nossas coxas tocam-se e os caracóis dos cabelos entrelaçam-se porque temos cabelos grandes.
As ondas adormecidas parece que querem vir mas não estão assim meias tontas a desafiar-nos as pernas.
Temos as respirações serenas e a pele dos ombros queimada com sardas.
A marca dos bikinis nas costas. As mãos sujas de areia. Os olhos molhados de vento. Pele de casa dos cinquenta.
Estamos a uns metros da casa que alugamos, na praia. É uma casa grande como uma que alugamos certa vez no Algarve.
Estamos sentadas as sete lado a lado em silêncio cada uma de nós pensa em alguma coisa de grande tenho a certeza.
O sol vai-se afundando no lençol de mar.
Gaivotas cruzam o céu baixinho para não incomodar as coisas grandes que pensamos.
De repente uma de nós suspira mais intensamente e os suspiros das outras que são irmãos suspiram também por simpatia. É um suspiro bom, que gera um formigueiro bom, como se fosse um gelado muito gelado da Olá que partilhamos e que as nossas mães não nos deixavam comer.
Estamos na praia em carreirinha as sete sentadas a pensar que é bom estarmos aqui nesta casa grande que alugamos este ano, na casa dos cinquenta.
- Pataniscas de Bacalhau. – Diz a Bé.
- Não dá muito trabalho, filha? – Acrescenta a Teresa.
- Mas são tão boas. – Diz a Lau. – Eu ponho a mesa.
- Eu ajudo. - Completa a Sandra.
- Eu faço o arroz. – Diz a Marisa.
- Amanhã faço eu o jantar. – Diz a Ró.
- E conversamos todas muito na cozinha. – Diz a Kiki.
De repente uma sorri-se sem barulho mas a que está ao lado ri com barulho e a ultima da fila, contagiada, ri a bom rir.
Da casa grande, metros atrás de nós, chega-nos o cheiro do perfume que já lhe ensinamos; um perfume de laços, de amizade, de amor. De esperança, de certezas e de muitas e muitas ferias como estas.
De diálogos como este, de muitos que já tivemos e que é tudo que precisamos. Até sempre.

Para nós as sete. Ró, Marisa, Sandra, Bé, Kiki, Lau e Teresa.

07/08/07

o Cão


fot. davis
Ela achava que tinha poderes especiais, em especial, com os animais e deu conta disso quando em pequenina conseguiu desviar um carreiro grosso e comprido de formigas, maior do que ela.
Mas foi quando o pai apareceu com o Cão em casa que a sua vida mudou.
“Comprei-te um cão” – disse o pai para o irmão que era uma criança muito difícil.
"Bobi". Disse o irmão sem qualquer interesse, com ar pouco inteligente e com a voz enganada da puberdade.
E o Cão precipitou-se para ele, com as beiças arregaladas, a espumar-se e a babar-se e se a avó Aninhas não se tivesse metido ao barulho aquilo tinha sido uma desgraça, contava ela no dia seguinte às vizinhas e no mercado, na banca do peixe. Todos gritaram bastante e o "estapor" do cão só parou quando a pequena assobiou. Ficaram todos, com caras de inocentes, a olhar primeiro para ela e depois para o animal.
Ela caminhou até à porta, o Cão seguiu-a e a partir desse dia nunca mais se separaram.
Ela percebeu dele, que o nome "Bobi" não era nome que se desse a um cão daquele porte. Percebeu que a voz do irmão tinha mexido com o sistema nervoso do animal.
Ele percebeu dela, a falta de sensibilidade do pai, da avó Aninhas e do irmão difícil no que respeita ao gosto dela, pela música.
Percebeu o assobio, que naquele dia o salvou de, talvez, um tiro de caçadeira.
Ela deu-lhe o nome de Benner.
Ele passou a velar-lhe as horas de dedicação à música.
Diz-se que viveram os dois felizes, por muitos e longos anos.

02/08/07

saltos altos


Eu achava que quando crescesse ia deixar de ligar a coisas tipo “o verão chega amanhã às 19 e 6”. Escrevia isso nos meus cadernos diários quando aprendi a escrever, porque basicamente escrevia tudo e dou-me conta que hoje, continuo a escrever.
E acrescento pormenores do tipo “o verão chegou e eu tinha acabado de abrir a varanda da minha casa” ou “jantar em casa. com manos e massa”.
Há dias, em casa dos meus pais, lembrei-me do objecto que mais desejei na minha infância.
Umas sandálias da minha mãe, brancas, de tirinhas, com salto muito alto, que ela usava com tanta facilidade que parecia flutuar. Usava-as em ocasiões especiais, com vestidos de tecidos igualmente flutuantes, com cabelo arranjado, risco de eye-liner preto nos olhos e cheiro a madeiras do oriente.
Aquelas sandálias brancas estiveram ao alcance das minhas mãos durante muito tempo mas nunca as consegui “usar”, da mesma forma que “usava” os vestidos de baile, ou seja, para brincar.
Não, aquelas sandálias eram bonitas demais para brincar a coisas que não existiam.
Aquelas sandálias eram o sinónimo daquilo que eu gostaria, um dia, de ser. E tal qual a minha mãe: uma mulher elegante, de saltos altos, que andava sem barulho, sem dificuldade, com elegância e leveza.
Pois bem, cresci, esqueci os saltos altos durante anos da minha vida e voltei a apaixonar-me por eles.
Entrei, há uns dias, com a minha mãe, no velho arrumo exterior à casa, onde nem ela própria sabe o que guarda. Lembrei-me das sandálias com um friozinho na barriga.
Lembra-se daquelas sandálias brancas?
Eu tinha a lembrança delas na minha cabeça, a minha mãe também.
Eu tinha porque nunca as calcei e porque gostava, nem que fosse, de lhes pegar.
A minha mãe tinha porque nunca mais usou vestidos de tecidos de seda de bolas, que flutuavam com o vento. Como tal nunca mais precisou de usar sandálias altas.
Eu aprendi com ela o que pude. Continuo a aprender.
Eu usava, nessa tarde, saltos altos.
A minha mãe também, embora menores que os meus.
Mas com 77 anos, continua a caminhar no jardim, por entre diospireiros e flores, por entre as investidas do cão, que a guarda, e os pássaros que lhe conhecem os passos. Com igual leveza e elegância.
Um dia destes mando fazer-lhe um vestido de um tecido que se espreguice ao vento.
Para combinar com ela, com aquele jardim e com o meu estado de espírito, sempre que lá vou.

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