11/09/07

s u r e

Estamos sentadas na praia em carreirinha, as sete.
O céu tem umas nuvens pequenas lá longe perto da linha do horizonte.
Nuvens com lilazes, âmbar e salmão.
O sol quase deitado. Escorrem-lhe dos cantos da boca vermelhos e laranjas.
Estamos as sete em carreirinha com as pernas flectidas e o rabo húmido da areia húmida e fria. As nossas coxas tocam-se e os caracóis dos cabelos entrelaçam-se porque temos cabelos grandes.
As ondas adormecidas parece que querem vir mas não estão assim meias tontas a desafiar-nos as pernas.
Temos as respirações serenas e a pele dos ombros queimada com sardas.
A marca dos bikinis nas costas. As mãos sujas de areia. Os olhos molhados de vento. Pele de casa dos cinquenta.
Estamos a uns metros da casa que alugamos, na praia. É uma casa grande como uma que alugamos certa vez no Algarve.
Estamos sentadas as sete lado a lado em silêncio cada uma de nós pensa em alguma coisa de grande tenho a certeza.
O sol vai-se afundando no lençol de mar.
Gaivotas cruzam o céu baixinho para não incomodar as coisas grandes que pensamos.
De repente uma de nós suspira mais intensamente e os suspiros das outras que são irmãos suspiram também por simpatia. É um suspiro bom, que gera um formigueiro bom, como se fosse um gelado muito gelado da Olá que partilhamos e que as nossas mães não nos deixavam comer.
Estamos na praia em carreirinha as sete sentadas a pensar que é bom estarmos aqui nesta casa grande que alugamos este ano, na casa dos cinquenta.
- Pataniscas de Bacalhau. – Diz a Bé.
- Não dá muito trabalho, filha? – Acrescenta a Teresa.
- Mas são tão boas. – Diz a Lau. – Eu ponho a mesa.
- Eu ajudo. - Completa a Sandra.
- Eu faço o arroz. – Diz a Marisa.
- Amanhã faço eu o jantar. – Diz a Ró.
- E conversamos todas muito na cozinha. – Diz a Kiki.
De repente uma sorri-se sem barulho mas a que está ao lado ri com barulho e a ultima da fila, contagiada, ri a bom rir.
Da casa grande, metros atrás de nós, chega-nos o cheiro do perfume que já lhe ensinamos; um perfume de laços, de amizade, de amor. De esperança, de certezas e de muitas e muitas ferias como estas.
De diálogos como este, de muitos que já tivemos e que é tudo que precisamos. Até sempre.

Para nós as sete. Ró, Marisa, Sandra, Bé, Kiki, Lau e Teresa.

3 comentários:

blue disse...

que belo regresso, laura... que assim permaneçam e que momentos desses se repitam, por muitos e muitos anos!

Anónimo disse...

quando o destino põe à frente de uma de nós um obstáculo, precisamos de recordar, de imaginar e de ter a certeza que estes momentos voltarão a ser realidade. obrigada lau, por pores de novo em palavras o que todos sentimos.
é altura de usarmos as nossas pulseiras de mosqueteiras...
beijos, mil

Laura Ferreira disse...

podes crer, minha querida Marisa.
que bom que "leste"...
obrigada, Cláudia.
um beijo enorme para as duas.

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