15/10/07

m ã e

Eu tive uma mãe que não me ensinou a cozinhar, a passar camisas de homem, a ferro. Não me ensinou a limpar pratas ou a ser uma boa dona de casa.
Mas eu tive uma mãe que me ensinou:
A falar com meiguice, com os animais, e a esperar deles um retorno quase humano.
A falar com meiguice, com toda a gente.
A compreender as histórias de encantar para além dos livros. A acreditar que os cabelos compridos das princesas podem ser os nossos cabelos, se nós quisermos.
Ensinou-me a coçar os olhos, e fazia-o, com o seu queixo, com tanta suavidade, nos meus olhos fechados.
Ensinou-me a preservar a minha pele. Ensinou-me a importância do cabelo e da elegância.
Ensinou-me a ouvir, ouvindo-a.
Ensinou-me o significado das palavras “mimo” e “doce”. Ensinou-me a falar baixinho e ensinou-me uma oração para espantar a trovoada.
Ensinou-me a gostar de cinema quando nem sabia ler.
Ensinou-me a amar coisas, como bonecas, momentos e cheiros.
Ensinou-me a gostar de música clássica.
Ensinou-me coisas muito miúdas, que ninguém seria capaz de ensinar. Recordo uma delas, com este carinho todo: a primeira viagem para o Brasil. Ela veio ter comigo com um pequeno saco plástico fechado. E fê-lo porque sabia que eu era a única que o levaria. “Tens rolhas, lá dentro. Pode-vos fazer falta para lavar a roupa”. Eu tive vontade de rir, achei que aquela era só mais uma bizarrice da minha mãe. Mas levei.
E o engraçado é que passados dias, estávamos nós os quatro filhos, no Brasil, a usar as rolhas, para lavar alguma roupa no nosso quarto de hotel...aquelas rolhas que aquela minha mãe me deu, com aquele cuidado especial de quem pensa nas vírgulas...
A minha mãe ainda hoje me ensina coisas pequenas e delicadas como tirar uma nódoa a uma peça boa, de roupa.
A minha mãe ensinou-me a ser a pessoa que sou hoje.
A minha mãe ensinou-me a gostar de coisas pequenas, a agradecer o que tenho, todos os dias.
Ensinou-me a rezar sem peso e sem obrigatoriedade. Ensinou-me a recordar quem já não está, sem tristeza.
Ensinou-me a conhecer as pessoas da família, que não conheci. De tal forma que seria capaz de falar delas a alguém.
Ensinou-me a fazer ovos escalfados.
Ensinou-me, sobretudo, a amar.
Os que me rodeiam, as paredes da minha casa, as fotografias, as jarras e as cores.
A minha mãe tem, quando lá vou, uma pinça para as minhas sobrancelhas, um recorte disto ou daquilo. Tem o meu jantar preferido e o meu pão preferido. Tem uma coisa para me mostrar e uma coisa para me perguntar.
Tem o amor estampado no rosto. Tem o amor a envelhecer-lhe a pele e a tingir-lhe o cabelo.
Tem o amor no corpo magro e nos dedos tortos.
Tem o amor na beleza que ainda conserva. Nos olhos cinzentos cheios de vida e nos dentes brancos, abertos num sorriso.
Tem o amor no abraço que me estende e na voz que me dedica.
E tem, o meu amor, todos os dias da vida dela, com a intensidade com que me ensinou a amar.

5 comentários:

marisa disse...

que bela prova de amor.

bjs

blue disse...

oh laura: que felicidade poder escrever um texto assim.

Anónimo disse...

que saudades... parece que foi há tanto tempo... e ainda era assim há um bocadinho...


beijos querida

mfm disse...

Foi dos textos mais lindos que eu li até hoje, porque senti cada palavra...

Gabriela disse...

muito lindo!

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