25/10/07

p a i

Reparei hoje no branco do cabelo do meu pai.
E constatei que o vi embranquecer. E que gostei muito que isso tivesse acontecido.
Reparei hoje nos olhos pequenos do meu pai, chorosos como os olhos das pessoas que já viveram muito, brilhantes e mais pequenos, como se estivessem cansados por terem visto já tanta coisa e se encolhessem para descansar.
Outrora o meu pai tinha olhos castanhos e verdes e isso notava-se logo à partida. Eram olhos rápidos, fortes, grandes.
Hoje saltam à vista, em primeiro lugar a ternura e a seguir uma qualquer inocência que só é visível nos olhos das crianças e isso deve-se à doce inversão dos papéis da vida, depois de uma certa idade.
O meu pai continua a ser o meu porto de abrigo. Que eu procuro na doença, na tristeza, na alegria.
Das únicas pessoas do mundo em quem eu penso como tendo por mim um amor acima de mim. Das pessoas por quem eu tenho um amor que não sei quantificar.
Um amor que persiste a tudo e que continua a aumentar, como os cabelos brancos dele.
Hoje, conversei muito com o meu pai.
E nos 80 anos dele, com o cabelo todo branco e os olhos de felicidade por estar comigo, reflexo da felicidade de eu estar com ele, disse-lhe o quanto ele era importante para mim como acho que nunca lhe tinha dito.
Fiz-lhe festas e mimei-o e voltamos à infância e ele passou a ser o meu pequenino e peguei-lhe ao colo para lhe afagar os cabelos eu passei a ser a mãe dele e ele sentiu em mim uma qualquer protecção que não é nada normal mas ele ensinou-me a ser pouco normal nestas e em muitas coisas, como por exemplo, dizer tudo o que penso e pior, escrever isso aqui.
E ali estivemos os dois, ele a contar-me coisas só dele e eu a aumentar o meu manancial dessas tantas coisas que já tenho guardadas e que continuo a guardar sempre da mesma forma: religiosamente, como tesouros.
E eu, a contar-lhe coisas que os filhos contam mais às mães, mas também foi ele e os cabelos que foram enbranquecendo, que me ensinaram a ser assim.
E de repente disse-lhe que ele era uma das pessoas mais bondosas que eu já conheci e que ele tinha dos melhores sentidos de humor que eu também conheci e ele apoiou a cabeça nas mãos como um miúdo envergonhado, baixando os olhos.
E foi assim que ele se sentiu ali hoje comigo. Pai, miúdo, amigo, irmão, cansado, mas feliz.
Porque o meu pai tem hoje a felicidade plena quando quando está com os filhos.
E foi isso que eu senti ali com ele hoje. Miúda, mulher, mãe, confidente, companheira, irmã, cansada, mas feliz.
Porque tenho a felicidade e plenitude deste amor que lhe tenho, espelhado nos olhos dele.

7 comentários:

blue disse...

parabéns ao Pai, Laura!

marisa disse...

é dos teus textos que eu comento simplesmente com as lágrimas que assomem aos espelhos da alma...os olhos.

marisa disse...

e o teu pai, que eu considero um pouco como meu também, é sim tudo isso. uma pessoa muito querida a quem deixo aqui um beijo, não esquecendo a tua mãe linda, para quem vai outro. por favor, entrega-os.

kiki disse...

Pai só há um é o Nando e mais nenhum! Amo-te Pai!

Anónimo disse...

Não sou capaz de dizer as coisas como tu, mas sinto-as igual a ti... obrigada por me permitires dize-las enquanto te leio.
um beijo sem fim meu pai

Sandra disse...

Adorei ler este texto, pois tudo o que descreves já o senti pelo meu.
Pais como os nossos há muito poucos e nós tivémos imensa sorte em encontrá-los.
Aproveita cada minuto ...
beijos

laura disse...

que bom encontrar-te por aqui, linda... fico muito contente. também foram eles, os nossos pais, que nos ensinaram o sentido e o valor da palavra AMIZADE. beijos e saudades.

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