24/10/07

Vou dar uma volta.
Deixo no frigorífico fruta, legumes e um pacote de manteiga que só tem um bocado.
Nas gavetas da arca tens comida.
Levei a mala pequena. Não é sinal que vou demorar-me pouco.
Não levei o carro. Não é sinal que volto depressa.
Avisei a D. Emília do segundo C porque me apanhou a sair de casa.
- Olá menina, ela.
- Olá, D. Emília, eu.
- Vai viajar? – E os olhos pequeninos e gulosos olharam a mala e comeram-na e a seguir vomitaram-na e a seguir comeram-me a mim.
- Não! – Eu, nervosa, com comichão no nariz, a não querer dar explicações.
- E o maridinho está bom? – Ela, gulosa de novidades pequenas, de coisas sem sal, para tornar o seu dia insignificante num dia menos idiota, nem que seja o preço do frango de fricassé.
- Vou levar uma roupa à lavandaria… - menti.
- Ah… - ela, com os olhos pequenos, famintos, a boca a salivar de intrigas, de pequenos venenos.
Eu prestes a começar a gritar, a mão a torcer o vestido e às tantas não saber se é a mão ou o tecido e as lágrimas a obrigarem os olhos a… a…
Zás. Fechei a porta e parti o vidro, por isso vais ter de pagar o vidro porque fui eu que o parti.
Ela ainda disse alguma coisa e logo depois juntaram-se todas à volta dos cacos e porque não têm mais nada que fazer inventaram logo ali uma história sobre os cacos e contaram histórias sobre coisas partidas, corações, vasos, unhas e casamentos.
Eu continuei. Com a mala na mão a contar-me do seu peso.
Com o coração acelerado dos cacos e da partida.
Ainda não sei se demoro.

2 comentários:

varna disse...

pega mas é um beijo: *

Anónimo disse...

palvras que se transformam imediatamente em imagens bem nítidas. muito bem escrito, prima.
bjs

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