30/11/07

o rapaz que ouvia palavras no silêncio da música

Havia um rapaz que tocava piano e tinha mãos de quem tocava piano. Tinha os dedos torneados como as curvas de um piano de cauda.
Esse rapaz estudava piano até não poder mais. Na sua sala (de um tzero simpático), uma sala musical a cheirar a papel de música, com uma cozinha pequena que mais parecia uma cozinha de brincar. Da janela da sala pequena via-se um grande outdoor com uma garrafa de champanhe e dois copos elegantes. Como se tivessem sido postos ali de propósito para brindar à musica daquele rapaz. A sala tinha mais instrumentos que outras coisas de salas. Mais livros de musica que outros livros que estão nas salas. Tinha uma bateria, tinha microfones, tinha colunas grandes e tinha uma data de coisas que tinham com certeza a ver com música.
Esse rapaz tocava piano até cair a noite. Tocava até ficar fisicamente exausto: músculos e ossos. Até o sangue não conseguir correr mais e adormecer embalado na música dele, até não poder segurar as mãos.
Esse rapaz contou-me um dia que quando tocava certas obras e se deixava levar por elas e ainda pelas mãos, pelo cansaço e pela sua beleza, lhe acontecia uma coisa extraordinária.
É que o ser humano ouve coisas. Ruídos, animais, frases. Ouve, em princípio, o que é audível.
Ora isto que acontecia com o rapaz que tocava piano acontecia mais com uns autores do que com outros.
E então era assim: a entoação da melodia, se quisermos, as palavras que não se ouvem na musica, mas que em muitos casos foram impressas pelo autor num momento forte, ou sem ser num momento forte mas que estavam lá, eram ouvidas pelo rapaz. Ele jurava por exemplo, ouvir, em certos nocturnos de Chopin, a voz dele ou a voz de alguém que, num dado andamento da mão esquerda, rápido e grave, lhe sussurrava ao ouvido “falta dinheiro”.
Tal acontecera-lhe também com Bach e Rachmaninoff. Outras coisas eram sussurradas. Como se os autores as tivessem pensado naquele momento, com tanta força e as tivessem impresso na obra, em forma de música.
Quando isso aconteceu pela primeira vez, o rapaz pensou que estava tolinho. Arrepiaram-se-lhe os cabelos todos do corpo. Ele tirou as mãos do piano, chegou-se para trás e até saiu para a rua para dar uma volta.
O que o rapaz que tocava piano nunca pensou é que isso lhe acontecia assim porque ele ouvia a música de uma forma especial e sentia a música de uma forma especial e tocava a música de uma forma especial.
Eu também fiquei arrepiada quando ele me contou isto.
Em primeiro lugar porque estas coisas não se contam assim a todas as pessoas que encontramos.
E em segundo porque havia alguém que conseguia ouvir na música, aquilo que eu ouço nas palavras.

para JdF.

6 comentários:

JRL disse...

belíssimo texto. um bom fim de semana.

marisa disse...

que liiiiiindo! obg.
beijos

blue disse...

a marisa tem razão. que boa maneira de começar o dia!

Carla Paiva disse...

Confesso que não resisti à tentação de me pronunciar sobre este texto que me toca particularmente.
Obrigado pelas sensações, pelas recordações, que me fizeste reviver enquanto o meu cérebro descodificava cada conjunto de letras em palavras, em frase. Parabéns pelos teus textos, por este em especial. :)

laura disse...

obrigada a todas e uma óptima semana.
para ti, Carla, um bejo especial.
obrigada pelas tuas palavras e pelo teu sorriso, que desde logo me conquistou e me fez ter vontade de escrever umas tantas histórias.
terei muito gosto se continuares a passar por aqui. até sempre!

Anónimo disse...

Gostei muito.
Boa semana

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