14/11/07

histórias de combóios

Aquela mulher sentou-se no lugar 45 da carruagem 5 com uma criança incrivelmente sorridente. Ela, a mulher, chorava baixinho. Sentou a criança na mesinha e escondeu-se ali atrás dela a chorar. A criança ria ria e a mulher chorava chorava. A mulher era muito gorda. Tinha uma mola a prender o cabelo e estava vestida de preto, se calhar alguém lhe disse que as pessoas que se vestem de preto ficam menos gordas e é verdade. Embora sendo muito gorda a mulher parecia menos gorda assim vestida de preto. A criança ria e palrava alegremente. Segui o choro da mulher e as gracinhas da criança e dei conta de um homem, na estação. Igualmente gordo. Quase tão gordo como ela. Vestia uma daquelas t-shirts que se ganham nas corridas ou nos rallyes-papers. E chorava. Fumava e chorava e esconda-se atrás da mão porque não tinha nenhuma criança para amparar o seu choro. Dai o seu choro ser um choro abandonado. O peito sacudia-se em convulsões pequenas e envergonhadas, típicas de um homem que supostamente não devia chorar. A criança continuava a palrar, a rir muito para aquele pai inconsolável e a dizer-lhe adeus. E os dois continuaram a chorar até o comboio arrancar e até os olhos dos dois se desprenderem, obrigados, à medida que o comboio arrancava, pesado, tirando a um e a outro aquela segurança que se encontra no olhar quando se gosta.

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