14/11/07

histórias de mulheres - um (D&G)

A nossa última discussão foi simples e civilizada.
Vai à merda, eu desferi.
E ele respondeu “vou-me por nas putas”.
Ele era assim. Um homem simples. Já a minha mãe me tinha avisado.
Ele não põe o guardanapo nas pernas quando se senta, filha. Arrota na cozinha, quando julga que ninguém o vê.
Eu pensei que essas coisas se aprendem mas na realidade há coisas que não se aprendem.
Eu não chorei grande coisa. Aliás vou chorando cada vez menos. Deve ser da idade. Apaixono-me doentiamente e chorou pouco, quando termina tudo.
Quando ele saiu com o ultimo carregamento de coisas eu vesti-me bem, pintei-me e fui-me sentar numa esplanada, ao sol. Com a desculpa que há muito tempo não me sentava numa esplanada ao sol, com a desculpa que ele era daqueles que ficava furioso quando eu lhe dizia que me ia sentar numa esplanada ao sol. Fui. Com as minhas calças novas D&G, com a minha mala Prada que é um espanto, com o meu gloss cor-de-rosa da Lancôme que comprei no aeroporto.
Não sei o que me deu. Sentei-me, aparentemente bem, comecei a folhear uma Elle e de repente, à minha frente, uma jovem nova, bela, com a cara lisa, a pele lisa, tudo liso, até os olhos e de repente numa convulsão de choro só consegui pedir uma garrafa de água e fiquei para ali a molhar de lágrimas teimosas as folhas da Elle, as folhas com a publicidade e não só. As lágrimas deram para ir até aos acessórios…
Felizmente que a Teresinha me ligou e eu já estava mais calma, de modo que estive com ela ao telefone o tempo todo em que paguei, peguei na revista e me afastei, ondulante, sabendo dos olhos e das cabeças a pregarem-se no meu traseiro bem encaixado nas minhas calças novas de 300 euros.

(to be continued)

2 comentários:

Anónimo disse...

engraçado...no mesmo texto estão duas mulheres, aquelas que ainda um dia vão ser homenageadas no MIT...

laura disse...

será, mana? acho que entre mil anónimos eu seria capaz de te reconhecer, só pelas palavras...

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