25/11/07

o rapaz do alfa pendular (3)

“Cruzaram-se no bar assim como não quer a coisa.
Na verdade não era bem assim porque ele queria a coisa toda, queria-a mesmo toda, com todas as forças do seu ser, lembrara-se desta expressão há uns dias atrás e não gostava dela, da expressão, mas era o mais próximo daquilo que sentia.
Ela pediu um bolo de arroz e um café e ele pediu um café e um bolo de arroz.
Ele reparou no pulso fino dela com a pulseira do senhor do Bonfim a deixar adivinhar uma cor não adivinhável quase por um fio, a pulseira e perto dela, da pulseira e do pulso fino, um fio de cabelo. Ele concentrou-se naquele fio de cabelo enquanto ela pagava um euro e setenta e cinco cêntimos disse o empregado com ar de frete, gordo e anafado, metido nos sapatos parecia que tinha sido metido nos sapatos à força em criança e lá permanecera desde então. O pulso recolheu-se com a mão porque a mão guardou o troco e o fio de cabelo, obviamente também.
Mas ele pensou eu não posso perder este fio de cabelo dela, não posso e então aconteceu uma coisa extraordinária, que só acontece em filmes ou então em obras de ficção, o pulso dela voltou porque a mão voltou para pegar numa mísera moeda de dez cêntimos e eis que o fio de cabelo se desprende do pulso dela como se de repente tivesse ganho vida e fica pousado no balcão à espera dele. Nada mais. Aquele fio de cabelo dela nasceu para esperar por ele, naquele dia.
Ela desapareceu com o café e o bolo de arroz, perdão, o bolo de arroz e o café e foi encostar-se ao pequeno balcão, do outro lado.
Ele repetiu as palavras que ela havia dito, como se as partilhasse.
Um café e um bolo de arroz. O empregado carrancudo anafado metido nos sapatos à força serviu-lhe o pedido. Ele mantinha o cabelo na sua mão. Sentia-lhe o toque, o perfume, a maciez. Sentia-se capaz de reconstituir a vida daquela mulher, por aquele fio de cabelo.
Pagou um euro e setenta e cinco cêntimos e quando se aproximou dela e do pequeno balcão em frente apenas restava o papel do bolo de arroz, inteiro, a chávena de café vazia e nela, uma marca subtil de baton castanho.”

1 comentário:

marisa disse...

como tornas pormenores grandiosos!
beijos

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