11/12/07

As musicas da minha vida

"First of May" by Bee Gees

Ainda sem saber inglês mas percebendo a subtileza e nostalgia dos primeiros acordes desta musica, eu percebi que ela forte. Tocava a todos aqueles que me eram próximos. Ouvíamo-la a partir de um 45 rotações, na aparelhagem pequena do salão de televisão. Os grandes sabiam a letra de cor. Emocionavam-se com as cordas, no iníciom e com as primeiras palavras

“When I was small, and christmas trees were tall,
We used to love while others used to play."


Eu emocionava-me com eles e com a música. Seguia a boca da minha mãe a cantar, os seus olhos húmidos e o sorriso cheio de amor. Lia nos olhos das minhas irmãs a letra desconhecida.
Mas tinha razão, a canção.
Eu era pequena e a árvore de Natal era mais alta do que eu. As bolas eram de vidro, com veludos e brilhantes. Riscas de muitas cores, matizados, estrelas e colagens. Interditas às minhas mãos. As fitas eram grossas e compridas. Azuis, vermelhas e verdes. As luzinhas eram de vidro, muito frágeis. Pareciam neve e tremiam pouco, eu lembro-me de pensar que eram velhas, tão velhas como as fitas e as bolas brilhantes e as caixas onde se guardava tudo, que cheirava a tempo. Mas por isso é que tinham encanto.
No cimo da árvore havia uma estrela grande que era lá colocada somente quando a árvore ficava pronta. Como se fosse a ultima coisa, o seu perfume ou chapéu.
O presépio era de uma riqueza extraordinária. Além de ter todos os que se julga terem participado no nascimento de Jesus, tinha famílias inteiras de ovelhas, machos fêmeas e respectivas crias, que se espalhavam pela montanha artificial, de musgo verde, salpicada de neve branca. O estábulo onde Jesus nasceu até tinha papel de celofane vermelho na janela; e atrás da janela havia uma luz que provocava um reflexo na face de Maria e nas palhinhas onde o Jesus estava deitado. E ele, o boneco de Jesus, tinha lábios de carmim, cabelos louros aos caracóis e uma fralda. Era um verdadeiro bebé e ainda por cima lindo e sorridente.
Maria era lindíssima, tinha um ar muito novo e uma expressão triste mas recatada e eu lembro-me de ter imensa pena dela porque José apoiava-se numa bengala e tinha um ar mais velho do que ela. Os 3 Reis Magos tinham capas ricas e traziam atrás de si um verdadeiro séquito. A vaca e o burro eram tão bem feitos que para mim tinham um nome, uma personalidade e até um temperamento. Tinham olhos meigos de gente. Eu ficava horas a olhar para aquele presépio. Imaginava historias e fazia as respectivas vozes enquanto mudava os bonecos de sítio. Via estrelas cadentes no céu e o frio a sair das bocas de todos eles.
Quando havia música as minhas historias iam mais longe, como ainda hoje acontece. Embalavam-me, levavam-me nos acordes e nas palavras.
Ainda sem saber inglês, eu já me emocionava com esta música, e sem saber porquê sentia um nó na garganta no momento em que se ouvia

“Now we are tall, and Christmas trees are small,..”.

Hoje sei. É a saudade daquela árvore grande, mágica e esplendorosa que os meus pais nos ofereceram e nos ensinaram a amar, que ficou perdida no tempo e que continuará sempre, por todo o sempre, a ser maior do que eu.

5 comentários:

laura disse...

Ainda hoje quando ouço esta música consigo "ver" aquela árvore de Natal.

JRL disse...

muito sentida, como sempre. :)

laura disse...

Querida Sandra, não sei como, às vezes acontece-me isto, eu abro os comentários e depois eles não me aparecem no blog... de facto eu vi o teu, gostei imenso não só por seres quem és mas também porque foste a minha companheira de infância e adolescência. Acredito que estas palavras também te tenham feito pensar em alguma coisa. Os nossos universos são muito próximos, os nossos imaginários também, graças aos nossos pais e também graças a nós.
Só queria pedir-te desculpa pelo facto de o comentário ter desaparecido. Não sei se foi azelhice minha, mas fico triste porque ele ficava aqui muito bem...
Obrigada também, Joana. Espero que de alguma forma te revejas nas minhas palavras.

marisa disse...

mais um natal se aproxima...que bom!
bj
marisa

JRL disse...

na minha primeira infância, sim ;). beijos

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