14/12/07

Carta aos nossos Pais

Vivemos, em criança, os melhores anos.
Aprendemos a ouvir musica. A não por os cotovelos em cima da mesa. A brincar com coisas sérias para elas não serem tão sérias. Tivemos uma casinha no quintal que era uma casinha de bonecas. Tivemos loucinhas, telefones trazidos de Barcelona, um triciclo vermelho que dele ainda recordo o toque dos puxadores… umas risquinhas de borracha. Tivemos galinhas que morriam no quintal, uma empregada que se fardava quando vinha o Sr. Bordalo. Tivemos uma avó que dava beijos na careca do pai. Árvores de natal grandes, maiores do que nós e depois crescemos e ficamos maiores do que elas e até fizeram uma música por causa disso. Tivemos uma casa com cortinas fantásticas que depois fizeram fatos de palhaço no Carnaval. Tivemos um piano e um escritório com uma mesa pesada. Tivemos uma costureira que comia num tabuleiro e a comida dela cheirava à comida de costureira. Tivemos um opel, um volvo e tantos outros. Cantávamos nas viagens para Viseu. A marcha do vapor, o relipi relipi relipi. Aprendemos o Cebulório que ensinaremos aos vindouros. Comemos bifes na caçarola, ovos verdes e palhuço. Corremos os parques de campismo com o frigorífico
às costas. Tomamos café na avenida a ouvir o “Very superticious”. Lemos as selecções do Reader’s Digest e os romances de Max Du Veuzit. Tivemos uma alcatifa mesclada, uma máquina de secar roupa e vestidos de baile da mãe para brincar. Tivemos uma cadela que gostava de meias para roer. Inventámos o “vilste” e o “por vaixinha”. Tínhamos um pai que gostava de carpinteirar. Uma miúda que andava sempre num suadouro, por andar no corrilório. Um pichorrinho das lavanças, uma escalfeta, uma braseira na cozinha e uma gabardine para a cadela. Tínhamos um irmão músico e dorminhoco, que fazia sandes de vários andares. Uma irmã que andava de túnica, missangas no cabelo e tinha duas amigas inseparáveis. Tivemos uma irmã que passou o cabelo a ferro, dormia com a avó e enchia a casa. Tivemos uma irmã que gaguejava e escrevia bilhetes de amor aos colegas de escola primária. Tivemos uma mãe que fazia domicílios e falava ao telefone com a Juzinha. Tivemos um pai que tinha um assobio próprio para nos chamar. Bebemos Teobar e geropiga. Tínhamos mesas cheias ao jantar e ao almoço. Tínhamos uma prima calma que ajudava a limpar o pó e que leu todos os livros das estantes. Tivemos outra prima que cheirava a Belas Artes e tinha missangas nos cabelos. Tivemos uma avó que descia as escadas ao contrário por causa das correntes de ar. Tivemos empregadas para todos os gostos. Patins, bicicletas e um 2 cavalos. Aulas de ballet e de solfejo. Andámos no conservatório e nas sevilhanas. Tomámos cafés no Bom Dia, no Alfredo e no Cidade Nova. Tivemos uma avó que lia Corin Tellado. Jogámos roleta, lerpa, risco, monopolly, king, sueca, dicionário, obras de arte, cluedo e malefix. Tivemos férias de verão em Espinho. Tivemos férias de Setembro em Viseu. Depois de construída, decoramos uma casa, em Santiago, com o nosso amor e a nossa amizade. Pintámos, todos juntos, uma parede numa adega. Tivemos canas de pesca, jantares na Marisqueira e idas ao Teatro S. Pedro ver a Música no Coração. Tínhamos uma enfermeira Alicinha que cheirava a injecções. Tínhamos o 481535. Tínhamos uma cadela que via o carro do pai passar do parapeito da janela do escritório e vinha esperá-lo à porta da garagem.
Tivemos canários e até um quadro de uma velhinha que metia medo à avó.
Tivemos bolos de anos, festas de pijama, banhos na piscina em Vilamoura. Tivémos risos e lágrimas. Cartuchos, rododendros e até uma mercearia com a Sra. Silvana. Tivemos um salão de estudo, um salão de televisão, uma sala de costura. Tivemos primas que viveram connosco e que se tornaram irmãs. Tivemos uma tia e um tio que é o nosso anjo da Guarda. Tivemos notícias e maravilhas do Brasil. Discos da Rita Lee e do Roberto Carlos. Tivemos zangas e pazes. Abraços e partidas. Mini saias, calças de bombazina cor de laranja e sapatos da Ribeira. Ondas de calor e muita neve no Carnaval. Tivemos matrecos na feira de S. Mateus e fins-de-semana à “Amigos de Alex”. Tivemos casamentos e divórcios. Perdas imensas, irrecuperáveis e gente que veio para ficar. Tivemos festas de passagem de ano como ninguém. Festas de S. João com concursos de quadras. Tivemos programas de televisão e vídeos da Madonna. Jantares com caipirinhas, sushi e leitão. Gravámos nos nossos corações, até à eternidade, a palavra Família e a palavra Ferreira.
Temos caracóis, laços apertados. Vídeos de família, CD’s e árvores genealógicas. Muito amor e tantas memórias que eu era capaz de ficar aqui o resto da tarde.

Depois de tudo isto, que tivemos, graças a vós, que mais é que podemos querer? Nada. Mas podemos pedir-vos uma coisa: nunca se esqueçam disto.
Hoje. E sempre.

3 comentários:

marisa disse...

tiveram, e muito do que enumeras continuarão a ter.

é caso para dizer que valeu a pena viver e que, quando formos, vamos de barriga cheia. sabemos bem a quem o devemos em parte.

carta fantástica! (adorava ter a tua memória...)

PS sei que é impossível enumerar tudo, mas dou uma ajudinha e menciono: os encontros no Rio, os piqueniques no Fontelo ou nos pinhais

beijos que em breve poderei mesmo dar

inês miguéis disse...

Desejo-te umas boas entradas no ano de 2008, com tudo de bom. Um beijinho.

Anónimo disse...

És unica....

Fizeste me recordar os maravilhosos momentos que vivi, e vivo rodeada da minha familia e amigos.

Então a dos sapatos da Ribeira....

Que saudades!!!!!

O que vale é que ainda hoje tenho sempre historias lindas, tanto para recordar como para viver...

És o maximo, e não podia deixar de comentar este texto....simplesmente FABULOSO.

Beijos

Sandra Monica Fernandes

Bom Ano 2008

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