07/08/07

o Cão


fot. davis
Ela achava que tinha poderes especiais, em especial, com os animais e deu conta disso quando em pequenina conseguiu desviar um carreiro grosso e comprido de formigas, maior do que ela.
Mas foi quando o pai apareceu com o Cão em casa que a sua vida mudou.
“Comprei-te um cão” – disse o pai para o irmão que era uma criança muito difícil.
"Bobi". Disse o irmão sem qualquer interesse, com ar pouco inteligente e com a voz enganada da puberdade.
E o Cão precipitou-se para ele, com as beiças arregaladas, a espumar-se e a babar-se e se a avó Aninhas não se tivesse metido ao barulho aquilo tinha sido uma desgraça, contava ela no dia seguinte às vizinhas e no mercado, na banca do peixe. Todos gritaram bastante e o "estapor" do cão só parou quando a pequena assobiou. Ficaram todos, com caras de inocentes, a olhar primeiro para ela e depois para o animal.
Ela caminhou até à porta, o Cão seguiu-a e a partir desse dia nunca mais se separaram.
Ela percebeu dele, que o nome "Bobi" não era nome que se desse a um cão daquele porte. Percebeu que a voz do irmão tinha mexido com o sistema nervoso do animal.
Ele percebeu dela, a falta de sensibilidade do pai, da avó Aninhas e do irmão difícil no que respeita ao gosto dela, pela música.
Percebeu o assobio, que naquele dia o salvou de, talvez, um tiro de caçadeira.
Ela deu-lhe o nome de Benner.
Ele passou a velar-lhe as horas de dedicação à música.
Diz-se que viveram os dois felizes, por muitos e longos anos.

02/08/07

saltos altos


Eu achava que quando crescesse ia deixar de ligar a coisas tipo “o verão chega amanhã às 19 e 6”. Escrevia isso nos meus cadernos diários quando aprendi a escrever, porque basicamente escrevia tudo e dou-me conta que hoje, continuo a escrever.
E acrescento pormenores do tipo “o verão chegou e eu tinha acabado de abrir a varanda da minha casa” ou “jantar em casa. com manos e massa”.
Há dias, em casa dos meus pais, lembrei-me do objecto que mais desejei na minha infância.
Umas sandálias da minha mãe, brancas, de tirinhas, com salto muito alto, que ela usava com tanta facilidade que parecia flutuar. Usava-as em ocasiões especiais, com vestidos de tecidos igualmente flutuantes, com cabelo arranjado, risco de eye-liner preto nos olhos e cheiro a madeiras do oriente.
Aquelas sandálias brancas estiveram ao alcance das minhas mãos durante muito tempo mas nunca as consegui “usar”, da mesma forma que “usava” os vestidos de baile, ou seja, para brincar.
Não, aquelas sandálias eram bonitas demais para brincar a coisas que não existiam.
Aquelas sandálias eram o sinónimo daquilo que eu gostaria, um dia, de ser. E tal qual a minha mãe: uma mulher elegante, de saltos altos, que andava sem barulho, sem dificuldade, com elegância e leveza.
Pois bem, cresci, esqueci os saltos altos durante anos da minha vida e voltei a apaixonar-me por eles.
Entrei, há uns dias, com a minha mãe, no velho arrumo exterior à casa, onde nem ela própria sabe o que guarda. Lembrei-me das sandálias com um friozinho na barriga.
Lembra-se daquelas sandálias brancas?
Eu tinha a lembrança delas na minha cabeça, a minha mãe também.
Eu tinha porque nunca as calcei e porque gostava, nem que fosse, de lhes pegar.
A minha mãe tinha porque nunca mais usou vestidos de tecidos de seda de bolas, que flutuavam com o vento. Como tal nunca mais precisou de usar sandálias altas.
Eu aprendi com ela o que pude. Continuo a aprender.
Eu usava, nessa tarde, saltos altos.
A minha mãe também, embora menores que os meus.
Mas com 77 anos, continua a caminhar no jardim, por entre diospireiros e flores, por entre as investidas do cão, que a guarda, e os pássaros que lhe conhecem os passos. Com igual leveza e elegância.
Um dia destes mando fazer-lhe um vestido de um tecido que se espreguice ao vento.
Para combinar com ela, com aquele jardim e com o meu estado de espírito, sempre que lá vou.

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