19/09/07







Ensinaram-me um dia, que devemos ser a nossa melhor companhia, a sermos o(a) nosso(a) melhor amigo(a).
Claro que é bom termos amigos e gente à nossa volta e assim, claro que é.
É bom termos um animal que olhe para nós com olhos de gente.
Porque os animais que olham para nós com olhos de gente fazem-no, porque nós olhamos para eles com olhos de amor.
É bom termos plantas que vão connosco de casa para casa. E que se acostumam às paredes e ao cheiro, que varia de casa para casa…
É bom termos casacos que vão connosco de armário para armário.
É bom termos objectos que são estáticos, mas que por serem nossos às tantas até se parecem connosco.
Mas é bom, muito bom, termo-nos.
Sentarmo-nos num qualquer banco de jardim, sendo velhos ou novos e conversar…connosco. Ter conversas mais profundas com o chapéu que nos fala do alto, com racionalidade e certeza. Ter conversas com os botões da camisa, rentes ao peito, mais profundas e emotivas.
E depois, chegar a casa e escutar a voz de cada objecto, que tendo incorporado ao longo dos anos a nossa história e as nossas conversas e os nossos pensamentos, discute connosco o tempo, a conjuntura politica, tem conversas de mães e zanga-se como um autentico namorado. E continuam, alguns deles em cacos, outros colados, outros com o pó a esconder-lhes a cor, outros com a cor desaparecida. Mas estão lá, acompanham-nos até ao fim e muitos ficam para além de nós.
À espera de encontrar alguém que os consiga ouvir e a quem possam contar as histórias das vidas que já viveram.

18/09/07

apetecia-me ouvir música contigo...


fot. hans drukker
entendo os que me dizem às vezes tenho vontade de ser sombra ar nada vento roupa para que não doa não sinta não sofra.

fot. de louise bourgeois



14/09/07

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fot. thora birch
Ela roubava flores em qualquer sítio. Em canteiros, com a placa de "proibido" ou "cuidado com o cão" ou até nas barbas dos donos dos jardins.
Mas fazia-o com tanta graciosidade que os cães ou os donos ou as placas até lhe achavam alguma graça.
Havia quem roubasse carteiras ou bicicletas. Ela roubava flores.E, tal como tantas que ela já roubara, a esta ser-lhe-ia tirada uma fotografia, secaria na cómoda, no meio de outras, até se desfazer e se confundir com o pó e por fim, ser limpa.Seca de corpo, com a alma a ditar uma história.
E numa qualquer agenda, uma data escrita por uma mão feliz, numa qualquer tarde de um quente dia de verão.

deep blue




O meu amor está longe e está aqui.
O meu amor dá-me abraços molhados e conta-me histórias ao ouvido.
O meu amor mostrou-me uma enorme quantidade de azuis.
Ensinou-me coisas pequenas e coisas grandes.
Faz-me chá japonês e oferece-me livros em que a heroína se chama Laura e rouba sorrisos a toda a gente.
O meu amor é grande e tem saudades.
O meu amor é passado e é presente e faz-se todos os dias mais um bocadinho.
O meu amor é paciente e é engraçado.
Levou-me a ver peixes no fundo do mar e estrelas-do-mar vermelhas.
Levou-me a ver um por do sol a sério com todas as cores que um por do sol deve ter.
Levou-me a ver o frio muito longe. A conhecer o quente do abraço dele.
Levou-me a ver coisas que me põem água nos olhos.
Rouba-me sorrisos, muitos.
O meu amor mostra-me filmes em francês e alemão e chinês.
Mostrou-me doces em francês e espargos em português.
Faz-me desenhar e escrever. (pausa longa) …e suspirar.
O meu amor está longe e está aqui.
Porque hoje está longe mas, porque também, está sempre comigo.

11/09/07

s u r e

Estamos sentadas na praia em carreirinha, as sete.
O céu tem umas nuvens pequenas lá longe perto da linha do horizonte.
Nuvens com lilazes, âmbar e salmão.
O sol quase deitado. Escorrem-lhe dos cantos da boca vermelhos e laranjas.
Estamos as sete em carreirinha com as pernas flectidas e o rabo húmido da areia húmida e fria. As nossas coxas tocam-se e os caracóis dos cabelos entrelaçam-se porque temos cabelos grandes.
As ondas adormecidas parece que querem vir mas não estão assim meias tontas a desafiar-nos as pernas.
Temos as respirações serenas e a pele dos ombros queimada com sardas.
A marca dos bikinis nas costas. As mãos sujas de areia. Os olhos molhados de vento. Pele de casa dos cinquenta.
Estamos a uns metros da casa que alugamos, na praia. É uma casa grande como uma que alugamos certa vez no Algarve.
Estamos sentadas as sete lado a lado em silêncio cada uma de nós pensa em alguma coisa de grande tenho a certeza.
O sol vai-se afundando no lençol de mar.
Gaivotas cruzam o céu baixinho para não incomodar as coisas grandes que pensamos.
De repente uma de nós suspira mais intensamente e os suspiros das outras que são irmãos suspiram também por simpatia. É um suspiro bom, que gera um formigueiro bom, como se fosse um gelado muito gelado da Olá que partilhamos e que as nossas mães não nos deixavam comer.
Estamos na praia em carreirinha as sete sentadas a pensar que é bom estarmos aqui nesta casa grande que alugamos este ano, na casa dos cinquenta.
- Pataniscas de Bacalhau. – Diz a Bé.
- Não dá muito trabalho, filha? – Acrescenta a Teresa.
- Mas são tão boas. – Diz a Lau. – Eu ponho a mesa.
- Eu ajudo. - Completa a Sandra.
- Eu faço o arroz. – Diz a Marisa.
- Amanhã faço eu o jantar. – Diz a Ró.
- E conversamos todas muito na cozinha. – Diz a Kiki.
De repente uma sorri-se sem barulho mas a que está ao lado ri com barulho e a ultima da fila, contagiada, ri a bom rir.
Da casa grande, metros atrás de nós, chega-nos o cheiro do perfume que já lhe ensinamos; um perfume de laços, de amizade, de amor. De esperança, de certezas e de muitas e muitas ferias como estas.
De diálogos como este, de muitos que já tivemos e que é tudo que precisamos. Até sempre.

Para nós as sete. Ró, Marisa, Sandra, Bé, Kiki, Lau e Teresa.

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