31/10/07

a tua cor

a tua cor,
é a cor que há em mim
foi bom crescer assim,
à tua cor...

a tua cor,
conheço-a do meu peito
pintada a teu jeito:
à tua cor.

e vê-la sempre assim, se desse...
a tua cor em mim fenece.
a tua cor

a tua cor,
roubada à minha estória
procuro-a na memória
da tua dor...

a tua cor:
riscada no teu rosto
marcou, qual fogo posto,
a minha cor...

e vê-la sempre assim, se desse...
a tua cor em mim fenece.
a tua cor

letra e música: tó
tocada por tó e kiki; cantada por lau; no dia dos 50 anos da Bé.
a fotografia acima é da cara dela a ouvir...

30/10/07

Adormeceu naquela noite e acordou ao 3º dia e a mãe que era muito religiosa passou a acender uma vela junto à fotografia dela.
E ao seu lado, enquanto dormiu, entre outras coisas, apareceram umas bolas castanhas que a mãe julgou serem castanhas fora de época e apanhou, embasbacada.
Mais tarde, comprovou estarem estragadas quando fez puré de castanha para acompanhar o assado.
A partir daquele dia, ninguém sabe explicar porquê, toda a gente começou a tratá-la de maneira diferente e a sussurrar, sempre que ela aparecia “aí vem a esquisita…”.

fot. TERESA HUBBARD ALEXANDER BIRCHLER

j e s u s (pronunciado em inglês...)

25/10/07

p a i

Reparei hoje no branco do cabelo do meu pai.
E constatei que o vi embranquecer. E que gostei muito que isso tivesse acontecido.
Reparei hoje nos olhos pequenos do meu pai, chorosos como os olhos das pessoas que já viveram muito, brilhantes e mais pequenos, como se estivessem cansados por terem visto já tanta coisa e se encolhessem para descansar.
Outrora o meu pai tinha olhos castanhos e verdes e isso notava-se logo à partida. Eram olhos rápidos, fortes, grandes.
Hoje saltam à vista, em primeiro lugar a ternura e a seguir uma qualquer inocência que só é visível nos olhos das crianças e isso deve-se à doce inversão dos papéis da vida, depois de uma certa idade.
O meu pai continua a ser o meu porto de abrigo. Que eu procuro na doença, na tristeza, na alegria.
Das únicas pessoas do mundo em quem eu penso como tendo por mim um amor acima de mim. Das pessoas por quem eu tenho um amor que não sei quantificar.
Um amor que persiste a tudo e que continua a aumentar, como os cabelos brancos dele.
Hoje, conversei muito com o meu pai.
E nos 80 anos dele, com o cabelo todo branco e os olhos de felicidade por estar comigo, reflexo da felicidade de eu estar com ele, disse-lhe o quanto ele era importante para mim como acho que nunca lhe tinha dito.
Fiz-lhe festas e mimei-o e voltamos à infância e ele passou a ser o meu pequenino e peguei-lhe ao colo para lhe afagar os cabelos eu passei a ser a mãe dele e ele sentiu em mim uma qualquer protecção que não é nada normal mas ele ensinou-me a ser pouco normal nestas e em muitas coisas, como por exemplo, dizer tudo o que penso e pior, escrever isso aqui.
E ali estivemos os dois, ele a contar-me coisas só dele e eu a aumentar o meu manancial dessas tantas coisas que já tenho guardadas e que continuo a guardar sempre da mesma forma: religiosamente, como tesouros.
E eu, a contar-lhe coisas que os filhos contam mais às mães, mas também foi ele e os cabelos que foram enbranquecendo, que me ensinaram a ser assim.
E de repente disse-lhe que ele era uma das pessoas mais bondosas que eu já conheci e que ele tinha dos melhores sentidos de humor que eu também conheci e ele apoiou a cabeça nas mãos como um miúdo envergonhado, baixando os olhos.
E foi assim que ele se sentiu ali hoje comigo. Pai, miúdo, amigo, irmão, cansado, mas feliz.
Porque o meu pai tem hoje a felicidade plena quando quando está com os filhos.
E foi isso que eu senti ali com ele hoje. Miúda, mulher, mãe, confidente, companheira, irmã, cansada, mas feliz.
Porque tenho a felicidade e plenitude deste amor que lhe tenho, espelhado nos olhos dele.

24/10/07

não sei se demoro



fot. tracey s.
Vou dar uma volta.
Deixo no frigorífico fruta, legumes e um pacote de manteiga que só tem um bocado.
Nas gavetas da arca tens comida.
Levei a mala pequena. Não é sinal que vou demorar-me pouco.
Não levei o carro. Não é sinal que volto depressa.
Avisei a D. Emília do segundo C porque me apanhou a sair de casa.
- Olá menina, ela.
- Olá, D. Emília, eu.
- Vai viajar? – E os olhos pequeninos e gulosos olharam a mala e comeram-na e a seguir vomitaram-na e a seguir comeram-me a mim.
- Não! – Eu, nervosa, com comichão no nariz, a não querer dar explicações.
- E o maridinho está bom? – Ela, gulosa de novidades pequenas, de coisas sem sal, para tornar o seu dia insignificante num dia menos idiota, nem que seja o preço do frango de fricassé.
- Vou levar uma roupa à lavandaria… - menti.
- Ah… - ela, com os olhos pequenos, famintos, a boca a salivar de intrigas, de pequenos venenos.
Eu prestes a começar a gritar, a mão a torcer o vestido e às tantas não saber se é a mão ou o tecido e as lágrimas a obrigarem os olhos a… a…
Zás. Fechei a porta e parti o vidro, por isso vais ter de pagar o vidro porque fui eu que o parti.
Ela ainda disse alguma coisa e logo depois juntaram-se todas à volta dos cacos e porque não têm mais nada que fazer inventaram logo ali uma história sobre os cacos e contaram histórias sobre coisas partidas, corações, vasos, unhas e casamentos.
Eu continuei. Com a mala na mão a contar-me do seu peso.
Com o coração acelerado dos cacos e da partida.
Ainda não sei se demoro.

23/10/07

l u z




fot. tracey baran
Gosto de ti quando adormeço, todas as noites, abraçada no meu próprio abraço porque não posso dormir abraçada a ti.
Gosto de ti quando acordo e abro a persiana do quarto e o dia está cinzento.
Gosto de ti quando como, ao pequeno-almoço, os frutos silvestres sem açúcar com o iogurte magro sem ponta de açúcar.
Gosto de ti até quando me sinto esquisita.

22/10/07

três coisas de falta





fot. jessica bruah
Às vezes fazes-me falta quando encontro uma aranha ou uma centopeia do chão da cozinha e preciso de a matar e não mato.
Quando encontro nas flores que compro um bicho que me salta para o decote e mergulha nele.
Quando quero despachar alguma coisa de casa e não sei que lhe hei-de fazer… tipo vasos mortos.
A minha casa está cheia deles.
Mas não gosto de os deitar fora.
Por isso às vezes fazes-me muita falta.

18/10/07

de e do amor



Vejo os teus olhos azuis vestidos de negro. De amor.
Leio na curva triste dos teus lábios uma tristeza que te faz ficar pequena. De amor.
Percebo no teu corpo de menina um tremor constante de medo que não quer ter medo. Do amor.
E paira sobre ti uma nuvem pesada que te esconde o sorriso e o azul.

Mas..
Já via à tua volta castelos enormes, dosséis brancos e dias felizes.
Risos de menina e flores. Livros cheios e luas enormes.
Gente, muita gente, que fala, que ri, que está.
Pudesse eu resgatar-te essa tristeza.
E fazer de ti outra vez aquela menina feliz que fala, que ri, que está…
De grandes olhos azuis, sorriso franco, da verdade que lhe vem da alma e que lhe mora nas palavras, todos os dias da vida dela.

para p.

fot. de jenny lynn

15/10/07

m ã e

Eu tive uma mãe que não me ensinou a cozinhar, a passar camisas de homem, a ferro. Não me ensinou a limpar pratas ou a ser uma boa dona de casa.
Mas eu tive uma mãe que me ensinou:
A falar com meiguice, com os animais, e a esperar deles um retorno quase humano.
A falar com meiguice, com toda a gente.
A compreender as histórias de encantar para além dos livros. A acreditar que os cabelos compridos das princesas podem ser os nossos cabelos, se nós quisermos.
Ensinou-me a coçar os olhos, e fazia-o, com o seu queixo, com tanta suavidade, nos meus olhos fechados.
Ensinou-me a preservar a minha pele. Ensinou-me a importância do cabelo e da elegância.
Ensinou-me a ouvir, ouvindo-a.
Ensinou-me o significado das palavras “mimo” e “doce”. Ensinou-me a falar baixinho e ensinou-me uma oração para espantar a trovoada.
Ensinou-me a gostar de cinema quando nem sabia ler.
Ensinou-me a amar coisas, como bonecas, momentos e cheiros.
Ensinou-me a gostar de música clássica.
Ensinou-me coisas muito miúdas, que ninguém seria capaz de ensinar. Recordo uma delas, com este carinho todo: a primeira viagem para o Brasil. Ela veio ter comigo com um pequeno saco plástico fechado. E fê-lo porque sabia que eu era a única que o levaria. “Tens rolhas, lá dentro. Pode-vos fazer falta para lavar a roupa”. Eu tive vontade de rir, achei que aquela era só mais uma bizarrice da minha mãe. Mas levei.
E o engraçado é que passados dias, estávamos nós os quatro filhos, no Brasil, a usar as rolhas, para lavar alguma roupa no nosso quarto de hotel...aquelas rolhas que aquela minha mãe me deu, com aquele cuidado especial de quem pensa nas vírgulas...
A minha mãe ainda hoje me ensina coisas pequenas e delicadas como tirar uma nódoa a uma peça boa, de roupa.
A minha mãe ensinou-me a ser a pessoa que sou hoje.
A minha mãe ensinou-me a gostar de coisas pequenas, a agradecer o que tenho, todos os dias.
Ensinou-me a rezar sem peso e sem obrigatoriedade. Ensinou-me a recordar quem já não está, sem tristeza.
Ensinou-me a conhecer as pessoas da família, que não conheci. De tal forma que seria capaz de falar delas a alguém.
Ensinou-me a fazer ovos escalfados.
Ensinou-me, sobretudo, a amar.
Os que me rodeiam, as paredes da minha casa, as fotografias, as jarras e as cores.
A minha mãe tem, quando lá vou, uma pinça para as minhas sobrancelhas, um recorte disto ou daquilo. Tem o meu jantar preferido e o meu pão preferido. Tem uma coisa para me mostrar e uma coisa para me perguntar.
Tem o amor estampado no rosto. Tem o amor a envelhecer-lhe a pele e a tingir-lhe o cabelo.
Tem o amor no corpo magro e nos dedos tortos.
Tem o amor na beleza que ainda conserva. Nos olhos cinzentos cheios de vida e nos dentes brancos, abertos num sorriso.
Tem o amor no abraço que me estende e na voz que me dedica.
E tem, o meu amor, todos os dias da vida dela, com a intensidade com que me ensinou a amar.

12/10/07

La Ballade de la mer salée

Vendeu a casa num Sábado de tarde, a uma família de Torres Vedras.
Uma semana antes, embalou a maior parte dos livros. Muitos, não lidos, far-lhe-iam companhia nos próximos tempos. Levá-los-ia com ele.
Escolheu cd’s e meteu-os noutra mala. Meteu numa mala, para levar, bonecos e cadernos de capa preta escritos. Alguns muito escritos, gordos. A verter memórias.
Escolheu também uma dezena de filmes. E para alguns, o respectivo chá.
Deu plantas, caixinhas, chás e sabonetes. Ofereceu perfumes, livros, amostras, malas e sacos especiais. Mandou guardar revistas, cortinas, filmes e fotografias. Tudo catalogado, numa letra que só ele percebia, numa letra que só ele tinha de perceber.
Entregou a chave de casa num Sábado de tarde e nesse mesmo Sábado, com o coração a querer furar o peito, dirigiu-se para a sua nova casa.
O Barco, onde passaria os meses seguintes.
Carregou para ele os sacos, um a um, como se destinasse mentalmente cada objecto, a cada lugar.
Enquanto ia fazendo isso, o sol ia descendo e a temperatura ia ficando cada vez mais amena.
Às 19 estava tudo arrumado. O carro fechado e a chave no lugar combinado.
Às 19 e 15 pousara na pequena mesa o seu molleskine preto, por estriar e uma caneta oferecida por uma namorada.
Às 19 e 30 estava sentado à mesa com os olhos fixos no carro, no passado e no caderno de capa preta.
Às 20h deixou de ver terra. Desligou o motor. Ligou a aparelhagem e preparou o jantar.
Havia ainda alguma luz. Pássaros cruzavam o céu, baixinho. De vez em quando um barulho de madeira a estalar.
Debaixo dos seus pés o oceano para descobrir.
Deixou-se levar por cheiros e cores. Respirou fundo.
Abriu o livro na primeira página e escreveu.
“Leve”.
E esta palavra era de facto pequena para descrever o que sentia, naquele momento. Ainda que achasse que muito pouca coisa o deslumbrava ou emocionava, sentia-se, naquele momento, emocionado. Aquela era a vida que escolhera. Aquele era o descanso merecido. Com os seus livros, filmes, chás e memórias. Companheiros preciosos, silenciosos, alguns de décadas.
Agora sim, ele teria tempo para escrever, muito tempo. Para fotografar. Para correr o mundo.
Sobretudo para sentir, experimentar e saborear, o novo que sentia, uma espécie de coisa boa que ele não conhecia muito bem, mas que já ouvira falar.


Para alguém com espírito de marinheiro.
Que gosta de molleskines gordos, a verter coisas.
Que eu amo.
E que tem uma alma muito, muito grande.

ilustração - m. prado

10/10/07

Eu queria muito abordá-la.
À minha volta dançava-se e bebia-se. Ou melhor, dançava-se porque se tinha bebido. Muito.
Ela parecia ter ficado assim, do dia anterior. Estava exactamente na mesma posição. O Tony, que entrara comigo, já meio bêbado, comentou “vê lá se ela não está morta”. Depois apertou-me o braço, afectuosamente, e disse-me baixinho “tu arranjas sempre umas gajas muito esquisitas”.
Dirigi-me ao bar. Ela continuava na mesma posição e o lugar ao lado dela estava vazio.
Sentei-me. Pigarreei para me anunciar mas, que idiotice, ela não ia ouvir no meio daquela confusão toda. Seria ela surda, lembrei-me eu de repente. Podia ser.
Observei-a, de soslaio. Nada no seu corpo se mexia, a não ser o peito, para cima e para baixo, num suave respirar e um fio vermelho de cabelo, por causa do ar condicionado. Fiquei assim tanto tempo que começou a doer-me o pescoço.
Fumei um cigarro, esvaziei dois copos de whisky e pedi ao barman que a servisse de um Martini. Com uma azeitona verde. “Para condizer com o seu vestido”. E ri-me para ela. E o meu sorriso bateu numa barreira invisível e voltou para trás mas não para a minha boca porque de repente eu deixei de ter vontade de rir.
Engoli em seco, recebi da pista um olhar penoso do Tony e do barman um encolher de ombros e foi então que decidi avançar.


ilustração: J. Loustal

in a sentimental mood



ilustr. m. prado

09/10/07

Voltou o calor. A erva ficou verde e o céu, afogueado, choveu e teve sol.
Eu própria tornei-me numa mulher diferente.
O meu corpo modificou-se. A cor do meu cabelo também. As mãos têm mais sinais. Às vezes entretenho-me a unir, com uma caneta, os sinais das minhas mãos.
Já bebi inúmeras garrafas deste vinho doce e inofensivo.
Os miúdos da casa cresceram e já se foram.
Até a moda mudou.
Continuo a olhar para a linha do horizonte deste mar, à procura de um ponto de luz qualquer que me indique que vais voltar.
Há quem diga que morreste.
Há quem diga que pura e simplesmente foste embora porque estavas cansado e não tiveste de coragem de dizer adeus.
Há quem não diga nada porque tem pena de mim.
Eu penso, em certos dias, que a coragem é coisa de gente e por isso custa-me a acreditar que me tenhas deixado aqui a engordar e a envelhecer.
Costumavas dizer que há muito mundo para ver a quatro olhos.
Visto este vestido todos os dias na esperança de ser hoje, o Dia. Gostavas do toque deste vestido. Fazia cócegas nas tuas mãos duras. Quando me acariciavas tinhas medo de o “estragar”.
Já tive de o ajustar ao corpo uma dúzia de vezes. É que fica apertado e lá vou eu descoser a bainha para o alargar.
Só que as bainhas não têm muito mais tecido.
Decidi que quando não o puder alargar mais vou deixar de me sentar aqui.
Gostavas que eu me sentasse aqui quando voltavas do mar. “Pareces uma pintura” dizias. Digna de reinar nos melhores museus.
Quando este vestido deixar de me servir será Inverno outra vez. Vou estar mais velha, gorda. O céu vai estar cinzento e o mar zangado.
Não vai valer a pena manter esta janela aberta.

08/10/07

sem filhos e sem verbos

A mulher sentada no autocarro, ao meu lado, diz-me numa voz clara e cheia de sotaque “o carro pára na casa da música, menina”. E mostra-me uma boca de dentes estragados.
O pior é que aquela mulher é bem capaz de ser mais nova do que eu. Trata-me por menina a partir dali.
Conta-me a sua história. Sai de casa às 6 e meia, todos os dias da semana, depois de arranjar o “comer” do marido e deixa os filhos numa ama. Volta a ir buscá-los às 8 e meia da noite. Depois de ter apanhado metro, autocarro e por fim camioneta, 2 horas de viagem.
Trabalha como doméstica numa casa há 23 anos. Ela é que “tem a mão em tudo”. Ninguém sabe onde está nada, diz, orgulhosa.
Criou os 5 filhos da patroa. É como se fossem dela.
Primeiro era interna e depois casou e foi para a casa dela. No meio de tudo ainda arranjou tempo para ter os seus filhos, tirar a carta e fazer até ao 9º ano.
Por esta altura, a adolescente sentada à nossa frente, de unhas pretas com meio verniz e borbulhas atrevidas da puberdade espalhadas pelo corpo e o homem que vai com ela e que pode ser seu padastro ou tio, ouvem a história desta mulher com atenção.
Uma vez foi operada e enquanto esteve internada fazia folhas e folhas de numeração romana, até ensinou um enfermeiro a fazer contas de dividir daquelas que têm muitos números.
Adora ler e tudo que lhe cheira a estudo. Só não lê no autocarro e na camioneta porque fica “ourada”.
A adolescente baixa os olhos. O padastro ou tio continua a olhar para ela, para a mulher.
De rabo-de-cavalo mal feito, corpo grande, casaco de malha demasiado grosso para a época, mas uma qualquer sensibilidade nos olhos extenuados, olhos inteligentes com alguma água e uma alegria que lhe vem de uma qualquer coisa que não a sua vida triste e sacrificada.
Uma vida de viagens, sem filhos e sem verbos.
O “carro” para na casa da música. Eu desejo-lhe felicidades. Ela diz-me “saudinha”. Eu saio. Ela fica. Eu paro no passeio, a olhar para ela.
O autocarro arranca, pesado.
Eu sorrio-lhe. Ela continua a sorrir, mesmo quando deixei de a ver.

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