24/12/08

"Cebulório"







Amanhã entrarei em casa dos meus pais para mais uma noite de Consoada.
Amanhã cheirar-me-á a molho fervido com cebola, azeite, alho e louro.
Amanhã verei a mesa posta, a mesa grande de consoada, engalanada. Com o seu melhor vestido. Amanhã servir-se-á o jantar no melhor serviço, os guardanapos de pano enfeitarão os copos e até as cadeiras parecem ter calçado saltos altos.
Amanhã encontrarei olhos brilhantes, palavras fraternas, indumentárias cuidadas e maquilhagens bonitas.
Amanhã receberei abraços e beijos. Verei, nos olhos de todos, o Natal que me ensinaram a amar. Sentirei, sentada à mesa, o calor forte do sangue que corre nas veias e nos copos de vinho.
Sentirei, espalhados pela casa e em comunhão embriagante, os perfumes mornos, das ocasiões especiais, os cheiros dos doces feitos a tantas mãos, o cheiro da casa dos meus pais que tem o cheiro de mãe da minha mãe e o cheiro a velhice do meu pai e tem, também, o cheiro daqueles que já não estão.
Amanhã falaremos de coisas agradáveis e cantaremos, uma vez mais, o “Cebulório, em uníssono.
E quando o fizermos, às nossas vozes juntar-se-ão as vozes de todos aqueles que, espalhados pelo mundo, comungam comigo deste amor que, juntos, desembrulhamos nesta noite.

23/12/08

bom natal & bom ano


para todos
e em especial
para vocês,
que visitam este meu espaço habitualmente,
vai um beijo e um abraço especiais.

12/12/08

ele preocupava-se com ela.
protegia-a da chuva, dos ovos fora de prazo.
tentava protegê-la da sua própria distracção
alertando-a para os perigos de atravessar a estrada, alheada.
alertando-a para uma mania bizarra que ela tinha de, quando caminhava, deixar que o corpo e consequentemente o andar descaíssem, ligeiramente,
para o lado esquerdo.
podia ser do coração, ela pensou um dia.
porque o coração mora no lado esquerdo do peito
e o coração pesa com a idade,
fruto das coisas que se vive e se sente.
e ela vivia tudo e sentia tudo intensamente.
então um dia ele descobriu esta imagem e mandou-lha.
e ela viu esta imagem num determinado momento
um momento em que de facto precisava dela, ou antes precisava dele,
e o certo é que a imagem foi capaz de lhe trazer
os braços fortes dele e o peito morno
e inunda-la com aquela sensação de segurança
que só o amor nos consegue dar.
e no dia seguinte ela andou meia descaída para o lado esquerdo.
porque o seu coração havia ficado um pouco mais pesado,
por causa do amor.

ele tentou de tudo para lhe arrancar um sorriso.
era teimoso, o que não ria.
ria com pouquíssimas coisas na vida.
contavam-se, aliás, pelos dedos de uma das mãos.
ficaram ali naquela coisa do ri e não ri sabe-se lá quanto tempo e nada.
gastaram a pilha da máquina digital e nada.
ele tentou piadas simples e daquelas mais rebuscadas, versos tontos, asneiras indizíveis, nomes próprios inacreditáveis,
nomes de medicamentos compostos por sufixos e mais algumas tontearias,
casamentos de celebridades com coisas inanimadas tipo uma rua da Buraca e nada.
quando por fim desistiu, desligou a máquina, deu um passo à frente, amuado,
e tropeçou no tapete da sala e foi de cara e joelhos ao chão,
e ficou ali como um quadrúpede e foi então que
o outro riu.
um riso desdentado, arrancado a ferros,
riu riu riu como se vertesse da boca sorrisos de anos,
guardados e cheios de mofo
e engasgou-se com aquele riso alarve e teve um ataque de tosse estrambótico
a ponto de ficar sem voz e começou a ficar roxo
e então quem começou a rir foi o outro, ainda de quatro, no chão,
então riram os dois até não terem mais nada para rir
e sem terem tirado uma única fotografia de jeito.




10/12/08

amo-te




tu vais
mas fica o teu perfume, a pairar no ar, à minha espera
para me apanhar de surpresa, me abraçar e entrar dentro de mim.
tu vais mas os teus olhos ficam
nos meus
repousam e dormem comigo
fazem-me amor.
e eu fico com o calor dos teus braços no escuro quando me procuras
e fico com o castanho dos teus olhos no vermelho dos meus lábios
e fico com a tua voz a brincar no meu ouvido.
tu vais afastas-te ficas longe
cada vez mais à medida que avanças
mas isso é só uma questão de kilómetros.
porque sabes,
eu fico contigo todos os dias da minha vida
naquilo que é o amor que tu me ensinaste.

04/12/08

apetecia-me escrever-te uma carta de amor




uma carta pequena
em papel de seda
escrita a azul
que começasse assim
"meu amor,"
contar-te de uma forma simples e pequena
como foi o meu dia hoje
o que jantei
que música me fez escrever
que imagem me fez parar.
ou quantas saudades tive tuas
se é que isso se pode medir.
tu sabes que sim
(que eu consigo medir as palavras
escutar-te através do papel
desenhar o teu cheiro
olhar-te nos olhos quando me desnudo da maquilhagem)
sabes, às vezes apetece-me escrever-te
falar-te através do papel
rir-me enquanto roo a caneta
pegar-te na mão enquanto as palavras jorram
sinto-me perto. sinto-te.
eu acho que isto é amor.
o que é que tu achas?
e depois acabava assim
"um beijo,
da tua Laura".



cair


cair, cair no chão, sem dó nem piedade, de repente, fulminantemente, absolutamente… já caíram? já vos aconteceu? sim, claro. aconteceu a todas.
faz parte do rol de aventuras desgraçadas que acabam com a nossa reputação em adolescentes, sim, cair, a sair do carro ou a sair do café ou no polivalente do liceu com os adolescentes idiotas com esgares babados no canto da boca prontos a rir a rir sem só sem pena.
sim, cair, eu e todas, a partir de agora só direi "eu" porque dá trabalho estar a escrever “eu e todas” e no fundo neste âmbito “eu e todas” é precisamente a mesma coisa, por isso e retomando,
eu, a sair do carro, elegante, recta, paulatina, a pensar noutra coisa qualquer e zás, sem saber como e porquê ou empurrada por que foras invisíveis ou divinas, estou no chão, de quatro, eu, calças de fazenda a lamber a calçada, húmida sabe-se lá de quê, mãos frias contra o frio do chão sujo de pés e escarros e outras mais tais sujidades, biqueira das botas, afiada, lustrosa, enterrada na lama viscosa dos intervalos minúsculos dos paralelos,
eu, vexada, humilhada, naquela posição de quadrúpede, obrigada a estar ali assim e ainda por cima os caracóis malandros a lamberam-me a face furibunda,
o vento a acoitar-me o cabelo de lado como que a gozar, bufando-me, com regozijo, perversidades por estar assim nesta posição pouco humana
e eu naquela posição incomoda, infeliz, levanto-me, ante os olhares do mundo, sim, porque naquele momento eu penso que o mundo inteiro olha para mim,
olham para mim todos os olhos em bico de Xangai,
olham para mim os olhos dos mamíferos da floresta amazónica,
olham para mim os funcionários públicos desolhados
as donas de casa insatisfeitas
os mortos ainda mornos com os seus olhos colados de morte
olham para mim prédios e camionetas, fontes e viadutos,
rotundas e cegos.
levanto-me a no momento a seguir
e ao levantar-me, nesse exacto momento em que a minha coluna se instala no esqueleto,
abano a cabeça num gesto muito pequeno, de passarinho e altiva,
recupero aquela minha altivez de mulher adulta que sabe o que quer e,
de calças de fazenda ligeiramente enlameadas na zona do joelho,
de joelho esfolado precisamente nessa zona do joelho,
biqueira da bota preta ligeiramente riscada e húmida de lama,
caracóis perfeitos a bofetearem o vento,
lanço-me no meu andar em saltos altos, oscilando levemente a anca,
os saltos bicudos a beijocarem a calçada húmida, carteira no braço, olhos brilhantes…

02/12/08

é que, sabes, posso não ter dito vezes suficientes o que quero dizer-te,
com este vermelho aqui em baixo.
sim, o vermelho.
não é ela. ela podia não estar no desenho. não é ela que é importante.
o importante é a cor. o vermelho.
consegues ver? vês?
vês os matizados, as sombras, os riscos, as manchas?
vês os desenhos das figuras?
o fluir dos vermelhos?
a zanga, a paixão, o adormecer, o encanto?
a mão forte, a harmonia, o conforto?
a companhia, o entusiasmo?
a segurança, o divertimento?
o amor, que fica, depois de se conseguir ver e sentir isto tudo?
foi o que ficou em mim. instalado.
capaz de me fazer ver (todas) estas coisas, simplesmente, numa cor.

o (meu) amor é vermelho e arde


henry a.
vou pintar-me um dia, de invisível…
para poder passear-me nua, pelos dias.

28/11/08

pessoas



bruce davidson
e
Jones-Scott
o que seria a minha vida sem pessoas
sobre que escreveria
como saberia as suas histórias aquelas que eu gosto realmente de saber
aquelas que tanta gente apelida de “histórias sem nada de especial” ou “chochices”…
com quem partilharia coisas e objectos
memórias e tortilhas de milho, make-up e livros?
telefonemas e receitas de culinária?
o que seria a minha vida sem as moradas que colecciono, dos amigos,
sem a lista de e-mail’s e o rol de aniversários..
como poderia ter aprendido tanto e ensinado, também?
e quando um estranho se cruza connosco e nos pergunta as horas?
o trajecto de vida dele interceptou o nosso por um segundo porque houve interacção, por mais pequena que tenha sido
gostava de ter um mapa da minha vida com todas as pessoas que a interceptaram, desta maneira.
seria decerto um novelo de linhas, a minha vida,
com tendência para ficar sempre maior.

19/11/08

daqui vejo o estádio em brasilia cheio para o jogo a eugénia melo e castro a cantar o hino os gatos escondidos um fio de pêlo no tapete a descansar ouço os passos da vizinha de cima um cantor a entoar o hino brasileiro daqui quieta vejo tudo como um peixe e os meus olhos mexem-se com as sombras os ruídos as cores o público aplaude a minha amiga comenta a minha gata abre a boca e mostra um céu da boca cor-de-rosa manchado típico dos gatos persa puros pura é esta água silenciosa que me aquece daqui vejo tudo a sala adormecida os retratos sem vida o sofá com o desenho do corpo o chá a fumegar a audrey na parede a olhar para mim os meus pais noivos no retrato a adivinharem-me daqui deste aquário azul de água amiga vejo gatas paredes cores som conforto deixo-me assim sem me mexer respiro espirro quero queria quero-te espero-te e por fim fecho os olhos.
quem diz que os peixes não dormem?

frio. quente.
água. ar.
costas. costas.
suspiro. espera.
mar. grande.
distância. toque.
areia. mão.
ouves? espero.
dizes-me: vem.
e eu vou.

13/11/08

miscellaneous

falo penso medro durmo pinto coro sinto quero como vivo anseio estudo
escuto escrevo conformo saúdo telefono envio amo afago enterneço
estremeço entorno degolo esfrego limpo suo canto soo
eco renasço bordo atendo entendo tiro
entretanto entre tudo
tanto
tudo.



fot. sarah moon

12/11/08

voo

durmo para me voar até ti
e voo-me sobre a cidade adormecida
deito-me no teu tejo
para te esperar até de madrugada.



11/11/08

amor

gravo-te em mim.
na pele, na minha almofada, nas flores que enchem as jarras.
gravo-te no ar que respiro e nas canções que te trazem, à noite, quando já estou só.
sento-me e respiro-te.
gravo-te na saudade que suo
gravo-te nas mãos que sinto à volta do meu corpo quando me deito, quando já estou só.
deito-me e quero-te.
gravo-te quando os meus olhos se fecham e te procuro, incessantemente.
a minha noite procura-te
o meu amor encontra-te.
e durmo, na verdade, agarrada a ti.

03/11/08

chorar com filmes

chorei a 1ª vez com o Bambi, porque ele tinha perdido a mãe e no universo dos meus 6 anos perder a mãe era assim a coisa mais terrível que me podia acontecer, isso e não poder “escrever” nas costas das receitas de próteses dentarias do meu pai.

depois fui chorando ao longo dos anos com outros filmes.
já me aconteceu chorar de maneira diferente com o mesmo filme.
choro com o “e tudo o vento levou” quando a scarlett chega a tara, depois daquela viagem atribulada e aí é a musica que me faz chorar e choro aos soluços.

choro com a familiaridade da “música no coração” e das memórias que cada palavra da letra encerra e choro e rio ao mesmo tempo.

choro com imagens fotográficas de certos filmes.
com as mulheres do almodovar, com o azul do “bonjour tristesse”.
choro com diálogos pequenos de homens e mulheres
choro com a simplicidade
choro com imagens de nova Iorque
e ultimamente deu-me para chorar com historias de amor.

gosto de chorar com filmes.
é uma maneira de chorar acompanhada.

30/10/08

grey



fot. k rosenthal
fico mais cinzenta no outuno.
e ficando cinzenta tenho vontade de pintar as unhas de cinzento, vestir uma camisola cinzenta, calçar umas botas e usar uma carteira cinzentas,
passear-me acinzentadamente pelo meu dia cinzento,
comer num restaurante todo pardo,
de paredes de lágrimas cinzentas e copos da casa do vidro da marinha grande, cinzentos escuros, tomar um café com a cara encostada à mão, com ar cinzento,
suspirar com ar de ocaso,
dar um passeio outonal pelo passeio alegre e olhar para o mar cinzento
escrever as minhas memórias cinza, valadamente, a cinzento lápis
e deitar-me, já tarde, na minha cama quente
cansada
e adormecer pesada e calmamente
com as pálpebras a pesarem-me de sono.
um peso bom, de cansaço cinzento, que ao dormir
misturo com as outras cores todas
e transformo
num bom dormir
e no dia seguinte, um acordar para outra cor.

papel de parede

adoro papel de parede, tenho uma boa meia duzia de papéis de parede, que me lembro, que são para mim uma referência: o da casa de banho dos tios, na rua do arco, em viseu; o da sala das antas, o do escritório das antas; o do quarto da ro e da marisa, nas antas e o do meu quarto de solteira, das antas. esse papel era aboslutamente fabuloso e dependendo dos meus estados de espírito, eu conseguia ver, nele, caras de mostros ou de homens com esgares de terror ou anjos e fadas. nesse papel do meu quarto de solteira eu escrevinhei (que vergonha, escrever numa parede e principalmente num papel) umas coisas disfarçadas nas flores mais escuras, pequenas letras que queriam dizer coisas, mas eu sabia o sítio delas e sabia bem o que elas queriam dizer, oh se sabia, e essas coisas por estarem escritas na parede do quarto onde eu dormia velavam o meu sono e eu acreditava muito nisso e eram mais um dos meus (muitos) segredos.

ajustar contas

fazemo-lo mais, à medida que vamos avançando na idade.
como se quiséssemos começar a preparar qualquer coisa ou o caminho de qualquer coisa
para não deixar nada pendente.
a semana passada ajustei contas com o meu armário e alguma da minha roupa, a que tem mais personalidade e que eu guardo há mais tempo
mas é um disparate guardá-la porque nunca mais a vou vestir.
dei uma série de roupa antiga dessa, especial, mas primeiro ajustei contas com ela.
uma camisa dos áureos anos 90 que mais tarde me acompanhou nas loucas produções, com a sara e a paula
uma saia comprida dos remotos 80’s em que se usava tudo e não se usava nada e essa saia era assim uma espécie de allien.
também ajustei contas com umas carteirazitas que já guardaram uma centena de batons, caixas de chiclets e papeis com bocados da minha vida.
ainda tenho de ajustar contas um dia destes com umas tantas coisas.
acho que vou ser velha e ainda vou andar a ajustar contas.
é um sinal que estou viva.
e mesmo com a minha vida arrumada, eu vou sempre conseguir desarrumar alguma coisa…. para depois voltar a arrumar.

21/10/08

as minhas mulheres

Se eu pudesse
tornava menos difícil a vida de certas mulheres que conheço.
dava-lhes mimo, conforto e resolvia-lhe problemas bicudos
pagava-lhes as contas do Pingo Doce e do dentista dos filhos
perdia tempo a fazer madeixas
e a fazer ginástica para tonificar os músculos
comprava-lhes um mimo de vez em quando
principalmente naqueles dias em que as mulheres choram e ninguém se lembra porquê.
tirava-lhes os pêlos das pernas sem dor
areava-lhes os tachos
ouvia pieguices e queixas, sem abrir a boca
e com os olhos só com os olhos
levava-as pelos caminhos lógicos do raciocínio
ou então
ouvia-as, só.
às vezes é só disso que elas precisam.
se eu pudesse
tornava mais aprazíveis os dias de Inverno solitários de certas mulheres que conheço.
ensinava-as a rezar e a gostar de ver revistas
a fazer um bolo pequeno para dar para muitos dias
a fazer malha ou Arraiolos, no Inverno,
a tomar um banho de imersão à luz das velas, com uma taça de vinho
a ver um filme, sozinhas
a revisitar a solidão com memórias
e a falar com os objectos de casa.
ensinava-as a gostarem das suas casas, mais do que qualquer outra coisa.
se eu pudesse
aliviava, de certos papeis, muitas mulheres que eu conheço
que têm na vida, muitos papeis.
falava com os filhos adolescentes, a linguagem deles, para depois falar a sério com eles,
a linguagem de mãe.
aprendia com as mães dessas mulheres, a linguagem das pequenas coisas
para a ensinar depois às suas filhas.
velava as viagens dos seus filhos, de carro, à noite para que elas pudessem dormir
esfumava nas suas vidas os episódios menos bons
pintava a morte de branco
e a saudade transformava-a num hábito bom
ensinava-as a escrever num caderninho de cabeceira
as coisas boas da vida, para nunca se esquecerem delas.
se eu pudesse
tinha nascido com muitos braços e muitas pernas e muitas mãos,
e com olhos brilhantes, que pudesse clonar,
para estar ao mesmo tempo e sempre,
com essas tantas mulheres.

para as mulheres da minha vida e em especial para a kiki.

16/10/08

a porta giratória

Já se apaixonara em supermercados, papelarias, quermesses, no metro, na cadeira do cabeleireiro, na página de um jornal, mas nunca, nunca se apaixonara numa porta giratória de um centro comercial.
Ela ia a entrar e ele ia a sair. Não interessa agora como é que ela ia vestida ou o que é que ele trazia na mão. Ou seja, não houve qualquer elemento exterior aos dois que os fizesse iludir com qualquer coisa. Não.
Ela ia a entrar e ele ia a sair. E olharam-se numa partículazinha de tempo invisível e teimoso, quando ela já tinha os dois pés pequenos dentro do compartimento direito da (grande) porta giratória e ele tinha os dois pés grandes no compartimento esquerdo da (grande) porta giratória.
Olharam-se de raspão mas não o suficiente para se verem.
Quiseram ver-se mais uma vez.
Ela fingiu que o telemóvel tocou.
Ele fingiu que deixou cair um papel que tinha na mão.
E então, deram mais uma volta na porta giratória.
Porém, ela não encontrou o telefone, dentro da carteira.
E no chão, acocorado, ele não encontrou o papel simplesmente porque não estava a olhar para ele. Estava a olhar para ela.
Ela não era boa a fingir que falava para telemóveis mudos e por isso corou até à nuca.
Ele não era bom a fingir espanto quando o papel caiu ao chão porque tinha sido ele a deitá-lo e então deu-lhe vontade de rir.
Com tudo isto, não se tinham visto ainda bem.
E então, decidiram dar mais uma volta na porta giratória.
Esqueceram telefones e papéis e… Olharam-se demoradamente, enquanto um homem barrigudo entrou a tossir nicotina para o compartimento direito e uma adolescente com música aos gritos nos ouvidos entrou a mascar chiklet com barulho para o compartimento esquerdo.
Às tantas, sem saberem porquê, numa cadência de espírito e num bater de coração, consertado, acertaram os passos, um com o outro.
E ao mesmo tempo entrou, no compartimento da direita, uma mulher jovem, de óculos escuros, que procurava dentro da sua Louis Vuitton o telemóvel, que tocava. E o toque do telemóvel, ó sorte fantasmagórica, ó música oportuna, de repente a mais melodiosa do mundo, de repente a mais bela do mundo, a música deles ali naquela porta giratória a rodar, …“Dream a little dream of me”.
Sentiram-se, obviamente, a andar de carrossel. Devem ter pensado nisto ao mesmo tempo. Riram.
Banda sonora tácita. Tremor nos membros inferiores. A paixão a sair da larva, a bater ainda fraca mas a agarrar-se à vida, com unhas e dentes.
Ela levou a mão à boca. Ele mexeu o pescoço.
A mulher saiu sem ter encontrado o telemóvel. Mas a música ficou com eles.
Ela quis dar mais uma volta. Ele quis dar mais uma volta.
E então, decidiram dar mais uma volta na porta giratória.
E nos olhos, disseram-se coisas e combinaram tomar um café ali mesmo ao lado, na casa agrícola.
E saíram e frente a frente ele olhou para ela, embasbacado, o corpo parado mas ainda a rodar, num frémito de palavras que lhe corriam nas veias, prontas a sair em todas as línguas, sem pontuações ou com todas as figuras gramaticais.
Ela olhou para ele, fixamente, demorando-se em cada linha do rosto, reconhecendo o rosto, rugas, sinais, memorizando poros e pequenos derrames.
E foi então que ela riu de repente, com vontade, chegou-se a ele e lhe disse, com a voz ainda a rodar:
- Tenho de ir vomitar, estou muito tonta…Esperas por mim?

candy


fot. barbara kruger
candy (como lhe chamavam desde os tempos da escola primaria) viveu uma vida cheia, na praia e no campo, em 3 países diferentes, foi mulher de cidade elegante e sofisticada, foi mãe, foi professora exemplar e foi presidente do conselho executivo da associação das mulheres amigas de todos, foi feliz, casou de branco e virgem, teve 6 filhas e 2 abortos, leu centenas de livros e escreveu contos que ninguém leu, teve 12 netos, filiou-se no partido democrata, criou uma irmã deficiente mental, teve o cabelo de 7 cores diferentes, foi sócia honorária da Acedemia de Artes e Letras, aprendeu a pintar a óleo aos 63 anos, escreveu 16 diários com chave e 3 sem chave, bordou bainhas abertas em todas as fraldas das filhas e fez em crochet uma toalha e uma colcha para 8 netas, fez colecção dos livros Europa América, aprendeu ballet e aprendeu cozinha Hindu, teve 2 empregadas de família de quem cuidou, teve 5 melhores amigas desde os tempos de ama, amou com paixão o marido que conheceu aos 8 anos, enterrou mãe, pai, 2 filhas e 1 filho, sogra, sogro, empregadas de família, as 5 melhores amigas, chorou muito mas levantou-se sempre e nunca teve uma única depressão.
matou, sem querer, o marido, numa manhã de primavera, ao dar-lhe a medicação para o coração, repetida e fatal.

07/10/08

aos quarenta

aos quarenta
visto-me de folhas maduras
palavras calmas
olhos descansados.
pesa-me no corpo um pesar. bom.
de vida aproveitada
sonos aprendidos
aprendo-me. ensino-me. e ensino.
rejeito o que me prende.
o que me ensurdece, o que me encolhe.
rejeito o que me faz ficar cinzenta.
canções tristes que antes me tornavam pequena.
pessoas pequenas que antes me tornavam triste.
enternece-me um filme francês
um pássaro
um acorde harmonioso
um vermelho desbotado
um pão-de-ló acabado de fazer.
enternece-me a família
um álbum de retratos
um Inverno ameno
um telefonema de um amigo.
enternece-me o pó nas mobílias
a montra de uma mercearia
a cantiga portuguesa de ontem.
sou chávena de chá morno de plantas exóticas
sou vestido justo ao corpo
cadeira emparelhada
braço dado
livro gasto
sou, amiúde, miúda.
sou grande, pequena,
mimada e severa.
sou vespa cor-de-rosa italiana
sou prédio alto de nova Iorque.
sou romântica e cismática.
sou simpática e sonolenta.
sou filha, irmã, mãe, amiga, mulher.
sou, muito disto tudo, aos muitos que me rodeiam.
sou a esperança de alguns
a alegria de outros.
sou tábua, almofada, âncora.
sou. assim. aos quarenta,muita coisa.
visto-me, leve, rio, pinto, escrevo, palavras, cor, sim.
faço pausas pausadas. respiradas.
crio e recrio e invento
ouço música. constante.
banda sonora que construí com trabalho. esforço. de anos.
paz.
vejo cores que não têm nome. fotografo.
respiro os momentos, como ar. profundamente.
sinto coisas que não têm nome. memorizo.
trato-me, trato, retrato.
trato as palavras por tu.
entrego-me.
trato-me por tu.
e sou. a minha melhor amiga.

estou de volta... obrigada a todos vocês, que esperaram por mim.

10/09/08

a negra e a branca



bruce davidson
tinham feitios completamente diferentes, uma e outra, e por isso pegavam-se amiúde.
a branca enfurecia-se só com o rosto e não emitia qualquer som enquanto a negra partia a louça toda e berrava e deitava a casa a baixo entre perdigotos e pontapés.
a negra era impulsiva como as tempestades tropicais.
a branca era calma como uma tarde de verão cheia de calor.
a branca tinha a voz grossa por causa do cigarro e a negra odiava tabaco.
a negra gostava de música e de dançar e a branca não tinha qualquer aparelho em casa que tocasse qualquer tipo de música.
a branca gostava do McCain e a negra guardava, na mesinha de cabeceira, uma fotografia do Obama.
quando uma estava doente a outra fazia caldinhos brancos com frango, arroz e cenoura.
quando uma se enganava numa data a outra ficava sem lhe falar 15 dias.
quando uma discutia com o marido a outra abria-lhe as portas da casa.
quando uma ia à depilação a outra ia fazer-lhe companhia.
quando o marido de uma fazia anos o marido e a outra estavam sempre presentes.
quando a uma eram apontados defeitos a outra defendia-a com unhas e dentes.
uma dizia mata e a outra dizia esfola.
uma era 8 e a outra era 80.
uma chamava-se Ermelinda e a outra Mercedes.
eram cunhadas e não sabiam viver uma sem a outra.

09/09/08

"It had to be you"



g. lynch
um dia destes mando fazer um vestido vermelho de veludo de cristal,
apanho o cabelo atrás da cabeça para ficar esguia,
faço um jet bronze para ficar com bom ar,
contrato uns músicos que saibam tocar e que não sejam muito caros,
arranjo uns projectores de recorte
e ponho-me a cantar, para ti, uma canção de amor…


“It had to be you,
it had to be you
I wandered around,
and finally found
The somebody who
Could make me be true,
And could make me be blue
And even be glad,
just to be sad
Thinking of you”

o grande teatro da sua vida


Cristiana Ceppas
sentia-se triste porque lhe diziam muitas vezes “perdes tempo com coisas que não têm interesse nenhum”. às substituíam a frase por “deixa-te de tretas”. a tristeza dela era igual.
o facto é que observava muito, tudo, e depois gostava de reproduzir, fossem aves, crianças, árvores ou nuvens.
tinha no corpo elasticidade, jeito e leveza; a voz saía fina ou grossa como um trovão, dependia do seu estado de espírito ou da sua vontade.
entretinha crianças facilmente. velhos tontos então nem se fala, riam-se todos, sem dentes e olhos húmidos.
entretinha-se a si própria frente ao espelho, horas, a treinar posições ou a articular vozes.
só a mãe conseguia exclamar, de todas as vezes, um “ah!...” verdadeiramente espantado. depois envolvia-a num abraço terno e sussurrava-lhe ao ouvido “és a minha pequenina grande, uma verdadeira artista”.
e a mãe, com os velhos e as crianças, era o seu publico único, uno e fiel. sabia que no dia em que a mãe faltasse os espectáculos acabariam mas, que diabo, os artistas também tinham de descansar…
e assim continuou, a falar a linguagem das coisas inanimadas, a dar-lhes vida com o corpo, até que a sua mãe encerrou, certo dia, o grande teatro da sua vida.

08/09/08

alarvidades


ouka lele
estou sentada numa cadeira de pau na sala de espera do pediatra da criança que chora sem parar.
uma senhora em frente com óculos grossos e muito magra pergunta-me sorridente porque chora a criança e eu tenho vontade de lhe dizer o que pensei “se soubesse o que ela tinha não vinha ao médico. e a senhora o que faz aqui? está quase cega mas este consultório é de pediatras. enganou-se na porta, foi?"
depois pego numa revista e folheio para me por a par das alarvidades.
não sei como é que esta escanzelada da nicole kidman consegue ser apelidada de “a mais…” relativamente a qualquer coisa, muito menos no que a roupa diz respeito.
hoje estive numa sapataria e pedi para ver umas botas. deixei a criança que chorava muito há mais de uma hora seguida, da parte de fora da loja e mal entrei começaram logo todas a cochichar entre elas e eu até lhes perguntei se eu podia ajudar em alguma coisa.acabei por não comprar botas nenhumas porque não havia meias finas para experimentar e não me deixaram experimentá-las com este calor sem meias.
fui-me embora com a criança a chorar por mais uns bons quarenta e cinco minutos que foi o tempo que demorei a chegar a casa ainda tentei apanhar um autocarro mas se encontro aquela condutora de autocarro habitual tenho de lhe bater.
sento-me por fim a beber uma cerveja preta enquanto a criança adormece.
de tanto chorar.

02/09/08

Zequinha

Existiu, em casa dos meus pais, um canário que a minha mãe baptizou de Zequinha.
O Zequinha era um canário amarelo, de plumagem fina e cabecinha redonda, de olhos vivos e poupa da mesma cor.
O Zequinha seria um canário absolutamente normal como os outros canários que até hoje conheci se não fizesse coisas que eram absolutamente estranhas e não usuais nos pássaros da sua espécie.
De facto o Zequinha via um dedo aproximar-se da pequena gaiola e todo ele se inflamava, saltava no poleiro, piava repetidamente. E se alguém tivesse coragem bastante para introduzir o dedo na gaiola então ele dava-lhe pequenas bicadas, e ficava-se por ali a “lutar” com aquele dedo, como se de um verdadeiro duelo se tratasse.
Com o tempo, o Zequinha aprendeu a linguagem fininha e paciente da minha mãe.
Ela entrava na sala, de manhã e dava-lhe os bons dias e ele respondia-lhe com um esvoaçar cheio de carinho. A minha mãe sentava-se, no quintal, com a gaiola perto de si, a ver revistas e sempre, sempre a falar com ele. A minha mãe jantava na mesa, sentada e quando ela falava ele estremecia, com a sua voz. Desafiando-a, piava e só se calava quando ela se aproximava da gaiola.
O meu pai, que criou dezenas de canários durante a sua vida e nunca, diz ele, nunca viu assim um canário, que comunicasse, que conhecesse a voz, que conhecesse o cheiro e a mão e que tivesse aprendido assim, a gostar…
Com a paciência e doçura que lhe são habituais, a minha mãe ensinou-o a gostar de folhas de alface, a descansar ao sol com ela, a gostar de bolos e até a descansar na sua mão. E de facto ela metia a mão na gaiola e o Zequinha pulava para cima dela. Quando estava bem disposto e cheio de energia dava-lhe bicadas porque não sabia dar-lhe beijos. Quando estava cansado e nos últimos tempos, já velhinho, descansava na mão dela até adormecer.
O Zequinha adoeceu este ano no Verão, quando os meus pais foram para o Algarve, durante um mês.
Quando voltou a casa dos meus pais, depois das ferias, vinha sem forças, sem conseguir empoleirar-se. A minha mãe deixou de comer com ele e a sua respiração tornou-se pesada como a dele. Ainda assim, fraco e doente, só reagia com a voz e a mão dela.
O Zequinha morreu hoje, a dormir, na mão do meu pai, e a minha mãe pô-lo numa caixinha da sua avó, uma caixa de cartão que sobreviveu ao tempo, cheia de eucaliptos e rendas, uma caixa especial que ela tinha guardado, sem saber, para este destino.
O Zequinha morreu de velho mas também segundo a minha mãe, de saudades dela, mas morreu feliz e cheio de amor.
Porque amor foi o que a minha mãe ensinou um pássaro a sentir.

31/08/08


sabe bem voltar a casa, ao nosso cheiro, aos nossos gatos, à roupa que esquecemos e aos ruídos que fazem parte da banda sonora da nossa vida.
sabe bem voltar ao ritual do limpar a cara antes de dormir e ver se os gatos têm comida.
sabe bem voltar a ligar a máquina de lavar a roupa e o portátil
sabe bem ler as mensagens que nos deixam.
sabe bem saber que fazemos falta.
estou de volta.

11/08/08

a espera





brent l.
sem saber um do outro, esperavam.
ele esperava ao fim da tarde.
ela esperava ao fim da noite.
ele esperava com a roupa do dia.
ela esperava, vestida de noite.
ele esperava sem acreditar.
ela vivia para esperar.
ele tornara-se cinzento.
ela vestia negro.
ele esperava no 1º andar.
ela esperava na rés do chão.
um dia ele deixou de esperar por ela e enfiou-se num lar e lá ficou a jogar cartas e a ensurdecer até ficar velho.
um dia ela morreu de velha, de vestido preto, ao sair do bar onde esperava, todas as noites.

98.9



fot. Paul O.
hipótese a)
"Regiões a norte do sistema montanhoso Montejunto-Estrela:Céu em geral muito nublado, apresentando-se pouco nubladono interior até ao início da manhã.Períodos de chuva fraca no Alto Minho, mais frequente a partir datarde, progredindo gradualmente às restantes regiões e sendo poucoprovável no nordeste transmontano e Beira Alta."

hipótese b)
“A inflação na zona euro atingiu em Julho os 4,1 por cento, face a igual mês do ano anterior, um novo recorde desde a criação desta zona em 1999, segundo uma primeira estimativa esta quinta-feira publicada pelo Eurostat.”

fascinação...


Construí-a na minha cabeça, pelas palavras que cantava.
As poucas revistas que chegavam do Brasil (e que eu consumia por causa dela e de outra) não chegavam para me fazer ter dela uma ideia real.
A Elis cantava da maneira que eu sentia as coisas, em menina.
Muito de pele, muito sentidas, cada palavra a deixar transparecer uma emoção ou um estado de espírito. Algumas frases eram ditas com voz rasgada, outras com um sopro a calar-se, algumas com lágrimas, nas próprias músicas. Eu arrepiava-me quando a ouvia, a presença dela parecia sair dos discos de 75 rotações numa espiral de luz como se fosse um mago.
Eu acreditava que só eu sabia a maneira como ela sentia tudo, para cantar, porque eu sentia parecido, para escrever.
Às vezes abraçava-me e olhava-me perto, nos olhos. Às vezes levava-me com ela, descalça, para cantar. E apresentava-me à Nara, ao Tom, ao João.
Cheguei a acreditar, tal era o amor que lhe tinha, que a minha voz colava bem à dela e que um dia quando ela já não estivesse eu seria capaz de a cantar. Sempre.
Um dia ela morreu cedo e eu acompanhei o funeral por uma revista e escrevi um texto sobre os artistas que não deviam morrer e decidi guardá-la, para sempre, viva no meu peito.
Tenho quase quarenta anos, continuo a acreditar que a minha voz cola bem à dela, continuo a achar que ela canta as coisas como eu ainda as sinto e que foi pena ela não ter sabido que eu acredito escrever como ela cantava.

29/07/08

4


“Estás louco ou quê? como é que me vais desmaiar logo naquele sítio? estragaste-me a noite!”
Foram estas as últimas palavras de Gertrude, que despejou Manfred em casa, logo depois de ele ter desmaiado. O desgraçado ficou-se a vomitar até de manhã, nem palavras conseguiu dizer, nem conseguiu deitar de comer aos gatos, o Óscar e a Pandora, nada, raça de nada…
Acordou no dia seguinte com uma luz fortíssima que lhe entrava pela janela e lhe furava os olhos e pensou se não estaria no céu ou noutro lugar qualquer, isto é, pensou que tinha morrido.
Mas não, porque no céu não há gatos e um Óscar faminto miava desesperadamente, em cima dele. Manfred soergueu o corpo e pensou ter um melão no sítio da cabeça pois ela pesava-lhe como tal e sentiu uma náusea tão grande que logo se deitou.
Um arranque seu, que mais parecia um rugido, projectou Óscar, de pêlo eriçado, para bem longe e como não tinha nada para vomitar no estômago pois não o fez, mas continuava aos arranques e o animal continuava a saltar e a bufar de cada vez que ele estremecia.
“Preciso de beber…”pensou e olhou à sua volta.
“Inteligente Manfred” disse com um esgar, ao ver a cama tão longe de tudo, resultado de uma decisão idiota, mais uma decisão idiota. Porque fora ele colocar a cama debaixo da janela, longe da casa de banho, longa da cozinha, que ficavam no outro extremo da sala. “Idiota, acéfalo, bruto, quadrúpede, animal do presépio, camelo…”. Enquanto desfiava todos os nomes conhecidos, olhou para a sala à espera de ter alguma ideia brilhante mas Manfred nunca tinha ideias brilhantes, só tinha ideias idiotas.
Até o telefone estava longe, até isso, e o comando da televisão e o estupor do rádio…
Óscar aproximava-se agora outra vez dele, a medo, Pandora vinha-lhe na peugada, os dois sobranceiros ao chão, caçadores, predadores….
“Anda cá, bichinho… se tu pelo menos me pudesses chegar um copo de água…”

"o puto"


fot. robert doisneau
que parvinhos, nestas idades…
e andam sempre a chamar-me pequenito e a dizer que eu tenho as pernas fininahs e que o meu boné coiso e tal.
(pausa)
mas qual é a piada que isto tem…

"o infeliz"


fot. kevin meredith
hipótese a)
anda lá, deixa-te de disparates e vem.
brrrr… nem penses está muito fria…
“só a mim ninguém me leva”.

hipótese b)
hmmm… estás tão redondinha…tens aqui pneuzinho bem catita….
…fff…. és tão parvo… mas eu acho-te tanta graça…
“só a mim ninguém me diz nada”.

28/07/08

we're a happy family


sempre que arrumo a minha casa descubro-lhe cantos e pó.
coisas esquecidas que já vi mas que redescubro tanto.
caixinhas cheias de coisas antigas e caixas mais novas, numa adolescência de coisas novas, felizes.
gavetas cheias de histórias em tecidos.
hoje arrumei a minha casa de vários anos.
deitei coisas fora muitas coisas.
remexi, arrumei, espirrei por causa do pó, rasguei, enterneci-me, deliciei-me.
fechei caixas definitivas. desarrumei lenços. escolhi pijamas e botas de inverno.
acomodei cobertores e fronhas de linho e bordado inglês.
deitei fora soutiens de tempos tristes.
por cores, como a minha nova cor, arrumei sapatos, vernizes, fios e vestidos.
e no fim, pus cortinas de renda no quarto porque o meu quarto é de menina e arrumei num cantinho, a minha familia de bonecas, que cresce e me acompanha sempre...
Traz um vestido comprido negro. Um tecido fino.
Traz um cabelo morto tombado nos ombros. Traz as mãos frias dentro de umas luvas quentes. As mãos continuam frias.
Traz um casaco pousado nos ombros, só pousado. Dá ideia que aquele casaco tão leve lhe pesa uma eternidade. Aquele casaco negro parece trazer consigo, cozido, tudo o que lhe pesa. A ela. Tanto.
Traz nos olhos negros uma qualquer sem expressão. E é isso que faz com que toda a gente olhe para ela, neste momento. É que há mulheres elegantes, vivas, quentes, a passear cores e perfume naquela escadaria. Sobem-nas e descem-nas com uma cadência feliz. Nota-se na forma como pousam a pontinha do sapato.
Ela não. Traz ainda na boca uma qualquer ruga triste que não se vê mas se adivinha no conjunto. Sobe as escadas com peso, sem graciosidade, tal é o negro da sua cor.
Já subiu estas escadas com cor, com luz, com palavras a escreverem-lhe no corpo tanta coisa. Com a boca fechada num sorriso invisível.
Nesse tempo ela subia aquelas escadas em direcção a qualquer coisa.
Hoje ela sobe estas escadas em direcção a algo que ainda não descobriu. E que parece não existir.

12/07/08

saudade



Tinha saudades de me sentar assim a conversar um par de horas com vocês.
Tenho saudades vossas, às vezes não me lembro disso em consciência mas acho que a saudade é mesmo assim.
Sentamo-nos em casa dos meus pais, a casa dos meus pais é de certa forma aglutinadora, parece que é o sítio onde toda a gente vai dar, o derradeiro sitio…
Sentamo-nos, eu no meio, uma de vós em cada ponta, eu a desfiar os últimos dois anos da minha vida em palavras breves, mas as palavras resumem-se assim bem com os do sangue e eles compreendem é uma espécie de pacto, de contrato tácito, não é preciso dizer muito, o entendimento lê o corpo, a sua linguagem.
Sentamo-nos assim em casa dos meus pais, tanta coisa aconteceu, umas más que se transformaram em boas, outras muito boas, algumas mas poucas más, nós aprendemos assim a saber distinguir bem o que temos de bom, também tivemos boas lições.
E sentamo-nos as 3, nos vossos já quarentas, nos meus quase.
Às vezes tenho vontade de voltar atrás para brincar ou para sentir os sabores da infância, onde vocês têm um lugar muito especial. Em mim como pessoa, na família como membros, na vida de todos.
Mas gosto de nos ver assim adultas, com a experiência marcada em nós, com os dissabores da vida, alguns bem difíceis, a tornar-nos ainda mais bonitas, capazes de falar neles e em tudo.
Porque com vocês é assim. Podemos não nos ver meses ou anos.
Mas permanece o sangue a correr depressa com o (tanto) nosso sangue, a alegria, a avidez com que trauteamos assuntos e passagens da vida, o entusiasmo, a amizade grande e o amor que me continua a fazer comparar-vos a algo idêntico ao que eu sinto pelos meus irmãos.

A dois dos grandes amores da minha vida: Rosi e Marisa.

09/07/08

botões, pulseiras e coisas da minha Mãe

Pedi há pouco à minha mãe, que está no Algarve, que me trouxesse uma prenda.... Pulseiras.
Há anos que o faço. Nem que ela se limite a ir, um fim-de-semana, para Viseu.
Também sou a única filha que peço.
É engraçado que peço mais agora, que sou grande, do que pedia em pequena.
Já pedi coisas extraordinárias à minha mãe.
Já lhe pedi que me cosesse um botão ou disfarçasse um remendo de um casaco de malha, coisa que ela faz como ninguém, que me arranjasse com as suas mãos sábias um bordado de uma blusa que se estava a desfazer.
Já lhe pedi que tomasse conta da minha gata que estava para ter filhotes.
Já lhe pedi um chá de cidreira ou um Buscopan.
Já lhe pedi para ser dura comigo e para me dizer a verdade.
Já lhe pedi que me tiresse uma coisa do olho ou que fosse comigo escolher uma casa.
Já lhe pedi para vir comigo a consultas difíceis.
Já lhe pedi gargalhadas e lágrimas.
Uma televisão ou uma dedicatória.
Já lhe pedi colo dezenas de vezes. Já lhe pedi as mãos no meu cabelo outras tantas.
Já lhe pedi perdão e tréguas.
Já lhe pedi que fizesse pazes e que acalmasse ânimos.
Já lhe pedi que parasse ou que fosse sempre em frente sem medo.
Já lhe pedi um pudim e um botão de rosa.
Já lhe pedi uma história ou um conselho de mãe.
Meia dúzia de ovos e uma écharpe para um casamento.
Às vezes peço-lhe um olhar, silêncio e um abraço. Só isto e sinto-me segura.
Há pouco a minha mãe telefonou-me para saber de que cor queria eu as pulseiras.
Sei que é a maneira que ela tem de me ouvir mais uma vez. De estar mais perto agora que está longe.
Eu guardo todas estas coisas que peço à minha mãe.
E guardo muitas outras que ela me dá, que recorta ou apanha ou inventa ou compra e que depois, antes de mas dar, guarda, e…como se estivessem em gestação, enche-as de amor,prepara-as e a seguir eu recebo-as e leio-as e elas dão-me um bocadinho da minha mãe.
Às vezes penso que a minha mãe não vai estar sempre perto.
E tenho medo, um medo feio e escuro.
Enquanto ela estiver comigo eu vou-lhe pedindo coisinhas, bocadinhos dela.
Ela gosta de mas dar e dá-se… nelas.
Ela não sabe, mas eu já pedi que os olhos, o abraço e o cheiro dela ficassem, para sempre, sempre comigo.

02/07/08

cena 3


Manfred caiu redondo no chão, mesmo no meio da pista de dança.
Mas caiu cheio de estilo. Com os sapatos do falecido, gravata alegre, unhas arranjadas, o cabelo penteadinho e um fato de linho beije, com risca fininha castanha escura.
Caiu depois de ter bebido, de golada, a bebida que Gertrude lhe preparara.
Gertrude estava belíssima naquela noite, com um vestidinho curto de organza azul-bebé, o cabelo cheio de laca e aquele perfume dela que era feito pela avó cega, a Mdme. Marple e que, na opinião de Manfred, cheirava a um creme fresco e encorpado, que lhe punham no peito, em criança, para não tossir.
Gertrude fora buscá-lo de Mercedes-Benz 190 SL, uma pérola que lhe fora deixada, forçosamente, por um tio inglês que tinha ficado passado da cabeça e fora internado, numa casa de repouso, no Sul de França.
“Manfred, estás giro… “ tinha-lhe dito, com uma gargalhada teatral.
Rumaram à festa e entraram no jardim de braço dado.
Com a orquestra a tocar ao fundo do jardim, entre choupos verdes e archotes acesos.
Ela atravessou o pátio, bamboleante, distribuindo sorrisos aqui e acolá, piscadelas de olhos cheios de rímel.
Ele atravessou o pátio bestialmente nervoso, olhos postos no chão, não conhecia ninguém. Os sapatos do falecido, embora janotas, faziam um barulho assustador de modo que ele nem tinha percebido se as pessoas viravam as cabeças por causa do decote de Gertrude ou por causa dos sapatos dele.
“Queres um Martini?” ela perguntou-lhe, lânguida.
“Pode ser…” disse ele que só bebia Laranjina C e chá de camomila, para dormir bem.
Ela deixou-o para ir buscar as bebidas. À sua volta, mulheres sofisticadas e muitas, a beber, a reluzir, a dançar, a olhar nos olhos homens elegantes, a fumar cigarros finos e a desfilar fantásticos vestidos.
Bebeu o Martini de gole e dançou com Gertrude um bolero.
Viu-se depois nos braços de uma colega de trabalho de Gertrude, uma tal Allison, rapariga forte, mais alta do que ele, de lábios grossos e que parecia ter-lhe pegado, de repente, ao colo, para levá-lo a rodopiar pela pista.
Ao som de “Perfídia”, Manfred começou a sentir-se leve como um passarinho, os olhos pareciam sair-lhe das órbitas, de repente Allison estava com a boca escancarada e os lábios tão grossos que ele mal lhe via dos olhos, viu ainda os músicos da orquestra a rir imenso, com grandes dentes de rato e ele próprio começou a rir e sentiu-se no ar, a flutuar, nos braços fortes de Allison, que agora tinha umas asinhas de anjo…
A última imagem que teve da festa foi de si próprio, no meio daquelas mulheres todas, todas as mulheres da festa…em roupa interior…Depois caiu redondo no chão, mesmo no meio da pista de dança.

30/06/08

"Danúbio Azul"


assistira, na sua vida, a um total de 27 casamentos.
tinha 25 anos quando assistiu ao primeiro.
na altura pensava em si própria vestida de branco alvo, um vestido rodado muito rodado.
na altura emocionava-se com a homilia e com as pétalas e o arroz a cairem sobre a noiva, a meterem-se nos cantinhos do vestido, em todos, a perderem-se no soutien...
e mais tarde, no copo de água, tonta de sonhos e champanhe, imaginava o noivo, mas o seu noivo, depois da festa, a tirar-lhe dos cantinhos do corpo os grãos de arroz, um a um…
na altura dançava a valsa de abertura o “Danúbio Azul” e dançava leve e belíssima nos braços de um rapaz alto primo da noiva estudante de engenharia muito bom rapaz e dançarino ou nos braços de um desconhecido de trato educado e já meio tonto de champanhe.
tinha 32 anos quando iniciou a… “fase difícil dos casamentos”, quando a sua melhor amiga casou.
aquela amiga que ia com ela de férias, a quem ela telefonava diariamente, a que conhecia as suas caras terríveis das dores de período, aquela com quem passava os domingos curtos de Inverno, aquela com quem passava tudo, mau e bom, grande e pequeno, calmo e furioso.
na altura pensou em si própria dentro de um vestido pérola, pelo joelho.
na altura as raparigas solteiras correram todas para apanhar o ramo. e ela correu para a casa de banho. não aguentaria mais um ramo perdido.
na altura emocionou-se com o abraço da amiga lhe deu, no fim da cerimónia, que lhe soou a uma espécie de despedida.
e sim, tinha sido, pois nunca mais teriam oportunidade de passar férias só as duas, falar diariamente ao telefone, contar pelo telefone as tristezas incluindo as dores de barriga do período e o arroz queimado e o encontro falhado.
na altura, também, soou o “Danúbio Azul” e sobre a pista bailaram raparigas leves e belíssimas e ela levantou-se para retocar o que não era preciso, na casa de banho.
tinha 45 anos quando a irmã mais nova casou.
se por um lado controlava perfeitamente a sua imagem e tinha inúmeras técnicas de autodefesa para uma série de momentos difíceis nos casamentos (durante a cerimonia e não só...) , seria, por outro lado, traída por uma coisa que as mulheres simplesmente não controlam: “o que se sente muito”.
porque o que se sente muito sente-se assim e pronto, não há volta a dar, sente-se e acabou.
na verdade ela controlava o bronzeado da pele, as pontas de cabelo espigado, a altura dos vestidos que desciam com a idade para tapar a idade dos joelhos.
a irmã mais nova casou numa manhã de primavera e quando entrou na igreja, igreja onde ela já tinha estado tantas outras vezes em tantos outros casamentos, havia, naquela manhã, uma luz diferente, que entrava pelos vitrais e que desmaiava em dezenas de cores matizadas, no chão, que batia nas flores dos bancos laterais e fazia veludo onde batia.
a irmã entrou sozinha, muito segura, lindíssima, um misto de nossa senhora e mulher madura, o desejo físico estampado nos olhos, as mãozinahs pequenas unidas como as imagens, a vida a fervilhar nas veias, a felicidade a arrastar-se com o véu, imenso, a lamber o chão.
e ela, a irmã de 45 anos, que já assistira a 26 casamentos (com aquele faria o 27º) sentiu-se ridícula naquele vestido que era assim por causa dos braços e era assado por causa dos joelhos e os sapatos altíssimos que lhe iriam custar um tratamento aos pés, nos dias que se seguiriam e de repente chorou, e vozes femininas começaram a entoar a “Avé Maria” de Schubert e então ela aproveitou porque quando se chora com musica é sinal de sensibilidade e chorou e estragou a maquilhagem cara das 9 da manhã...
o que ela ainda não sabia é
que iria chorar quando a irmã saiu pelo braço do já marido, com um sorriso que ela nunca lhe conhecera,
que iria chorar quando entrou na sala do copo de água, decorado pela irmã e o sorriso de felicidade dela estava gravado e espalhado por todo o ambiente e o veludo e a paz continuavam lá em cores tantas, nas cadeiras, nas flores, até nas ementas; havia um cheiro a felicidade, seria o cheiro feliz de todos os casamentos onde ela já tinha estado, seria o cheiro que ela recordava do seu, de tantas vezes o ter imaginado...
que chorou quando partiram o bolo debaixo de fogo de artificio, ao som de violinos.
que chorou quando a irmã e o marido abriram o baile com o “Danúbio Azul"
que chorou quando ela se despediu de todos, feliz, tão escancaradamente feliz.
que chorou por ter sentido inveja dela, da irmã...
que chorou por não ter um marido, naquele momento, que lhe emprestasse um lenço...
que chorou no carro a caminho de casa, no dia do 27º casamento a que assistira.

e chorou, por ultimo, quando chegou a casa e quando chegou a casa encontrou a amiga à sua espera.
“a tua irmã estava muito preocupada contigo… disse-me que choraste muito. e eu decidi vir.”
ela riu finalmente no meio daquele choro todo.
depois entraram em casa, prepararam um chá verde e choraram as duas.
e depois riram.
os anos passaram e quando ela fez 68 anos assistiu ao 28º casamento, da filha da amiga.
num vestido beige, de corte direito pelo joelho, chapéu de abas largas, leque na mão, sapatos rasos, dançou o “Danúbio Azul” com um tio viúvo da parte do marido da amiga, um senhor da sua idade, barba feita, fato cinza clarinho, cheiro suave e mãos fortes.
e dançaram e depois de dançar sentaram-se na mesma mesa, ele esperou que ela se sentasse, depois brindaram com o copo meio de champanhe e não mais se separaram a partir dali e 4 anos depois, no dia em que ela fez 72 anos, assistiu ao 29º casamento que foi o seu e quando entrou na igreja havia uma luz diferente, que entrava pelos vitrais e que desmaiava em cores, no chão, que batia nas flores dos bancos laterais e fazia veludo onde batia.
e ela chorou a caminho do altar a caminho daquele que ia ser seu marido, que a recebeu aprumado e elegante e de repente passou-lhe pelo espírito o que pensara no dia em que assistiu ao seu primeiro casamento, é que tinha ainda uma vida inteira pela frente para estar com ele.
a mão forte dele recebeu a mão delicada dela e tornaram-se marido e mulher e como dois miúdos riram e choraram, escancaradamente felizes, dançaram o “Danúbio Azul” como se não houvesse mais ninguém naquela sala, foram de lua de mel para a Sardenha e... foram felizes para sempre.

para s.

26/06/08

cena 2


ilustr. j.v.
“Abordagem”, tinha-lhe dito Gertrude, “é tudo uma questão de abordagem”.
Depois levou-o até sua casa e cortou-lhe o cabelo.
Pôs-lhe uma gravata alegre e bálsamo na cara.
Trocou-lhe os sapatos por uns que pertenciam ao falecido.
Deu-lhe um jeito às unhas enquanto ele torcia o nariz. “Isto são coisas de mulheres”.
Não, replicou ela, divertida, são coisas que as mulheres gostam.
Beberam juntos um conhaque no Paradise, ao cair da tarde.
Já as luzes se tinham acendido, já o sol se tinha despedido no horizonte.
“Estás pronto” ela exclamou.
Manfred acreditou.
Regra geral acreditava nas mulheres.
E não sabia se era da gravata alegre ou do conhaque de veludo quente, mas naquele fim de tarde sentiu-se verdadeiramente capaz de... abordar.

23/06/08

cena 1


fot. j. vettriano
Manfred não tinha muito jeito com as mulheres, na verdade não tinha mesmo jeito nenhum, e elas sabiam-no e sabiam ainda que bastava uma coisa pequena para o surpreender e quando isso acontecia ele ficava genuinamente emocionado e elas divertiam-se com isso e tinham até apostado entre elas quem seria capaz de o surpreender em menos tempo…

17/06/08

pchm-fsstr-br-br…


p urque seu fôre sempaxim gân-de….
e vermalho e fóte…
póssu……….chegáre au pé de todosi
tutufssgr-br-br—pchm-fsstr-br-br…
e ir imbóra já invisivél e… ponto.

t r i f e n e 2 0 0


fot. m. mcCartney
ela (aliás, sempre ela a falar…):
diz lá aquilo que estavas a pensar!...
não dizes?... depois sou eu que sou teimosa…
(pausa. com suspiro enfadado, dela)
estavas com uma cara de enfado que até metia impressão…
“igualzinha à cara da tua mãe quando me vê entrar” – ela pensa.
sempre vens comigo na 6ª feira ao leilão do Ateneu? A Clara e o Romeu também vão, mas deixam o Mateus na mãe.
“se a tua mãe fosse simpática uma vez por ano eu pedia-lhe que ficasse com a nossa filha…” – ela pensa.
ah é verdade e o fim de semana da ponte, o próximo, não posso ir, tenho uma sessão fotográfica, tens de ficar tu com a Mariana.
e também… decidi que não vou jantar à tua tia Carolina que faz 50 anos…. mas vai tu, se quiseres, amigo não empata amigo…
"agora que já descarreguei e que o comprimido já vez efeito acho que me vou deitar" - ela pensa.
vou andando para arrumar umas coisas lá dentro...

12/06/08

álbum de retratos... praia


fot. cheryl maeder
e ficaram assim da esquerda para a direita
a tia Maria Adelaide que nunca casou mas também nunca se importou
a tia Ivone muito sorridente e bem disposta, casada com o Tio Mário, que nunca aparece em fotografias e que é muitíssimo sorumbático
a irmã da tia Maria Adelaide, a Tia Mi, mais velha das irmãs, não parece, mas sempre teve muito mais cuidado com o sol, casou duas vezes e das duas vezes enviuvou e preferiu não voltar a casar. gosta muito de filmes.
a Perruxa, filha da tia Mi, do 2º casamento, advogada realizada instalada bem humorada e também casada
e por ultimo
a pequena Beatriz filha da Perruxa, filha mais velha, que ela tem mais um filho, o Manel
anda sempre com o tubinho e as barbatanas parece um peixe a miúda e tem muito jeito para as artes mas na família sempre foi assim.
este retrato foi tirado em Sesimbra, na praia no dia 24/07/1999.
eu sei porque escrevo sempre atrás nas fotografias e ainda bem que o faço.

act and react


for. andre k.
o que nos faz, por vezes, ser especiais, é a quantidade de coisas sublimadas em palavras histórias e risos, é a capacidade aprendida de tolerar, resgatar e continuar.
é a inveja dos outros e a nossa própria teimosia,
é não ter medo de arriscar
são as coisas difíceis e pesadas que nos fazem subir sempre mais um bocado.
é conseguir ser ao mesmo tempo actor e espectador
e ter sempre um caderninho na carteira, para ao fim do dia, vermos os apontamentos que tomamos, sobre nos próprios.
e corrigir.
como se fosse uma peça de teatro.
em que o encenador somos nós e nós dizemos sempre:
não está bem ou está bem mas podes fazer melhor.

pois...


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