23/04/08

Encontravam-se às 4ªs e 5ªs.
Ele só ia depois de dizer à mulher, pelo telefone, desculpa querida, mas sabes como é o Andrade anda outra vez com problemas tenho de lhe dar uma mão os amigos são para essas coisas.
Ela ia directa. Não tinha que dar satisfações a ninguém.
Aquilo já durava há 7 anos e o dono do motel já lhes guardava o mesmo quarto.
Conversavam pouco. Não se conheciam muito bem e era por isso que se entendiam.
Às vezes bebiam vinho branco, fresco, quando fazia muito calor e o ar condicionado estava avariado.
Às vezes sentavam-se no parapeito da janela a olhar para as luzes da cidade e a olhar um para o outro, através do reflexo no vidro.
Às vezes faziam amor sem dizer nada.
Depois lavavam-se, vestiam-se e saíam, também, sem dizer nada.
Ela nunca se cansava de esperar e ele nunca se cansava de mentir.
Um dia ela cansou-se e perguntou-lhe:
- O que é isto?
- Isto o quê? – Disse ele.
- Isto, entre nós.
Ele não percebeu a pergunta ou fez que não percebeu.
- Mas porque é que estás a perguntar isso agora? – Atirou com um tom de voz que ela não conhecia.
Ela sentiu-se de repente muito cansada e muito sozinha.
- Deixa… - encolheu os ombros.
- Queres que peça vinho? – Ele deu-lhe uma palmadinha na mão, pousada em cima da cama.
- Não tenho sede. – E dizendo isto vestiu-se em silêncio. Ele permaneceu sentado na cama, a mudar os canais da televisão.
- Já vou. – Ela disse, quando pronta.
Ele olhou-a sem surpresa.
- Até amanhã. – Murmurou. Sempre a olhar para a televisão.
- Não vai haver amanhã. – Deu-lhe um beijo na testa e preparou-se para sair.
- Quer dizer que acabou? – Ele arriscou ainda sentado.
- Algum dia começou?
Saiu sem bater a porta.
E ele voltou para a sua vida pacata, a duas cores.
Sem os problemas para resolver com o Arnaldo. Sem as luzes da cidade.
Sem o bocado da vida, reflectida no vidro quente e a saber a vinho branco, fresco, que ainda lhe dava alguma cor.

4 comentários:

Anónimo disse...

muito bem escrito, mais um momento, em poucas palavras, que deixa antever muito, muito mais. és perita. beijos
marisa

R. disse...

*****

Anónimo disse...

Intermitências.

abssinto

Gasolina disse...

Gostei deste jogo de silêncios. De nada haver. Só um vinho a tornar fresca uma realidade embaciada.

Um beijo.

PS: Revê os nomes.

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