09/09/08

sentia-se triste porque lhe diziam muitas vezes “perdes tempo com coisas que não têm interesse nenhum”. às substituíam a frase por “deixa-te de tretas”. a tristeza dela era igual.
o facto é que observava muito, tudo, e depois gostava de reproduzir, fossem aves, crianças, árvores ou nuvens.
tinha no corpo elasticidade, jeito e leveza; a voz saía fina ou grossa como um trovão, dependia do seu estado de espírito ou da sua vontade.
entretinha crianças facilmente. velhos tontos então nem se fala, riam-se todos, sem dentes e olhos húmidos.
entretinha-se a si própria frente ao espelho, horas, a treinar posições ou a articular vozes.
só a mãe conseguia exclamar, de todas as vezes, um “ah!...” verdadeiramente espantado. depois envolvia-a num abraço terno e sussurrava-lhe ao ouvido “és a minha pequenina grande, uma verdadeira artista”.
e a mãe, com os velhos e as crianças, era o seu publico único, uno e fiel. sabia que no dia em que a mãe faltasse os espectáculos acabariam mas, que diabo, os artistas também tinham de descansar…
e assim continuou, a falar a linguagem das coisas inanimadas, a dar-lhes vida com o corpo, até que a sua mãe encerrou, certo dia, o grande teatro da sua vida.

4 comentários:

CNS disse...

São tão belos os pequenos detalhes da vida. E tão bonito este texto...

bj

Gasolina disse...

Será que os panos não se abrem?

A sala está cheia.
Eu também cá estou.

Anónimo disse...

eu também estou. sempre estive. lembro-me de ti pequena. como já nos entretinhas tão bem!

beijão, prima

marisa

Laura Ferreira disse...

obrigada às 3.
também eu vos aplaudo porque também vocês me continuam a fazer escrever.

um beijo forte, em três, nos bastidores.

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