02/09/08

Zequinha

Existiu, em casa dos meus pais, um canário que a minha mãe baptizou de Zequinha.
O Zequinha era um canário amarelo, de plumagem fina e cabecinha redonda, de olhos vivos e poupa da mesma cor.
O Zequinha seria um canário absolutamente normal como os outros canários que até hoje conheci se não fizesse coisas que eram absolutamente estranhas e não usuais nos pássaros da sua espécie.
De facto o Zequinha via um dedo aproximar-se da pequena gaiola e todo ele se inflamava, saltava no poleiro, piava repetidamente. E se alguém tivesse coragem bastante para introduzir o dedo na gaiola então ele dava-lhe pequenas bicadas, e ficava-se por ali a “lutar” com aquele dedo, como se de um verdadeiro duelo se tratasse.
Com o tempo, o Zequinha aprendeu a linguagem fininha e paciente da minha mãe.
Ela entrava na sala, de manhã e dava-lhe os bons dias e ele respondia-lhe com um esvoaçar cheio de carinho. A minha mãe sentava-se, no quintal, com a gaiola perto de si, a ver revistas e sempre, sempre a falar com ele. A minha mãe jantava na mesa, sentada e quando ela falava ele estremecia, com a sua voz. Desafiando-a, piava e só se calava quando ela se aproximava da gaiola.
O meu pai, que criou dezenas de canários durante a sua vida e nunca, diz ele, nunca viu assim um canário, que comunicasse, que conhecesse a voz, que conhecesse o cheiro e a mão e que tivesse aprendido assim, a gostar…
Com a paciência e doçura que lhe são habituais, a minha mãe ensinou-o a gostar de folhas de alface, a descansar ao sol com ela, a gostar de bolos e até a descansar na sua mão. E de facto ela metia a mão na gaiola e o Zequinha pulava para cima dela. Quando estava bem disposto e cheio de energia dava-lhe bicadas porque não sabia dar-lhe beijos. Quando estava cansado e nos últimos tempos, já velhinho, descansava na mão dela até adormecer.
O Zequinha adoeceu este ano no Verão, quando os meus pais foram para o Algarve, durante um mês.
Quando voltou a casa dos meus pais, depois das ferias, vinha sem forças, sem conseguir empoleirar-se. A minha mãe deixou de comer com ele e a sua respiração tornou-se pesada como a dele. Ainda assim, fraco e doente, só reagia com a voz e a mão dela.
O Zequinha morreu hoje, a dormir, na mão do meu pai, e a minha mãe pô-lo numa caixinha da sua avó, uma caixa de cartão que sobreviveu ao tempo, cheia de eucaliptos e rendas, uma caixa especial que ela tinha guardado, sem saber, para este destino.
O Zequinha morreu de velho mas também segundo a minha mãe, de saudades dela, mas morreu feliz e cheio de amor.
Porque amor foi o que a minha mãe ensinou um pássaro a sentir.

7 comentários:

~pi disse...

todos queríamos ser

zequinhas...

eu, sim!

Crystal disse...

Os animais são realmente pequenas preciosidades que Deus nos põe no caminho. Não foi só amor que deu, foi amor que recebeu, foi uma vida de felicidade que teve, foi tudo o que partilhou e que também ensinou...que amar compensa, aos homens e aos animais.

Muito comovente, lamento a perda...

Beijinho doce

laura disse...

obrigada às duas.

Hei-de visitar o teu canto, crystal.

um beijo

Mar Arável disse...

Belo texto

Excelente momento

Gasolina disse...

Querida Laura,

Vai para três meses falámos do meu Zequinha. Contaste-me reconfortando-me do teu Zéquinha que partiu para a grande viagem...

Talvez se encontrem. Talvez conversem sobre os amores da terra, das mulheres que sabem ensinar amor.

Um beijo, um abraço enorme.
Algumas lágrimas teimosas.

laura disse...

obrigada a todos, um abraço.

Querida Gasolina, sim, os nossos pássaros estão certamente a ter longas conversas, juntos.

Um abraço cheio de beijos.

Fernando disse...

Laura, muito boa tarde.
Tal como aconteceu consigo, ir parar sem querer ao " Dias que Voam ", eu também vim aqui parar por mero acaso.
Já dei uma vista de olhos, mas muito rápido, no seu blog, mas aproveito para lhe dar os parabéns, porque gostei imenso deste seu texto.

Até sempre e coragem para ir enfrente.

Fernando ;-))

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