21/10/08

as minhas mulheres

Se eu pudesse
tornava menos difícil a vida de certas mulheres que conheço.
dava-lhes mimo, conforto e resolvia-lhe problemas bicudos
pagava-lhes as contas do Pingo Doce e do dentista dos filhos
perdia tempo a fazer madeixas
e a fazer ginástica para tonificar os músculos
comprava-lhes um mimo de vez em quando
principalmente naqueles dias em que as mulheres choram e ninguém se lembra porquê.
tirava-lhes os pêlos das pernas sem dor
areava-lhes os tachos
ouvia pieguices e queixas, sem abrir a boca
e com os olhos só com os olhos
levava-as pelos caminhos lógicos do raciocínio
ou então
ouvia-as, só.
às vezes é só disso que elas precisam.
se eu pudesse
tornava mais aprazíveis os dias de Inverno solitários de certas mulheres que conheço.
ensinava-as a rezar e a gostar de ver revistas
a fazer um bolo pequeno para dar para muitos dias
a fazer malha ou Arraiolos, no Inverno,
a tomar um banho de imersão à luz das velas, com uma taça de vinho
a ver um filme, sozinhas
a revisitar a solidão com memórias
e a falar com os objectos de casa.
ensinava-as a gostarem das suas casas, mais do que qualquer outra coisa.
se eu pudesse
aliviava, de certos papeis, muitas mulheres que eu conheço
que têm na vida, muitos papeis.
falava com os filhos adolescentes, a linguagem deles, para depois falar a sério com eles,
a linguagem de mãe.
aprendia com as mães dessas mulheres, a linguagem das pequenas coisas
para a ensinar depois às suas filhas.
velava as viagens dos seus filhos, de carro, à noite para que elas pudessem dormir
esfumava nas suas vidas os episódios menos bons
pintava a morte de branco
e a saudade transformava-a num hábito bom
ensinava-as a escrever num caderninho de cabeceira
as coisas boas da vida, para nunca se esquecerem delas.
se eu pudesse
tinha nascido com muitos braços e muitas pernas e muitas mãos,
e com olhos brilhantes, que pudesse clonar,
para estar ao mesmo tempo e sempre,
com essas tantas mulheres.

para as mulheres da minha vida e em especial para a kiki.

7 comentários:

blue disse...

por tanto, és uma bela mulher, Laura.

Patti disse...

Reflectiste muito bem o abandono e a maneira sacrificada como muitas mulheres hoje em dia vivem.
Texto muito bom. Sentido.

Mar Arável disse...

Só precisam de conquistar asas

sendo certo que mesmo sem elas

voam

~pi disse...

é por aqui nos limos que pendem nestas palavras que é belo

ainda ser

mulher com sabor de

mulher :)



~

Joanne disse...

Maravilhoso. muito mesmo! dava um belo monologo!

Sam disse...

Óptima reflexão, peço desculpa pela invasão. Parabéns pelo post e pelo blog.

Laura Ferreira disse...

obrigada, volta sempre.

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