28/01/08

g o s t o d e t i

Parou no meio do passeio.
Tremia de frio. As mãos pequenas dentro das luvas, o nariz de ponta vermelha, incendiado de frio. Os olhos rasgados com o vento e uma lágrima teimosa a deixar na face esquerda um rasto de tinta do eye-liner.
O bafo a sair-lhe da boca, irreal. Uma rapariga enfiada num casaco de pele, cabeça de fora, passou e olhou-a e sorriu-lhe. Sirenes de policia. Carros de vidros escuros. Orientais de olhos rasgados. Negros de andar redondo. Filas de transito. Humidade e néons.
Ele alheio àquilo tudo também parado no passeio.
As pessoas a desviarem-se deles. Os orientais de olhos rasgados. De pastas na mão. Mulheres de saltos altos. Negras de andar indolente. Velhas curvadas de tanta roupa. Sirenes. O metro debaixo dos pés.
Ela, enfiada de frio e em pontas de pés, sussurrou-lhe ao ouvido “diz-me alto que gostas de mim…”
Ele habituado àquelas coisas estranhas que vinham do nada ou às vezes até não, pegou-lhe no braço à meia-noite e trinta e três em ponto. “Fecha os olhos”.
Foram. Subiram em direcção a qualquer coisa. Passos, vozes, línguas e sirenes. Nevoeiro, frio, empurrões, cheiro a gente e a café. Dinheiro a tilintar, máquinas fotográficas a disparar e depois a entrada num elevador e a subida. Sem palavras. Às escuras.
Meia-noite e quarenta e oito.
A porta abriu-se e o vento açoitou-lhes o rosto.
Ele conduziu-a e finalmente pararem. “Abre os olhos”.
E ela abriu e diante de si estava ela…a cidade grande que de repente lhe pareceu pequena só porque estava a seus pés. Teve vontade de a dobrar como se fosse um mapa e metê-la no bolso e levá-la, para que a pudesse ter sempre, daquela forma, meia adormecida, estendida num manto ondulante, de milhares pontos de luz a perder de vista, a fazê-la perder de vista, a fazê-la querer perder-se.
E ele, homem de palavras suficientes, também estava com um certo ar.
Um ar de quem se sente pequeno, indefeso, talvez perante tanta beleza.
Passou um braço à volta dos ombros dela, chegou-a si e murmurou, com os olhos presos na imagem da cidade, “gosto de ti”.

Fot. tom baril

oh.

E então?
Então o quê?
Não dizes nada?...

O que é que queres que eu diga…
Alguma coisa. (pausa) Anda cá…
O quê?...
Chega-te aqui…
Oh.
Tás mortinha por isso…
Quem é que te disse?
Digo-te eu, que te conheço…
Chega-te tu…porque é que tenho de ser eu…
Porque continuas mortinha por isso…
Lá estás tu…
A fazer-te rir…
Risos. Dela e dele.

Fot. louis stettner

ei...

Tenho aqui alguma coisa, juro que tenho, uma coisa qualquer, não sei se um bocado de pintura que ficou…disseste-me, ontem, que os meus olhos estavam maiores. Foi bom porque fiz o risco mesmo abaixo do sítio onde habitualmente se deve fazer, aprendi isso no teatro, deu-me uma trabalheira enorme mas valeu a pena, disseste que estava com os olhos maiores e disseste isso com um ar muito verdadeiro, não sei explicar, mas havia um qualquer brilhozinho de autenticidade…
Onde andas?... Precisava agora de ti para me tirares esta pequena coisa que tenho no olho... Se calhar não é nada. É tão-somente a tua falta.
Afinal ela tem a forma de tanta coisa…

Fot. gertrud gozner

25/01/08

memo memo

sal
azeite (não te enganes e tragas óleo)
cereais de frutos tropicais (estão na zona dos produtos dietéticos)
pasta dos dentes (escolhe a “colgate” flúor gel)
legumes (já sabes o quê)
pilhas pequenas (para não barafustares comigo por causa do comando da televisão)
pão
cebolas
beijos, até logo.

ps: se te apetecer vai fazendo o jantar…
fot. gertrud gozner

sweet dreams are made of this

Adoro deitar-me e reconhecer, um a um, os barulhos que me são familiares.
O pigarrear do vizinho de cima. O ronronar das minhas gatas, deitadas no tapete, a pouca distancia do meu cheiro. A máquina da roupa ao longe nos dias em que a ligo. O barulho da minha respiração. Um qualquer ruído que vem da rua e que pode ser uma máquina a começar a trabalhar ou uma máquina a continuar a trabalhar. Um cão a latir. As madeiras a estalar. Isto é uma frase feita que eu ouço desde miúda, mas adoro pensar que é assim, que a própria madeira também se espreguiça e fica pesada, com o sono.
Os ruídos todos do meu dia, na minha memória, empurrados pelo sono, a desfilarem por entre os meus olhos quase a fechar, como se fosse a cortina de um palco.
A tua voz a dizer-me qualquer coisa já embriagada de sono.
Um suspirar seguido de um estremecer.
E depois o escuro.
fot. shaliza mokhtar

19/01/08

parabéns, photomaton!

2 anos!

A minha Photomaton é:

A parente sofisticada dos meus diários em papel, cheios de imagens, ideias, suspiros e verdades.

O local onde retorno quando tenho saudades dos que mais gosto.

Uma espécie de filha, que caminha comigo, a quem ensino tudo e que guardo como um tesouro.

A possibilidade de estar ligada àqueles que estão longe e que não posso ver todos os dias.

A photomaton do meu coração: onde moram bonecas, fotografias, músicas, recortes de infância, cores, perfumes, tecidos, todos aqueles que amo e ainda dezenas de retratos de mim própria, em cada uma das minhas histórias.

18/01/08

está quase... 2 anos...

"Photomaton est le nom d'une société française qui exploite, depuis la fin des années 1920, des cabines automatiques de photographie d'identité à développement instantané, installées dans les gares, les stations de métro, les centres commerciaux ou les administrations."

leva-me

fot. michal chelbin
Ele disse-lhe assim: anda.
Ela era um bocado medricas e disse-lhe: não.
Mas ele tinha qualquer coisa de seguro, que encantava as mulheres, e estendeu a mão, mandou-lhe um olhar meiguinho e sorriu.
Depois, sabiamente mais calmo, repetiu, num tom de voz mais baixo: anda.
E ela... deu-lhe a mão.
E como de todas as outras vezes, foi.

a pequena grande miúda

ilustr. a. morell
Era uma vez uma miúda que tinha a mania que era grande já desde pequena.
A miúda era muitíssimo teimosa e se encontrasse alguma coisa que fosse maior do que ela tinha de arranjar logo maneira de se tornar maior do que a coisa.
A miúda tinha tudo grande a condizer com a sua mania de querer ser grande, tinha o cabelo, tinha as roupas, tinha os sapatos de pelica, tinha as bonecas e o que mais houvesse.
Em contrapartida a mãe era muito pequena e para lhe falar tinha de ser com um funil ou então a miúda tinha de se baixar para ser ouvida. O pai tinha partido para parte incerta quando a miúda grande ainda era pequena de maneira que ninguém falava muito nele.
Mas eram uma família feliz, um agregado simpático, respeitado pelos vizinhos.
Viviam numa casinha à beira da estrada com frondosas árvores a enfeitar a entrada. Tinham um cão pequeno que nunca tinha ladrado, tinham uma estante com muitos muitos livros, tinham água potável, tinham uma peixeira que todas as semanas trazia peixe a saber ao mar que estava tão longe e tinham uma avó surda de cabelos branquinhos que cozia meias num ovo de madeira e cantava, sem palavras, as músicas do festival da canção.

14/01/08

os olhos verdes da ana margarida



fot. JULIA FULLERTON-BATTEN
Ela, que se chamava Ana Margarida, vestiu uma camisa verde feita de uma qualquer coisa que deixou a água verde, ai isso deixou e também perfumada e a água que estava morna ficou quente e o corpo dela arrepiou-se todo por causa daquela mudança de temperatura e os olhos dela que eram castanhos tornaram-se de repente verdes. Quem te deu essa camisa, pequena, perguntara-lhe a Lucília, incrédula. E esses olhos verdes? Tu nunca tiveste olhos verdes, vai é lavar essa cara e esses olhos e então esfregou a cara e os olhos da Ana Margarida e por fim lá viu que não valia a pena e pegou no telefone e passado um bocado vieram o Padre e o Tio Simão e o Pedro Pastor da aldeia e da parte da tarde umas tias afastadas muito velhinhas de olhos verdes e à sua volta as primas e as irmãs a chorar, verdes mas era de raiva porque também queriam uma camisa assim que fosse feita de qualquer coisa que fizesse qualquer coisa que lhes pusesse os olhos verdes. Mas eu não sei, ela disse outra vez e era verdade: acordara de manhã, uma manhã, e a camisa verde estava muito dobradinha aos pés da cama e ela até pensou em arrumá-la na gaveta mas qualquer coisa lhe disse que devia vesti-la e meter-se com ela na banheira.
As primas e as irmãs à sua volta choraram tanto que agora já tinham os olhos vermelhos em vez de castanhos e então a Ana Margarida já cansada de as ouvir pediu muito a Deus nosso Senhor, antes de adormecer, que no dia seguinte estivessem 15 camisas verdes, dobradinhas, aos pés da sua cama para as 15 primas e irmãs pararem de lhe azucrinar o juízo e quando acordou estavam, de facto estavam, as 15, dobradinhas, e elas, as primas e irmãs primeiro ficaram histéricas e depois atropelaram-se todas em direcção ao quarto de banho, berraram e gritaram, arranharam-se e arrancaram cabelos e por fim lá se meteram as 15 na banheira com os olhos raiados e inchados à espera do verde, daquele verde, e esperaram horas, esperaram até ficar roxas e nunca conseguiram ter olhos verdes como a Ana Margarida e foram infelizes e invejosas para sempre.

Devia arrumar-se, à noite, o que se desarruma de dia.
Mas de noite eu gosto é de mergulhar nas coisas a fundo.
Para as desarrumar todas, pois ninguém me vê.
E para eu ver nelas o que não posso ver de dia e o que mais ninguém consegue ver.

09/01/08

olhos

Gosto dos olhos que falam comigo.
Há olhos assim, que parecem ter palavras na menina.
Gosto de olhos simpáticos e húmidos.
Gosto de olhos com pestanas grandes. E pintados.
Gosto de olhos com pestanas coladas de sono e que ainda não acordaram.
Gosto do olhar bêbedo antes de adormecer.
Gosto do olhar negro do desejo físico.
Gosto de rever olhos que já tinha esquecido.
Gosto de tratar os olhos por tu.
Gosto de olhos com rugas.
Gosto de olhos inocentes e chorosos.
Gosto de olhos a ler.
Gosto de olhos a abrir presentes.
Gosto de olhos na praia, fechados e a mexer.
Gosto de olhos escondidos pelos óculos.
Gosto dos olhos das meninas em idade escolar.
Gosto dos olhos dos adolescentes apaixonados.
Gosto dos olhos tristes e nublados dos velhos.
Gosto dos olhos das minhas gatas que parecem olhos de gente.
Gosto dos olhos que guardo na memória, daqueles que já não estão.

E gosto, em particular e de entre muitos: dos olhos azuis da Patricia e dos olhos de uma senhora que conheci há pouco, chamada Sylvie. Gosto dos olhos verdes do meu pai, com papos e sempre húmidos de alegria. Gosto dos olhos de avelã do meu sobrinho. Gosto dos olhos do Gil. Gosto dos olhos da Joana, pintados. Gosto de um olho da Zinha que tem mais um bocado de castanho que o outro. Gosto dos olhos da Rita Azevedo Pinto que são enormes e falam antes dela. Gosto dos olhos do Thomas. Gosto dos olhos da minha prima Sandra com as pestanas enormes e despenteadas. Gosto dos olhos do Nico Tudela. E gosto muito muito, de ter os teus olhos perto dos meus.

histórias antigas

viagens de carro

"Vou de carro, numa qualquer estrada. Nevoeiro. Chuva miúda. Castiga o vidro. Castiga-me.
Para trás deixei uma discussão e um bater de porta que ainda ecoa na minha cabeça.
Tenho o coração acelerado. Ligo o rádio na estação habitual. Os animadores habituais com a habitual boa disposição. Não têm problemas, não discutem. Não acredito. Irritam-me. Mudo de estação. “if you leave me now…” Desligo.
Com raiva, deixo fugir uma lágrima. De tristeza. Mas não quero sentir-me triste. Não é ainda hora. Tenho uma hora de caminho. Três quartos para raiva e um quarto para tristeza. Quero ter raiva e ódio durante mais tempo porque este espaço é meu e ninguém me ouve ninguém me ouve.
Passam por mim carros com crianças felizes, nos bancos traseiros e mães faladoras a conduzir. Camionistas apitam e acenam-me, de cigarro ao canto da boca. Mulheres sós olham-me, com ar sério. Como se se conseguissem rever, em mim.
A minha vida está segura, dentro deste carro, mas no entanto eu estou exposta aos olhos de todos.
Os soluços sacodem-me o peito e começo naquele choro com um fiozinho de voz.
Buzino e insulto. Por tudo. Por nada. Ouço-me a gritar. Ouço-me dizer palavras que habitualmente não uso. As risadas e a boa disposição dos animadores ferem-me, os cabelos bem tratados e os olhos bem dormidos das mulheres sozinhas nos carros abrem-me fendas na pele.
Os barulhos tornam-se de repente maiores, todos eles: a chuva miúda, o motor do carro, o meu coração, os limpa pára-brisas...
Choro já só tristeza. Angústia. Um choro sonoro, rouco, numa voz que já me pertence.
As lágrimas transbordam do carro. A tristeza saiu de mim, invadiu a estrada e segue-me como o véu de uma noiva. Acabará por romper-se e quando eu chegar ao meu destino e desligar o carro, terei o peito sossegado e a respiração regular. E aí, ligarei o rádio na estação habitual, enquanto os animadores me voltam a dizer bom dia e enquanto retoco o eye-liner e o batôn, como se nada se tivesse passado."

A viagens que algumas de nós já vivemos, ou não.
À capacidade enorme de às vezes dar a volta quando tem mesmo de ser.
A muitas viagens de carro, felizes, com música, riso, vontade e pinturas!

07/01/08

ano novo

12 passas que se comem antes do 5,4,3,2,1…
Em miúda não gostava de as comer. Engolia-as. Primeiro com a água, depois com a coca-cola e mais tarde (e felizmente) com o champanhe. Havia anos em que a minha mãe me deixava comer 3. Por cada 4 meses do ano, pensava eu, e era. E à medida que as comia pedia desejos e por aí fora. Quando se é miúdo e se faz tudo que nos mandam pedem-se tantos desejos… é na missa, é na Páscoa quando “se beija o Senhor”.
Eu não tinha bem noção daquilo que pedia mas também nunca ninguém me disse o que é que devia pedir. Uma vez perguntaram-me o que é que eu tinha pedido, naquela altura da missa em que toda a gente se ajoelha e pousa a testa, pesadamente, nas mãos entrelaçadas. É um gesto universal, é um peso universal. E eu disse um estojo com 24 canetas “carioca”. E finalmente perderam algum tempo a explicar-me que devia era pedir saúde para os meus e para os outros, perdão, paz, amor no mundo e por aí fora. É o que ainda hoje peço mas depois entretenho-me a olhar para os claustros ou para as velas ou para as senhoras velhinhas com cara de livro de missa e perco-me e vou dos pedidos à arquitectura e às rugas de modo que prefiro pedir em casa, quando me deito, a olhar para as estrelas do tecto, aí peço e concentro-me bem porque não tenho claustros ou altares.
Cresci e comecei a gostar de passas. Assim como de bolinhos de bacalhau com feijão-frade. E sopa.
Deve ser mesmo assim. Educamos o nosso paladar ou o nosso paladar educa-nos a nós.
Este ano não comi as 12 passas à meia-noite, mas pedi uma série de desejos, como fazia quando era miúda. Não pedi canetas cariocas ou livros dos 5. Não pedi para um dia ser uma cantora que enchesse estádios.
Mas, como quando era miúda, acreditei muito que alguns deles até de podem realizar.
Bom ano a todos os que por aqui passam.
Estou de volta.

colagens



fot. b. rheims
Tenho estado a estudar muito, estes dias, e a escrever também muito, em papéis, pequenas coisas. Também escrevo quando me deito, mas não escrevo em papel porque estou cansada, escrevo na memória e no sono. E se deixar o rabinho de uma palavra num bocejo, a pairar, ou uma frase esmagada pelos olhos, recupero-as no dia seguinte.
Escrevo quando tomo banho e às vezes quando me pinto. Ontem até escrevi num guardanapo.
E a semana passada escrevi num papel da portagem, enquanto estava numa fila de trânsito.
Um dia destes reúno os papelinhos todos e ou faço uma colagem ou uma história.
E depois ponho aqui, no meu blog, ou colo numa carta e mando pelo correio.
E rio-me com isso.

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