28/02/08

às vezes só eu mesma é que sei...


fot. Leigh Beisch

25/02/08

a primeira produção fotográfica do Manuel Augusto em relação à pessoa da Maria Carolina

foi a sua primeira verdadeira produção fotográfica.
para mandar àquela que iria ser sua mulher, 30 anos mais tarde.
escolhera aquela camisa para dizer bem com o fundo do papel de parede. porque as riscas poderiam funcionar como uma espécie de prolongamento de qualquer coisa e isso também se podia tirar do pequeno nicho dourado que tinha em cima o recipiente usado para conter a água usada no baptismo de todos os homens da família Carvalhal, logo, que conclusão poderia a sua amada tirar daqui? ele fizera o exercício tantas vezes que acreditava piamente que quando ela visse o retrato iria pensar:
o que é aquilo?
é um nicho.
o que tem em cima?
uma daqueles recipientes antigos que provavelmente conteria a água do baptismo.
baptismo?
crianças, bebés.
seria sim esta a associação que qualquer mulher faria. ele próprio treinara com as mulheres da casa.
bem, depois estivera indeciso, por vários dias relativamente à risca do cabelo. se usa-la ao meio se ao lado. entretanto aparecera-lhe uma borbulha no nariz e ele tivera de adiar a sessão.
no dia em que ia tirar o retrato acordou bem disposto, cantou no banho, meteu-se entre os cremes da mãe e tratou do rosto, como se de uma mulher se tratasse.
depois rumou ao corredor da casa de 2 pisos, e montou o tripé no sitio estudado.
às 17 e 55 em ponto, quando a sombra negra começa a lamber o retrato dos irmãos da bisavó paterna, Manuel Augusto Carvalhal colocou-se entre o retrato e o pequeno nicho dourado, com as riscas da camisa a prolongarem-se pelas riscas dos frisos da parede e, em posse do ar que ele acreditava ser o seu melhor, o mais terno e convincente, zás. disparou a fotografia.
o retrato chegou às mãos da Maria Carolina Baía Nascimento 10 dias depois e ela ignorou-o profundamente, como sempre tinha feito, mas vai-se lá saber porquê casaram 30 anos mais tarde.


variações sobre fotografias de Tina Barney

álbum de retratos... estranho

a minha família fica sempre estranha nas fotografias.
foi a minha mãe que começou essa estranheza quando era mais nova, quando alguém lhe disse que nunca devia olhar para a câmara fotográfica e a conseguiu convencer disso.
de maneira que ela ensinou desde logo isso a nós, filhas. as minhas duas irmãs seguiram o conselho dela e nunca olham. a Margarida é como a minha mãe, fica a olhar para o chão. a Mafalda fica a olhar a esquerda e eu sou a única que fito a câmara. o meu pai também. é uma espécie de acordo em os dois. tácito.
mas a minha mãe ainda consegue ser mais estranha. porque quando não gosta de se ver nas fotografias recorte-se a si própria. o que ela não sabe é que eu estou a fazer um álbum de fotografias com fotografias da minha mãe, recortada.
se isso também me faz ser estranha, então sim, eu sou estranha.

variações sobre fotografias de Tina Barney

20/02/08

compose you

alice wells
eu até percebia aquela mania dele me dizer “preciso que te sentes aqui um bocadinho” e eu já sabia que um bocadinho era uma maneira de dizer porque ia ficar ali pelo menos duas horas. ele punha a mão em cima do meu ombro, ao lado tinha o caderno onde ia escrevinhando de vez em quando. uma vez pedi-lhe para ver o que escrevinhava e ele mostrou-me uma série de linhas sobrepostas e outras nem por isso e umas notas soltas eram notas porque ele me disse senão eu nunca adivinharia.
eu até nem me importava que ele me dissesse aquilo em certos dias, sabia que o resultado ia ser bom, sabia que ele ia compor uma musica belíssima, nunca era definitiva, mas ele guardava-a e um dia juntava uns acordes aos acordes de outra e dizia-me lembras-te daquele dia em que te pedi que te sentasses um bocadinho e te pus a mão no ombro e eu pensei “és tão querido, tu pões-me sempre a mão no ombro”, mas ele gostava daquela espécie de jogo, de hábito, que se repetia, no qual eu embarcava com a mesma sinceridade e entusiasmo que ele.
eu até gostava desses dias de me sentar à frente dele sem saber muito bem o que é que ele via no meu cabelo ou na minha nuca, que o ajudava a compor canções inspiradas e singulares.
até ao dia em que ele me pediu isso e nesse dia, nesse dia em que ele me disse “preciso que te sentes aqui um bocadinho” a meredith da anatomia de grey tinha ficado a pensar se passaria a noite com o mark o terrível mark cirurgião plástico que pôs a cabeça das raparigas baralhadas o eterno amante da adison e eu não tive coragem de lhe dizer “meu amor agora não me dava muito jeito porque quero ver a anatomia de grey” se ainda fossem os homens do presidente a coisa era menos má porque é uma série mais seria e com conteúdo, como ele dizia, com conteúdo.
então, sentei-me à frente dele e ele pôs-me a mão no ombro e compôs mais uma canção inspirada, bela e singular a quem deu o nome de “grey time”.

19/02/08

coisas de pele (sem desconforto)



ralph gibson
ela nunca o soube explicar.
tinham-lhe ensinado, em pequena, que há coisas que, simplesmente, não são para entender. “às vezes tens de pegar nelas e arrumá-las numa das gavetinhas do teu coração”.
ela assim fizera. depois de pensar imenso naquilo das gavetas do coração. mas sim, o coração criara, vai-se lá saber porquê, compartimentos pequenos, estanques, feitos à medida do que ela lá colocava, com cuidado e devoção.
e o mais curioso era que ela podia revisitá-las, essas coisas guardadas, sempre que quisesse e recuperar, de certa forma, a intensidade com que olhara para elas pela primeira vez.
em pequena chegou a ter medo que o seu coração não tivesse espaço para guardar tudo o que ela queria. mas depois cresceu e deixou de ter medo porque o coração cresceu com ela e albergava já tantos tesouros e coisas e gente, tantos os que ela quisesse.
e os espaços aglutinavam-se e depois moldavam-se às coisas para depois ficarem disponíveis, guardadas para todo o sempre.
já em grande ela continuava a coleccionar tesouros, gente e coisas.
amava-os, quando os encontrava, com mais intensidade porque a idade é mesmo assim, a idade, de face madura e cabelos brancos, torna-se forte, intensa, porque passa a ser muitas de nós.
amava-os muito durante uma noite, tudo o que havia para amar e depois… guardava-os.
e com eles guardava a musica, as mãos, o perfume e o calor.
e dias depois procurava-os, para os amar um bocadinho e para sobre eles escrever.
seria talvez o conjunto de gavetas, com tesouros gente e coisas que a faria escrever sempre, todos os dias, mesmo quando já não se lembrava das palavras.

para ouvir com Peter Tchaikovsky
"Romeo and Juliet Overture
Overture-fantasia 1880"

w i n d o w s

autum clarck
mariá corpas

15/02/08

Last but not least

Franck Martine
Ele era sempre o último a fazer tudo. Até a ficar nas fotografias.
A mãe também não lhe deixava usar o cabelo cortado pequenino como usavam os outros miúdos. A mãe dele não compreendia, por vezes, o quanto é importante, em certas idades, ir-se atrás das “modas” ou ser-se igual aos outros.
Não se vestia, portanto, como as crianças normais. Antes com aquilo que vinha ficando dos irmãos mais velhos, que não tivesse muito borboto ou não estivesse muito roto.
E na pior das hipóteses, roupa de um tio de Setúbal chamado Arménio que morrera ainda criança e deixara uma descomunal colecção de calções de fazenda estupidamente femininos, de cores impensáveis, cuja fazenda lhe fazia uma comichão tal que o fazia ir às lágrimas.
Tinha roupas novas para o Domingo de Páscoa e para o dia de Natal. Cortava o cabelo na 2ª feira antes do Carnaval, todos os anos. Lá para Novembro desesperava-se com os caracóis fartos e fortes que começavam a crescer, cresciam assustadoramente e como não havia gel nem nada que se parecesse e mesmo que houvesse nas prateleiras do supermercado nunca haveria em casa dele porque era assim, ele punha no cabelo basicamente tudo o que encontrava que o pudesse sossegar, que pudesse matar aquele matagal de caracóis que era motivo de chacota dos rapazes e olhares invejosos das raparigas.
Ainda por cima não crescera muito. Era também muito magro. A maçã de Adão não havia meio de aparecer e as raparigas desabrochavam como os caracóis dele, a olhos vistos, pareciam procriar-se como os coelhos da avó e depois passavam por ele, redondas, cheirosas, com os lábios carnudos e os seios vivos, a querer saltar das blusas e ele ficava doido, ficava louco e não podia contar aquilo a ninguém porque uma vez contara ao pai que se sentia esquisito ao fundo da barriga e mais ao fundo e o pai dera-lhe um tabefe “e pareces parvo que tu ainda tens idade é para levar nessa cara” e então ele deixou de lhe contar essas coisas e também as outras todas e foi assim que um dia decidiu criar o seu universo, no seu quarto, à noite, depois de todos se deitarem. E fê-lo com tanta força e determinação que nos anos que se seguiram muita coisa mudou.
Aprendeu a desenhar bem. Copiava aviões e mulheres bonitas. Ouviu todos os discos dos pais, às escondidas e aprendeu frases bonitas que pudesse dizer às raparigas. Aprendeu, com os filmes, a sentar-se e a correr. A fazer ar de: incrédulo, satisfeito, apaixonado, tímido, desinibido, ultrajado, corajoso, herói salvador de uma tragedia qualquer tragedia, pai de família, tio solteirão, cowboy solitário e até freak. Aprendeu, com as revistas da mãe, a reconhecer batons mate e batons de brilho. A identificar o Chanel nº 5 e a fazer as contas do período menstrual. Leu Goethe e Kant. Esmiuçou os clássicos europeus e os americanos contemporâneos. Leu sobre ballet, plantas, música e medicina.
E quando finalmente achou que a sua aprendizagem estava completa despediu-se, uma noite, daquele seu mundo e agradecido, saiu para a rua, elegante e perfumado com o cabelo cortado pequenino.
E no bolso, a fotografia onde ficara em ultimo, pela ultima vez.

14/02/08

a few... from my heart



quinta-feira

fot. grete sterns
Sabes que dia é hoje?
Sim, é quinta-feira.
Para além de ser quinta-feira…
É quase sexta?...
(pausa e suspiro).
Esquece….
Mas é algum dia especial?
Não, esquece…
(pausa).
Se estás a dizer isso assim é porque é algum dia especial e se eu não me lembrar vai ser bonito… deixa cá ver…14 de Fevereiro… ó pois é… é dia dos namorados… (ups). Dá cá um beijinho.
Nunca te lembras.
Mas tu nunca ligaste muito a esta data!
Mas agora ligo.
Porquê?
Por seres tu.

09/02/08

não ter tempo
para dar valor ao tempo
sentar sem modos
esconder a cara e ficar a dormir no quente do canto de qualquer coisa
ou em qualquer coisa quente.

05/02/08

e sim... como eu gostava de estar perto de ti.

fot. gabriele rigon
…sim, o meu corpo chama-te todos os dias e todas as noites
encosta-se à saudade e procura o teu quente
consigo sentir-te muitas vezes
não sei se é de te querer tanto
se é da falta que me fazes
porque as duas coisas são iguais, são grandes.
será antes de mim e do meu amor.
sabes que já te construí dezenas de vezes, no escuro,
abraçada à noite como se fosse a ti.
sabes que te construo todos os dias, só para vires dormir comigo abraçado a mim e
…sim acredito que és tu.
sabes porque é que eu sou capaz de acreditar nisto?
acho que é por te querer tanto.
ou da falta que me fazes
ou será antes de mim e do meu amor
porque as três coisas são iguais e são grandes.

as cadeiras estão sentadas

fot. alfred eisenstaedt
Podias vir. As cadeiras são confortáveis. O ar é limpo e está quente.
Eu é que começo a ficar desconfortável por aqui vir todos os dias…sem saber se vens.
O homem que está na portaria já nem me cobra entrada.
Deixei um papelinho com um recado para ti em todas as cadeiras.
Em que me sentei.
E foi em todas.
Ainda faltam algumas filas.
Anda lá, depois disso não espero mais.

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