27/03/08

um beijo especial a todos aqueles que embarcaram, comigo, nas produções do palavras loucas orelhas moucas, ao longo destes dez últimos anos e
um beijo muito especial aos que estão comigo nesta 25ª produção, "crónica feminina", a estrear no próximo dia 26 de maio.
obrigada a todos.

26/03/08

camisas de hospital

Todas temos, no enxoval, uma camisa melhor, daquelas que as mães compraram para “um internamento se for preciso, Deus queira que não, mas nunca se sabe”.
De algodão, com as dobras do tecido amareladas pelo tempo, isto se nunca foram usadas.
Um casaquinho de malha, também, com um laço de cetim e botõezinhos de madre pérola.
A minha mãe comprou-me camisas daquelas, uma de cada cor que havia na loja, não porque estivesse à espera que eu fosse internada tantas vezes quantas as cores da camisa, mas porque antigamente era assim, comprava-se muito daquilo que era bom.
E aquelas camisas eram boas. De bom algodão, fresco e macio, de florinhas pequenas, de cores pálidas e tímidas, elas e o corte da camisa.
Ontem estive num hospital privado até tarde, aquando de uma visita.
Depois do jantar dos doentes, o hospital parecia meio adormecido.
Os corredores, lustrosos, à meia-luz, os enfermeiros sentados, com uma mão a segurar na cabeça e a outra a rabiscar uma folha de papel. Deram-me um sorriso desinfectado, de dentes brancos e sapatos silenciosos.
Os meus pés chiaram até ao único ponto de luz mais forte do corredor, adiante, do lado esquerdo.
E quando lá cheguei, parei em frente à salinha de estar…
É que eu pensava que aquela coisa das camisasdehospital era tão-somente uma preocupação premente e algo ansiosa da minha mãe, como muitas outras.
Mas não. Havia meia dúzia de mulheres entre os 30 e os 50 anos, sentadas, juntas, que vestiam, para meu espanto e regozijo, as tais camisasdehospital.
A televisão estava baixa. Elas falavam baixo. De braços cruzados acima ou abaixo do peito, dependendo do peito. De camisas vestidas. De cores pálidas e flores envergonhadas. De mantinhas pelas costas ou casacos de malha.
Aquela roupa delas tinha, decerto, sido dada pelas mães. Só podia. Só as mães escolhem flores para uma ocasião destas. Só as mães põem um sabonete junto destas camisas que foram guardadas. Só as mães as arejam, num dia de sol, uma vez por ano, para as voltar a arrumar, de olhos húmidos, pedindo a Deus que nunca sejam usadas.
Aquelas mulheres tinham um ar visivelmente calmo. Deviam ter estabelecido uma espécie de amizade hospitalar; estas coisas existem, as pessoas ligam-se muito quando sofrem ou adoecem, os laços daqui resultantes são muito fortes.
Tinham ar de saber tudo umas das outras. Flores preferidas, telenovela, estado de saúde sogra / sogro, estado de saúde pai / mãe, relacionamento com cunhadas / sobrinhas da parte da mãe / vizinha de cima / D. Alicinha da mercearia.
Eu fiquei ali pregada, de olhos húmidos, cheia de vontade de me sentar em frente a elas e beber, beber tudo o que elas dissessem e depois olhar e demorar-me nos pormenores…nas mãos secas de tanta limpeza, no cheiro dos seus corpos a hospital, nos cabelos a revelar as pregas da cama, nos corpos cansados de cama, na cruz de ouro ao pescoço, numa meia mais acima que a outra, nas pestanas despenteadas.
Talvez conseguisse perguntar-lhes quem lhes tinha dado aquelas camisas, não assim de repente porque estas coisas não se podem perguntar de repente e, quem sabe, elas me responderiam, desfiando, em voz baixa, mais uma história de mães e filhas que eu tanto gosto.
E que me fazem parar, num corredor de hospital, a olhar para meia dúzia de mulheres que eu não conheço, mas que eu sei, pela camisa que usam, que têm tantas histórias para contar.

para a minha mãe e a minha irmã beti.

25/03/08

o nosso pequeno eu (10)

o canto de nós, de cada um.
a porçãozinha escondida, total, que engloba pequenas outras porções do nosso ser, do nosso coração, do nosso pensamento.
a que mantemos, viva, em flor todos os dias;
com quem falamos sozinhos e
a quem contamos o incontável e
a quem pedimos conselhos de decisões já tomadas.
com quem rimos com ar sério.
Com quem mantemos, provavelmente, a relação mais fiel e duradoura.

baton (9)



fot. andria lo
pintar os lábios no carro, de manhã, nos semáforos vermelhos.
pintar os lábios sem olhar para um espelho.
um risco de lápis a contornar os lábios da cor do baton.
fotografias de batons das revistas femininas.
marcas de baton. cheiros de batons.
escrever a baton.
uma boca borratada de baton.
amostras de batons.
pintar os lábios na casa de banho, com as amigas.
antes de entrar no comboio.
antes de ir para a praia.
trazer connosco um baton que já esteve em Paris, Nova Iorque, Amesterdão.
trazer connosco um baton que conhece, sozinho, a nossa boca.

victoria line



fot JEFF SELTZER
ela subia pelo lado direito, como mandavam as regras. a mão direita pousada no corrimão, a mão esquerda a segurar a “Vanity Fair”.
seguia imóvel, entre dezenas que subiam com uma rapidez estonteante.
estava seca, ao contrário de todos os outros, que secavam no corpo a roupa molhada de tantos dias de chuva.
tinha uma pele clara e cheia de luz. um corpo esguio a largar um perfume morno e embriagante.
aproximei-me dela porque algo me impeliu a tal. na verdade uma vontade irreprimível obrigou-me a parar mesmo ao seu lado, empatando os outros, apressados, que nas minhas costas murmuravam para os deixar passar.
todos eles tinham um ar cansado e cinzento, a roupa cheirava a gente, os sapatos pesados e os olhos vazios. as bocas pareciam ter já secado, há anos, e o cabelo seria porventura a única coisa viva.
e era por isso que eu ali estava. era isso que me prendia àquele instante ou àquela mulher. era a vida que lhe escorria do corpo, dos olhos, das mãos, das revistas.
os outros furavam entre mim e ela, a vida dela escorria para mim, aos poucos alimentava-me. aos poucos o meu corpo colhia cor, aprendia a respirar outra vez.
o metro apitou nas profundezas. o burburinho de gente parou. as escadas ficaram de repente vazias.
ela e eu. lado a lado.
o barulho da chuva agora mais perto. o metro a furar a terra. o coração a furar-me o peito.
a vida, ensinada, a correr dentro de mim.

17/03/08

tranparência (8)


fot. GERMAN HERRERA
das palavras, das pessoas, da água que bebo e da água do mar.
das roupas de teatro e de certas fotografias.
dos olhos de certas pessoas.
de certas pessoas em certos momentos.
de mim.

talvez

talvez eu possa ser aquela pessoa especial, que te possa fazer suspirar e te faça adormecer a pensar em.
eu gostava.
estou a tentar sim, ser.
quantas vezes pensas em mim durante o dia?
consegues ver-me se não me vires por muito tempo?
gostas mais de mim ou das minhas palavras?
tens algum retrato meu guardado num sitio especial?
cheiras a minha almofada quando eu já não estou?
vou guardar este papel para to dar, um dia em que estejas com olhos pequenos, olhos de amor, que conseguem ouvir todas as perguntas…
pode ser que me respondas.
eu gostava.
eu vou tentar sim, que tu respondas.

fot. MARISSA ROTH

sschhh....

há dias em que não me apetece ouvir nada nem ninguém.
nem a mim.
e não é porque esteja chateada ou triste.
não.
é porque o silencio é o máximo do barulho que eu consigo, nesses dias, suportar…

fot. MICHEL MEDINGER

12/03/08

kiki (7)



fot. kelli connell
eu quero para ti um bocado de céu todos os dias...
eu quero para ti hoje e sempre
um bocado de céu que também seja um bocadinho meu
só para poder estar perto de ti.


parabéns, Mana.

so nice

estou aqui a pensar em cantar-te um dia destes uma canção brasileira. ao ouvido.
daquelas que põem na cara dos outros um sorriso estupidamente doce.
e ao mesmo tempo tirar uma fotografia delicodoce quem sabe num fundo com uma fotografia do Rio, só para fazer de conta que lá estive a cantar para ti, pode ser... no calçadão mas também pode ser.. nos arcos da lapa.
ficarei bem, num qualquer fundo brasileiro, desde que me sente, delicadamente, com ar doce, a imaginar que canto, ao ouvido. só para ti.

olha,

manda-me um cartão de todos os sítios onde fores ainda que não me leves.
eu sei que gostarias que eu fosse e que me espantasse muito com o que me mostras.
eu sei que gostas de ver os meus olhos a brilhar de negro do espanto.
mas podes tu espantar-te. e guardar nos olhos esse brilho.
manda, mesmo assim… manda.
nem que seja uma fotografia desfocada.
nem que seja uma fotografia em branco.
é que mesmo em branco, já me conheces, sabes que eu arranjo uma historia para a tua fotografia branca que veio de longe.
só porque, sabes, gosto de ti.

fot. Michael Hughes

10/03/08

irmãos (7)

o amor e a amizade, como eu os conheço hoje, têm este rosto e esta forma.
porque me foram ensinados por eles; porque nos foram ensinados por eles.
dois dos tesouros maiores da minha vida: Tio e Pai. Ou Pai e Tio.
tantas vezes eu senti que os dois papéis se inverteram...
o sentimento pelos dois é parecido por ser enorme.
difere a saudade, de um deles, que me acompanha todos os dias da minha vida.
a passo com o Amor que eu sinto pelos dois.

09/03/08

brincar (5)

a minha primeira companheira de brincadeiras foi a sandra.
fazíamos 5 anos de diferença mas ela conseguia acompanhar-me na minha escrita compulsiva de telenovelas, na leitura de romances à socapa, na teia complexa das histórias que inventávamos, para brincar.
a sandra brincou comigo às irmãs, às mães, à rita lee e à gal costa, aos filmes, às filhas orfãs, com uma carrada de irmãs para cuidar.
brincou comigo às nadadoras e actrizes, às professoras, às médicas, às donas de lojas e artistas.
brincou comigo, anos a fio, em viseu, em espinho, no porto e no algarve.
eu acho que às vezes ainda brincamos...

esta fotografia foi tirada na igreja de santo antónio das antas, no porto.
à saída da missa das 11, num domingo qualquer, em que teríamos um dia todo pela frente, para brincar...

06/03/08

bossa nova (4)

a Música. que o meu tio Bordalo me ensinou a gostar e que me fez sentir a minha primeira grande emoção, aos 6 anos, quando ouvi a "garota de ipanema", na versão dos joão e astrud gilberto, tom jobim e stan getz.
astrud e joão g., praia de copacabana.

05/03/08

tu (3)

que tiras fotografias à espera de histórias, que me mostras fotografias repletas de histórias, que me encantas com as tuas histórias, que "lês" as minhas histórias e que vais escrever comigo, provavelmente, a história mais bonita da minha vida.

03/03/08

o jogo do dicionário (2)

este jogo veio da Alemanha pela mão da Marisa e é um excelente exercício de Português. jogámo-lo inúmeras vezes em serões de natais, páscoas e finais de semana. conseguimos incutir o "vício" nas gerações mais novas. não há dúvida que é o jogo, de eleição, da nossa família...

a casa vazia (1)

que vive na praia de matosinhos, de janelas abertas para a praia e para o mar. abandonada há tanto tempo, qual será o destino dela?
eu sei qual lhe daria...

março

é mês de tesouros...

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