28/04/08

cha-cha-cha



fot. d. arbus
querido,
deixo uns pasteizinhos de massa tenra no frigorifico já preparados é só aquecer no forno, tens arroz também numa caixa azul na prateleira de cima
não te esqueças de tomar o bisolvon agora que estás e melhorar não deixes de o tomar,
leva a Puke à rua a seguir ao jantar, já sabes que se ela não for faz xixi na carpete da sala,
chegou uma conta de um seguro para pagar está em cima da mesinha no hall de entrada
ah e se a Emília ligar diz-lhe que fui mais cedo hoje porque o professor vai rever o cha-cha-cha antes da aula e eu queria assistir porque me engano ainda muito,
essa parte de me enganar muito não precisas de lhe dizer, claro.
beijo-te meu amor adorado e estarei de volta perto das 11.


love ++++++

tua Ivone

anatomia de grey


fot. Ellen Von Unwerth
- Vais estar em casa hoje à noite?
- Acho que sim… porquê?
- Porque precisava de te pedir uma coisa.
- Pede.
- Podias gravar-me uma coisa que vai dar na televisão…
- Não me digas que é aquela série da treta que…
(silêncio).
- É? – Riso.
- É. – Sério.
(silêncio).
- Vá lá… pronto… esquece lá isso que eu disse. Eu gravo a cena. Qual é a série?
- “Anatomia de Grey”. Vai haver hoje uma morte e eu queria ver.
- “Vai haver hoje uma morte e eu queria ver.” Que coisa horrível de se dizer. (pausa). Porque é que continuas a ver essa série merdosa?
- Vais continuar?
- Com quê?
- Com essa mania de dizeres que tudo o que eu vejo é merdoso… Só te pedi para me gravares a porcaria do episódio. Se não podes ou não queres estás à vontade para me dizer. Não precisas de estar sempre a falar nessa coisa das cenas merdosas… além disso se te pedisse para gravar o “Dança Comigo” era pior...
(pausa bastante bastante longa).
- Pronto, está bem. Eu gravo-te lá a cena. (pausa pequena). Mas olha que a “Anatomia de Grey” é bem pior que o Dança Comigo.

us

a maior parte das vezes eram amigas inseparáveis sentiam tudo parecido ao mesmo tempo e quando davam conta disso ficavam histéricas e davam risadas finas e apontavam uma para a outra com o dedo indicador e a amizade delas nessas alturas ganhava mais força dava outro nó e elas sentiam-se únicas especiais vivas porque a amizade é assim não se compra não se herda apenas se sente e se conquista.
algumas vezes zangavam-se por coisas ridículas ou coisas um bocado maiores e a zanga servia para acalmar o espírito e para elas respirarem e para se darem conta que havia outro mundo lá fora extra elas e chegavam então à conclusão que na vida nada é por acaso funciona como no ioga há sempre um movimento dentro e outro a seguir, inverso, para fora e então as zangas eram abençoadas porque as faziam pensar e ter saudades uma da outra muitas saudades.
quando faziam as pazes o verde era mais verde e o cheiro da pele de uma e outra era outra vez uma revelação e ficavam às vezes abraçadas outra vezes só a olhar uma para a outra e não falavam já tinham falado outras vezes apenas diziam ou melhor pensavam puxa isto que nós temos é tão especial e às vezes choravam comovidas e embebidas nelas e outras vezes não mas eram as melhores amigas e isso é que era o importante.

23/04/08

um dia destes, pego na minha guitarrra, voo até ti,
sento-me no parapeito de uma das tuas janelas
e canto-te uma canção de amor.

i beg your pardon



fot. Julia Fullerton-Batten
Encontravam-se às 4ªs e 5ªs.
Ele só ia depois de dizer à mulher, pelo telefone, desculpa querida, mas sabes como é o Andrade anda outra vez com problemas tenho de lhe dar uma mão os amigos são para essas coisas.
Ela ia directa. Não tinha que dar satisfações a ninguém.
Aquilo já durava há 7 anos e o dono do motel já lhes guardava o mesmo quarto.
Conversavam pouco. Não se conheciam muito bem e era por isso que se entendiam.
Às vezes bebiam vinho branco, fresco, quando fazia muito calor e o ar condicionado estava avariado.
Às vezes sentavam-se no parapeito da janela a olhar para as luzes da cidade e a olhar um para o outro, através do reflexo no vidro.
Às vezes faziam amor sem dizer nada.
Depois lavavam-se, vestiam-se e saíam, também, sem dizer nada.
Ela nunca se cansava de esperar e ele nunca se cansava de mentir.
Um dia ela cansou-se e perguntou-lhe:
- O que é isto?
- Isto o quê? – Disse ele.
- Isto, entre nós.
Ele não percebeu a pergunta ou fez que não percebeu.
- Mas porque é que estás a perguntar isso agora? – Atirou com um tom de voz que ela não conhecia.
Ela sentiu-se de repente muito cansada e muito sozinha.
- Deixa… - encolheu os ombros.
- Queres que peça vinho? – Ele deu-lhe uma palmadinha na mão, pousada em cima da cama.
- Não tenho sede. – E dizendo isto vestiu-se em silêncio. Ele permaneceu sentado na cama, a mudar os canais da televisão.
- Já vou. – Ela disse, quando pronta.
Ele olhou-a sem surpresa.
- Até amanhã. – Murmurou. Sempre a olhar para a televisão.
- Não vai haver amanhã. – Deu-lhe um beijo na testa e preparou-se para sair.
- Quer dizer que acabou? – Ele arriscou ainda sentado.
- Algum dia começou?
Saiu sem bater a porta.
E ele voltou para a sua vida pacata, a duas cores.
Sem os problemas para resolver com o Arnaldo. Sem as luzes da cidade.
Sem o bocado da vida, reflectida no vidro quente e a saber a vinho branco, fresco, que ainda lhe dava alguma cor.

22/04/08

ainda só vou no inicio da semana, mas já me apetecia correr para perto de ti.



fot. DARIO TARABORELLI

lembras-te?

disquinhos


quem não ouviu estas e outras histórias naqueles discos de 45 e 75 rotações? de capas duras e lustrosas, ilustrações apetitosas, vozinhas infantis, com uma dicção impecável.
fizeram as minhas delicias, ainda fazem.
encontrei um, na fnac, há uns anos, que guardo como um dos meus tesouros.

15/04/08

"après-toi"



fot. G. Hoyningen-Huene
quando era miúda brincava muito às nadadoras e dizia que ia brincar ao “après-toi”, isto porque via as minhas irmãs e as minhas primas a brincar ao “après-toi”.
púnhamos daquelas toucas rijas de borracha, em que a própria borracha fazia flores em grandes rodelas, e que nos magoavam estupidamente quando postas sobre a cabeça seca; tapávamos o nariz com a mão direita, gritávamos um “après-toi” nasalado e mergulhávamos, elegantes, com o maillot de folhinhos a uma altura de água que nos dava pelo tornozelo.
nas minhas aventuras de nadadora havia sempre um nadador inventado, que nadava obviamente melhor do que eu e me salvava das garras das ondas.
depois sentava-me com ele à beira mar e conversávamos imenso.
outras vezes ficávamos só a ouvir o assobio da nortada.
deve ser por isso que eu tenho a facilidade que tenho de inventar diálogos que não existem.

para as minhas manas e primas. de maillot pequenino, de touca rosa, na piscina de espinho...

09/04/08

a princesa boca de rosas



fot. jodi cobb
falava pouco, não por medo de falar demais.

só porque usava as palavras estritamente necessárias.

por exemplo, não dizia “que bela tarde de primavera” mas sim “tarde linda”.

a mãe obrigava-a a ler livros de historias, de muitas paginas, para que ela depois fosse obrigada a contar a historia que lera, com muitas palavras.

mas ela resumia aquelas páginas todas a meia dúzia de frases, sintéticas, habilidosamente reveladoras e bem construídas.

a mãe dizia-lhe, quando ficava exasperada, “é por isso que tens a boca pequenina, porque não falas, e olha que os homens não gostam de bocas pequenas e de raparigas que não falam”.

ela olhava para a mãe, sem expressão e pensava “há-de haver um que goste”.

a avó muito baixinha e magra, de pele caída de tão engelhada, que cheirava a laca e tinha cabelos que pareciam barbas de trigo, tinha pena dela e dizia-lhe “tens uma boca pequenina que parece um botão de rosa”.

e contava-lhe, às escondidas da mãe, uma historia de princesas.
uma historia fabulosa, em que as princesas falavam e das suas bocas saíam pétalas de rosa.
na historia, as princesas encontravam um príncipe e eram felizes mesmo depois de ficaram reduzidas a pó.

as outras miúdas, na escola, sussurravam entre si coisas mázinhas, trocavam bilhetinhos com crueldades escritas.

falavam pelos cotovelos nas aulas, nos intervalos, nos jardins.

ela entediava-se profundamente e entretinha-se, sozinha, a apanhar bichos de conta e a pensar que gostaria que, da sua boca pudessem um dia saír pétalas de rosa.

em casa, estava sempre perto da avó que cheirava a laca e que tinha olhos de chá.

na sua caixinha de lácamo, forrada a seda cor de cereja, escondida debaixo da cama de dossel, guardava os seus tesouros e um deles era uma folha de papel de arroz, com as (muitas) palavras que um dia ela diria ao rapaz que não se importasse que ela tivesse aquela boca assim pequena.

o outro tesouro, o mais importante, eram meia dúzia de pétalas de rosa, vermelhas, que a avó um dia lhe colocara ao lado do travesseiro, um dia em que a mãe ralhara muito com ela e ela chorara muito e ficara com os olhos fechados de tanto chorar.

quando despertou, no dia seguinte, encontrou as tais pétalas e um pequeno bilhete, de caligrafia impecável, um bilhete perfumado e com gotinhas de orvalho nos contas e um bicho de conta ao centro, que dizia:

“estas pétalas saíram da tua boca, esta noite. a tua avó”.

08/04/08

escrevo



fot. rainer lichtenecker
escrevo sem parar há mais 30 anos há menos de 3 minutos
sem pontuação com cuidado sem vergonha com verdade.
escrevo até cair até desmaiar de prazer até m’escorrer para o corpo a tinta das palavras
de todos os livros e de todas as bocas.
escrevo para o meu amor a falta que me faz e o amor que m’ensinou.
escrevo para as minhas irmãs o mais de mim
escrevo para a minha família o tanto de nós.
escrevo no escuro calada de pés frios de estômago confortado.
escrevo para alguém me ler em círculos e em quadrados
e numa esfera: o silencio da música que nunca faremos.
escrevo para mim e para o mundo
e espanto-me choro-me e conheço-me.
escrevo para ficar bem
e escrevo quando estou mal.
escrevo a correr sem ler em papel vulgar e feio
ou nas costas de outros papéis que já têm historias.
escrevo cegamente e religiosamente.
escrevo de cabelo lavado
escrevo, perfumada, com o meu “Chance”.
escrevo com febre e escrevo quando estudo.
escrevo em alerta laranja e no domingo de Páscoa.
escrevo no alfa pendular e na sala de espera do dentista.
escrevo com musica e escrevo a suar.
escrevo a minha historia vestida em mulheres.
escrevo a arder e feliz
escrevo a dormir e vestida de amarelo.
escrevo a ver montras e a comer uma francesinha
escrevo a adormecer e com uma pulseira que faz barulho.
escrevo ao fim da noite na minha sala com as minhas gatas a lerem-me o corpo e a lamberem-me as pernas.
escrevo com os meus olhos nos olhos delas ou nos olhos de quem não está.
escrevo a ver um filme ou a fazer teatro.
escrevo aquilo que gosto os que gosto
quanto gosto
tanto gosto…
e hei-de escrever sempre,
enquanto a vida que haja em mim m’empurre a escrever.
assim.

gate number eight



fot. Julia Fullerton-Batten.
leva-me contigo, sempre…
prometo
que não te pergunto para onde vamos
que levo uma mala pequena que caiba na cabine
que não enjoo nas descidas
e que não te cravarei as unhas na pele do braço, quando o avião levantar.
mas leva-me contigo, sempre…
prometo
que não levo bonecada atrás de mim
que levo os líquidos metidos no plástico, na carteira, para ser rápida, muito rápida no momento do embarque
que levo o meu moleskine preto para apontar as nossas andanças
e que levo um vestido preto e saltos altos, para jantar no japonês.
mas leva-me, se puderes,
mesmo que vás para Madrid ou para Óbidos,
para Sagres ou para a Patagónia
ou até mesmo para a tua casa.
o importante é que percebas a importância que tem, para mim, o facto de me levares.

04/04/08

bonecas (11)



fot. don anderson
ainda as via mesmo de olhos nublados, cansados dos 90 anos de vida e dos 24 de cataratas.
ninguém percebia porque guardava aquela fotografia em vez de guardar, por exemplo, a do falecido.
também já estava num estádio da sua vida em que não precisava de dar satisfações a ninguém.
guardava aquela fotografia na pequena carteira chanel de outros tempos. juntamente com as gotas dos olhos, um lenço de mão com as suas iniciais, um envelope vazio com a caligrafia do marido quase apagada e um frasquinho de perfume pequeno, que era da mãe mas que vai-se lá saber como e porquê, ainda guardava o cheiro dela.
aqueles pequenos objectos, todos eles, mudavam da chanel para o malote de pele castanha e deste para a bolsinha de veludo preta, já sem berloques.
andavam sempre com ela. dia e noite, entre espasmos e lágrimas silenciosas, entre momentos nostálgicos e momentos de solidão resignada. entre rinites e artrose aguda. entre cores fortes da sua juventude e memórias nítidas desse tempo.
mas aqueles objectos conseguiam, diariamente, tranquilizar-lhe o sono, diluir-lhe a angústia da morte e dizer-lhe, a várias vozes , entre falsetes, trinados e sussurros que um dia, todos eles e ainda as bonecas esfumadas da fotografia, teriam um lugar, cativo, no céu.

olimpus

tirou aquela fotografia com aquele ar.
demorou imenso tempo a coordenar verdes e a atingir a luminosidade perfeita.
até a cor do sumo foi testada. o amarelo da laranja acabara por combinar harmoniosamente com o amarelo da cortina.
ela achou mesmo que se abrisse a boca como se estivesse a querer dizer alguma coisa as pessoas iriam ficar com uma ideia dela… simpática.
tomá-la-iam, decerto, por uma rapariga que, para além de beber sumos naturais, tinha sempre qualquer coisa para dizer.

fot. jean-sébastien monzani

03/04/08

bilhete



fot. jodi cobb
a ultima vez que o vira foi ao longe.
mesmo assim conseguiu distingui-lo entre a multidão, logo à primeira.
ficaram assim, afastados, o tempo todo. aquelas várias horas.
ela olhou-o várias vezes pelo canto do olho, olhos roubados, rápidos e certeiros.
desconforto engraçado na barriga, ansiedade infantil.
ela acenou-lhe, a certa altura de longe.
ele acenou-lhe, a certa altura, de longe.
ele fugiu no fim do concerto.
ela procurou-o no fim do concerto.
ela pensou, nessa noite, “é melhor assim”.
ela pensou, no dia seguinte “foi melhor assim”.
ela pensou, dias depois “é melhor assim?”.
ela pensou, semanas depois, que gostaria de o ver.
mesmo que fosse para lhe acenar de longe.
que era o mais próximo que dele conseguia estar.

01/04/08

as miúdas que andavam às turras



imagem de shelby fisher
andaram uma data de anos às guerras.
choravam e riam. diziam que sim e diziam que não.
falavam muito em certas alturas, não falavam nada noutras.
com as mesas encostadinhas, lá passaram perto de vinte anos das vidas delas: amuadas muitas vezes, mas sempre por perto, uma da outra.
um dia uma delas pensou que afinal gostava muito da outra.
“pois se eu me ralo assim tanto com ela, é porque ela não me é indiferente.”
e uns dias depois, aquela que embirrava mais com a outra e que pensou aquela coisa, naquele dia, passou a olhar para ela com outros olhos.
a preocupar-se com ela, a aceitá-la como ela era.
e descobriu coisas curiosas.
e, de mesas encostadinhas, vidas de mulheres e coisas de raparigas, começaram a conhecer-se, a invadir, de mansinho e com curiosidade, o espaço uma da outra.
e uma delas ensinou a outra a rir mais.
a outra ensinou a outra a gostar dela.
e passaram, as duas, a ser ainda mais felizes.

para igc.

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