27/05/08

as miúdas da "crónica feminina"





20/05/08

"CRÓNICA FEMININA"

  • um espectáculo de PALAVRAS LOUCAS ORELHAS MOUCAS

    texto e encenação de Laura Ferreira

    com
    Nanci Sousa, Gisela Baltazar, Joana Melo Costa, Laura Ferreira e Rosário Nascimento.

    de 26 a 31 de Maio, às 21h45

    no ESTÚDIO ZERO, na rua do Heroísmo, nº 86, Porto


    reservas pelos 96 29 65 763 / 91 92 59 935


    "Gosto de raparigas. E das coisas delas.
    Ir aos pares à casa de banho. Ir às compras sem ter nada para comprar.
    Emprestas-me esse vestido?
    Gosto de mulheres baixas, altas, faladoras, silenciosas.
    Gostas de mim?
    Eu sou gaja p’ra chorar aí uma vez por mês.
    Na carruagem vinte e quatro.
    Havemos de vir aqui muitas vezes…
    Gosto do cheiro da minha mãe.
    Achas que os sapatos de cunha favorecem as raparigas que têm as pernas grossas?
    Gosto do vermelho da pele depois de um dia de praia…
    Conheci-o na fila do supermercado.
    Abraça-me!...
    Dança comigo em Espanha, em Tóquio, numa fila da VCI…
    Eu adormeço sempre a pensar em coisas fúteis.
    Gosto do final do Blade Runner.
    Quando vieres já devo estar a dormir.
    Mas…acredita, mesmo assim, estarei à tua espera e
    …that’s it."


    Pode ser uma conversa ou um bocado de alguma coisa que se pensou de repente.
    Pode ser um diálogo. Uma confidência. Um ralhete. Um desvario?
    Ou uma gargalhada em palavras. Uma conversa chorada.
    Um desejo. Um segredo que não se conta.
    É uma coisa grande, ou…
    são muitas coisas… pequenas.
    De e para mulheres. E para eles também…

08/05/08

Happiness

quando eu era miúda brincava com bonecas mas não brincava às mães.
brincava mais às manas ou às amigas. ou às "cenas".
as brincadeiras tinham quase sempre um problema demasiado "humano" para resolver. então eu ia lá e conversava imenso com as bonecas dispostas nas cadeiras ou nos sofás.
primeiro falava eu. depois dava-lhes a oportunidade de falarem elas.
elas não falavam por aí além.
mas havia sempre uma que falava um bocadinho mais. era a que tinha o nariz mais empinado e tinha a mania que era chica esperta mas eu chegava para ela. geralmente ela acabava sempre escarlate de vergonha por ter sido rude.
havia outra que era muito triste, era triste de nascença, aquilo já era genético.
havia uma que chorava sempre que começava a falar.
geralmente eu acabava as "cenas" com grandes palestras para uma platéia de boneca, rendida e chorosa. é que quando eu falava punha música para a coisa soar mais série e emotiva.
havia sempre um rapaz nas "cenas".
tinha a cara do Gregory Peck ou do Paul Newman.
vestia-se lindamente, muito melhor do que nas revistas.
cheirava divinamente, tinha as mãos fortes e dava beijos bem comportados.
apaixonava-se perdidamente por mim quando me ouvia falar mas era assediado por todas as outras bonecas, que quando o viam ficavam doidas varridas.
no final vinha ter comigo.
falava-me numa voz grossa mas suave.
pegava-me na mão e eu ia.
e com ele corria mundo e vivia feliz para sempre, como nas histórias.

para ti, que me fazes ficar, hoje, o mais próximo da felicidade que eu sentia quando brincava assim.

amor escreve-se assim

um dia destes abraço-me a ti e fico lá
um bom bocado,
até me embriagar pelo teu perfume ou até me embriagar de amor.
um dia destes abraço-me a ti e mergulho no negro dos teus olhos
para os teus braços me encontrarem a seguir.
um dia destes abraço-me a ti
e conto-te ao ouvido
o que eu mais desejava quando era pequena,
ou os segredos que eu confiava ao meu travesseiro.
um dia destes abraço-me a ti
e se tiver coragem
ou se tu me abraçares com muita força,
peço-te para ficar nesse abraço, por muito, muito tempo.

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