30/06/08

"Danúbio Azul"


assistira, na sua vida, a um total de 27 casamentos.
tinha 25 anos quando assistiu ao primeiro.
na altura pensava em si própria vestida de branco alvo, um vestido rodado muito rodado.
na altura emocionava-se com a homilia e com as pétalas e o arroz a cairem sobre a noiva, a meterem-se nos cantinhos do vestido, em todos, a perderem-se no soutien...
e mais tarde, no copo de água, tonta de sonhos e champanhe, imaginava o noivo, mas o seu noivo, depois da festa, a tirar-lhe dos cantinhos do corpo os grãos de arroz, um a um…
na altura dançava a valsa de abertura o “Danúbio Azul” e dançava leve e belíssima nos braços de um rapaz alto primo da noiva estudante de engenharia muito bom rapaz e dançarino ou nos braços de um desconhecido de trato educado e já meio tonto de champanhe.
tinha 32 anos quando iniciou a… “fase difícil dos casamentos”, quando a sua melhor amiga casou.
aquela amiga que ia com ela de férias, a quem ela telefonava diariamente, a que conhecia as suas caras terríveis das dores de período, aquela com quem passava os domingos curtos de Inverno, aquela com quem passava tudo, mau e bom, grande e pequeno, calmo e furioso.
na altura pensou em si própria dentro de um vestido pérola, pelo joelho.
na altura as raparigas solteiras correram todas para apanhar o ramo. e ela correu para a casa de banho. não aguentaria mais um ramo perdido.
na altura emocionou-se com o abraço da amiga lhe deu, no fim da cerimónia, que lhe soou a uma espécie de despedida.
e sim, tinha sido, pois nunca mais teriam oportunidade de passar férias só as duas, falar diariamente ao telefone, contar pelo telefone as tristezas incluindo as dores de barriga do período e o arroz queimado e o encontro falhado.
na altura, também, soou o “Danúbio Azul” e sobre a pista bailaram raparigas leves e belíssimas e ela levantou-se para retocar o que não era preciso, na casa de banho.
tinha 45 anos quando a irmã mais nova casou.
se por um lado controlava perfeitamente a sua imagem e tinha inúmeras técnicas de autodefesa para uma série de momentos difíceis nos casamentos (durante a cerimonia e não só...) , seria, por outro lado, traída por uma coisa que as mulheres simplesmente não controlam: “o que se sente muito”.
porque o que se sente muito sente-se assim e pronto, não há volta a dar, sente-se e acabou.
na verdade ela controlava o bronzeado da pele, as pontas de cabelo espigado, a altura dos vestidos que desciam com a idade para tapar a idade dos joelhos.
a irmã mais nova casou numa manhã de primavera e quando entrou na igreja, igreja onde ela já tinha estado tantas outras vezes em tantos outros casamentos, havia, naquela manhã, uma luz diferente, que entrava pelos vitrais e que desmaiava em dezenas de cores matizadas, no chão, que batia nas flores dos bancos laterais e fazia veludo onde batia.
a irmã entrou sozinha, muito segura, lindíssima, um misto de nossa senhora e mulher madura, o desejo físico estampado nos olhos, as mãozinahs pequenas unidas como as imagens, a vida a fervilhar nas veias, a felicidade a arrastar-se com o véu, imenso, a lamber o chão.
e ela, a irmã de 45 anos, que já assistira a 26 casamentos (com aquele faria o 27º) sentiu-se ridícula naquele vestido que era assim por causa dos braços e era assado por causa dos joelhos e os sapatos altíssimos que lhe iriam custar um tratamento aos pés, nos dias que se seguiriam e de repente chorou, e vozes femininas começaram a entoar a “Avé Maria” de Schubert e então ela aproveitou porque quando se chora com musica é sinal de sensibilidade e chorou e estragou a maquilhagem cara das 9 da manhã...
o que ela ainda não sabia é
que iria chorar quando a irmã saiu pelo braço do já marido, com um sorriso que ela nunca lhe conhecera,
que iria chorar quando entrou na sala do copo de água, decorado pela irmã e o sorriso de felicidade dela estava gravado e espalhado por todo o ambiente e o veludo e a paz continuavam lá em cores tantas, nas cadeiras, nas flores, até nas ementas; havia um cheiro a felicidade, seria o cheiro feliz de todos os casamentos onde ela já tinha estado, seria o cheiro que ela recordava do seu, de tantas vezes o ter imaginado...
que chorou quando partiram o bolo debaixo de fogo de artificio, ao som de violinos.
que chorou quando a irmã e o marido abriram o baile com o “Danúbio Azul"
que chorou quando ela se despediu de todos, feliz, tão escancaradamente feliz.
que chorou por ter sentido inveja dela, da irmã...
que chorou por não ter um marido, naquele momento, que lhe emprestasse um lenço...
que chorou no carro a caminho de casa, no dia do 27º casamento a que assistira.

e chorou, por ultimo, quando chegou a casa e quando chegou a casa encontrou a amiga à sua espera.
“a tua irmã estava muito preocupada contigo… disse-me que choraste muito. e eu decidi vir.”
ela riu finalmente no meio daquele choro todo.
depois entraram em casa, prepararam um chá verde e choraram as duas.
e depois riram.
os anos passaram e quando ela fez 68 anos assistiu ao 28º casamento, da filha da amiga.
num vestido beige, de corte direito pelo joelho, chapéu de abas largas, leque na mão, sapatos rasos, dançou o “Danúbio Azul” com um tio viúvo da parte do marido da amiga, um senhor da sua idade, barba feita, fato cinza clarinho, cheiro suave e mãos fortes.
e dançaram e depois de dançar sentaram-se na mesma mesa, ele esperou que ela se sentasse, depois brindaram com o copo meio de champanhe e não mais se separaram a partir dali e 4 anos depois, no dia em que ela fez 72 anos, assistiu ao 29º casamento que foi o seu e quando entrou na igreja havia uma luz diferente, que entrava pelos vitrais e que desmaiava em cores, no chão, que batia nas flores dos bancos laterais e fazia veludo onde batia.
e ela chorou a caminho do altar a caminho daquele que ia ser seu marido, que a recebeu aprumado e elegante e de repente passou-lhe pelo espírito o que pensara no dia em que assistiu ao seu primeiro casamento, é que tinha ainda uma vida inteira pela frente para estar com ele.
a mão forte dele recebeu a mão delicada dela e tornaram-se marido e mulher e como dois miúdos riram e choraram, escancaradamente felizes, dançaram o “Danúbio Azul” como se não houvesse mais ninguém naquela sala, foram de lua de mel para a Sardenha e... foram felizes para sempre.

para s.

26/06/08

cena 2


ilustr. j.v.
“Abordagem”, tinha-lhe dito Gertrude, “é tudo uma questão de abordagem”.
Depois levou-o até sua casa e cortou-lhe o cabelo.
Pôs-lhe uma gravata alegre e bálsamo na cara.
Trocou-lhe os sapatos por uns que pertenciam ao falecido.
Deu-lhe um jeito às unhas enquanto ele torcia o nariz. “Isto são coisas de mulheres”.
Não, replicou ela, divertida, são coisas que as mulheres gostam.
Beberam juntos um conhaque no Paradise, ao cair da tarde.
Já as luzes se tinham acendido, já o sol se tinha despedido no horizonte.
“Estás pronto” ela exclamou.
Manfred acreditou.
Regra geral acreditava nas mulheres.
E não sabia se era da gravata alegre ou do conhaque de veludo quente, mas naquele fim de tarde sentiu-se verdadeiramente capaz de... abordar.

23/06/08

cena 1


fot. j. vettriano
Manfred não tinha muito jeito com as mulheres, na verdade não tinha mesmo jeito nenhum, e elas sabiam-no e sabiam ainda que bastava uma coisa pequena para o surpreender e quando isso acontecia ele ficava genuinamente emocionado e elas divertiam-se com isso e tinham até apostado entre elas quem seria capaz de o surpreender em menos tempo…

17/06/08

pchm-fsstr-br-br…


p urque seu fôre sempaxim gân-de….
e vermalho e fóte…
póssu……….chegáre au pé de todosi
tutufssgr-br-br—pchm-fsstr-br-br…
e ir imbóra já invisivél e… ponto.

t r i f e n e 2 0 0


fot. m. mcCartney
ela (aliás, sempre ela a falar…):
diz lá aquilo que estavas a pensar!...
não dizes?... depois sou eu que sou teimosa…
(pausa. com suspiro enfadado, dela)
estavas com uma cara de enfado que até metia impressão…
“igualzinha à cara da tua mãe quando me vê entrar” – ela pensa.
sempre vens comigo na 6ª feira ao leilão do Ateneu? A Clara e o Romeu também vão, mas deixam o Mateus na mãe.
“se a tua mãe fosse simpática uma vez por ano eu pedia-lhe que ficasse com a nossa filha…” – ela pensa.
ah é verdade e o fim de semana da ponte, o próximo, não posso ir, tenho uma sessão fotográfica, tens de ficar tu com a Mariana.
e também… decidi que não vou jantar à tua tia Carolina que faz 50 anos…. mas vai tu, se quiseres, amigo não empata amigo…
"agora que já descarreguei e que o comprimido já vez efeito acho que me vou deitar" - ela pensa.
vou andando para arrumar umas coisas lá dentro...

12/06/08

álbum de retratos... praia


fot. cheryl maeder
e ficaram assim da esquerda para a direita
a tia Maria Adelaide que nunca casou mas também nunca se importou
a tia Ivone muito sorridente e bem disposta, casada com o Tio Mário, que nunca aparece em fotografias e que é muitíssimo sorumbático
a irmã da tia Maria Adelaide, a Tia Mi, mais velha das irmãs, não parece, mas sempre teve muito mais cuidado com o sol, casou duas vezes e das duas vezes enviuvou e preferiu não voltar a casar. gosta muito de filmes.
a Perruxa, filha da tia Mi, do 2º casamento, advogada realizada instalada bem humorada e também casada
e por ultimo
a pequena Beatriz filha da Perruxa, filha mais velha, que ela tem mais um filho, o Manel
anda sempre com o tubinho e as barbatanas parece um peixe a miúda e tem muito jeito para as artes mas na família sempre foi assim.
este retrato foi tirado em Sesimbra, na praia no dia 24/07/1999.
eu sei porque escrevo sempre atrás nas fotografias e ainda bem que o faço.

act and react


for. andre k.
o que nos faz, por vezes, ser especiais, é a quantidade de coisas sublimadas em palavras histórias e risos, é a capacidade aprendida de tolerar, resgatar e continuar.
é a inveja dos outros e a nossa própria teimosia,
é não ter medo de arriscar
são as coisas difíceis e pesadas que nos fazem subir sempre mais um bocado.
é conseguir ser ao mesmo tempo actor e espectador
e ter sempre um caderninho na carteira, para ao fim do dia, vermos os apontamentos que tomamos, sobre nos próprios.
e corrigir.
como se fosse uma peça de teatro.
em que o encenador somos nós e nós dizemos sempre:
não está bem ou está bem mas podes fazer melhor.

pois...


Às vezes tenho vontade de ter uma família que faça as coisas normais que fazem as famílias.
Estar num restaurante e não ter assunto para falar durante 5 minutos, ir em peso fazer compras ao Pingo Doce, ver a “música no coração” de pijama na noite de Natal e cantar as letras e ensiná-las aos filhos, fazer panados fininhos.
Às vezes vejo à sexta-feira à tarde as famílias a irem de fim-de-semana e apetecia-me ter uma família para a meter num carro familiar e ir jantar, em família, a qualquer parte.

06/06/08

cabeleireiras


As cabeleireiras percebem sempre imenso dos assuntos capilares e do crescimento do cabelo. Tecem verdadeiras teses sobre o assunto, enquanto estamos sentadas nas cadeiras massajadoras.
As mais cuidadosas deixam-nos limpinhas depois de lavar o cabelo; as menos cuidadosas molham-nos as têmporas e dão-nos cabo da base que tanto trabalho no deu a espalhar de manhã.
As cabeleireiras de hoje têm todas unhas compridas de gel, quadradas e usam essas garras para nos lavar a cabeça. Estão ali a massajar a massajar e a cadeira a massajar a massajar e elas a falar e a falar do cabelo mais seco nas pontas e de um creme especial ou um shot de hidratação.
As cabeleireiras têm quase sempre pequenos pneus a sair das blusas apertadas.
Usam calças de cintas descidas e tratam-nos por "menina".
Usam vários brincos na orelha e uma ou duas tatuagens.
Comem chiclet ou bebem muitas água.
Têm braços fortes e unhas dos pés pintadinhas.
As cabeleireiras trocam os “bês” pelos “vês” e à segunda vez que lá vamos tratam-nos por tu.
Quase todas nos perguntam, quando nos sentamos na cadeira "o que é que vai ser hoje?".
Quando cortam o cabelo assumem uma pose única, de tesoura em riste, fazem-me lembrar os pintores de pincel na mão, num grande momento de inspiração. Algumas têm um tique de boca que acompanha a tesoura. Algumas sentam-se para cortar o cabelo. Algumas falam enquanto cortam e algumas não falam enquanto cortam.
Algumas lembram-se de uma insignificância que contamos na vez anterior e algumas em vez de nos tratarem por Laura tratam-nos, por exemplo, por Luísa.
Algumas têm o telemóvel no bolso de trás das calças de ganga e preso a ele, um pequeno pingente da boneca Kitty.
Algumas usam grandes decotes. Muitas têm madeixas e cabelo lisinho de cabeleireiro.
Muitas despedem-se com um beijo das clientes.
Recebem, das clientes mais velhas de cabelo armado, e no bolso, uma moeda uma nota a lembrar o antigamente.
Muitas apontam nas fichas a cor da tinta que pomos no cabelo, o nosso aniversário.
A cabeleireira principal usa uma bata diferente das outras cabeleireiras. Ou se não usa bata veste uma blusa sofisticada. Com fios vários ao pescoço.
Não varre o chão depois de cortar cabelos mas lava cabeças se for preciso.

A minha cabeleireira é um bocadinho disto tudo e não é portuguesa.
Sabe que eu gosto de café com adoçante, que converso nos dias em que me apetece conversar, que gostava de ser loura quando for mais velha, que chego geralmente muito bem disposta e faço rir toda a gente e acompanha a minha estadia no salão com uns atentos olhos azuis e uma permanente preocupação profissional com as pontas secas do meu cabelo seco, insistindo que o shot de hidratação é sem duvida a melhor solução para o meu problema capilar.

04/06/08

depois

fica o pó no meio dos sapatos
fica o perfume black xs agarrado às roupas teimoso sem querer sair
fica a memória da luz desenhada no escuro
fica o calor do público e fica o recorte da saudade
ficam o ardor e as mãos suadas
fica a rodinha antes de entrar em cena com as mãos unidas em energia a esquerda de uma maneira e a direita de outra
ficam olhos nos olhos e abraços apertados
fica a amizade a correr nas veias e a correr com o sangue
fica a beleza simples pequenina
dos bocados pequenos entre todos
fica mais qualquer coisa que não se apalpa mas que se vê de fora
fica o texto de boca em boca aos bocadinhos
fica a voz no ouvido de uma ave Maria emocionada
fica a mão hábil e certa da voz da luz e da imagem
ficamos nós todos um bocadinho ali
ficamos nós todas bonitas elegantes mulheres
mulheres com letra grande
mais mulheres depois deste momento Grande.
ficam papeis, consoantes e estrofes
saltos altos, elásticos do cabelo e cabelos espalhados juntos, entrelaçados, misturados num só
e todos eles
guardados nas paredes
nas páginas da crónica e da vida
e ficamos todos
à espera de um dia voltar a ouvir,
“gosto de raparigas… e das coisas delas”.
e o resto virá, como o respirar,
como o adormecer descansado e feliz
que todos nós sentimos, depois do cansaço e da emoção
de uma crónica que escrevemos juntos
e que todos guardaremos no coração.

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