29/07/08

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“Estás louco ou quê? como é que me vais desmaiar logo naquele sítio? estragaste-me a noite!”
Foram estas as últimas palavras de Gertrude, que despejou Manfred em casa, logo depois de ele ter desmaiado. O desgraçado ficou-se a vomitar até de manhã, nem palavras conseguiu dizer, nem conseguiu deitar de comer aos gatos, o Óscar e a Pandora, nada, raça de nada…
Acordou no dia seguinte com uma luz fortíssima que lhe entrava pela janela e lhe furava os olhos e pensou se não estaria no céu ou noutro lugar qualquer, isto é, pensou que tinha morrido.
Mas não, porque no céu não há gatos e um Óscar faminto miava desesperadamente, em cima dele. Manfred soergueu o corpo e pensou ter um melão no sítio da cabeça pois ela pesava-lhe como tal e sentiu uma náusea tão grande que logo se deitou.
Um arranque seu, que mais parecia um rugido, projectou Óscar, de pêlo eriçado, para bem longe e como não tinha nada para vomitar no estômago pois não o fez, mas continuava aos arranques e o animal continuava a saltar e a bufar de cada vez que ele estremecia.
“Preciso de beber…”pensou e olhou à sua volta.
“Inteligente Manfred” disse com um esgar, ao ver a cama tão longe de tudo, resultado de uma decisão idiota, mais uma decisão idiota. Porque fora ele colocar a cama debaixo da janela, longe da casa de banho, longa da cozinha, que ficavam no outro extremo da sala. “Idiota, acéfalo, bruto, quadrúpede, animal do presépio, camelo…”. Enquanto desfiava todos os nomes conhecidos, olhou para a sala à espera de ter alguma ideia brilhante mas Manfred nunca tinha ideias brilhantes, só tinha ideias idiotas.
Até o telefone estava longe, até isso, e o comando da televisão e o estupor do rádio…
Óscar aproximava-se agora outra vez dele, a medo, Pandora vinha-lhe na peugada, os dois sobranceiros ao chão, caçadores, predadores….
“Anda cá, bichinho… se tu pelo menos me pudesses chegar um copo de água…”

"o puto"


fot. robert doisneau
que parvinhos, nestas idades…
e andam sempre a chamar-me pequenito e a dizer que eu tenho as pernas fininahs e que o meu boné coiso e tal.
(pausa)
mas qual é a piada que isto tem…

"o infeliz"


fot. kevin meredith
hipótese a)
anda lá, deixa-te de disparates e vem.
brrrr… nem penses está muito fria…
“só a mim ninguém me leva”.

hipótese b)
hmmm… estás tão redondinha…tens aqui pneuzinho bem catita….
…fff…. és tão parvo… mas eu acho-te tanta graça…
“só a mim ninguém me diz nada”.

28/07/08

we're a happy family


sempre que arrumo a minha casa descubro-lhe cantos e pó.
coisas esquecidas que já vi mas que redescubro tanto.
caixinhas cheias de coisas antigas e caixas mais novas, numa adolescência de coisas novas, felizes.
gavetas cheias de histórias em tecidos.
hoje arrumei a minha casa de vários anos.
deitei coisas fora muitas coisas.
remexi, arrumei, espirrei por causa do pó, rasguei, enterneci-me, deliciei-me.
fechei caixas definitivas. desarrumei lenços. escolhi pijamas e botas de inverno.
acomodei cobertores e fronhas de linho e bordado inglês.
deitei fora soutiens de tempos tristes.
por cores, como a minha nova cor, arrumei sapatos, vernizes, fios e vestidos.
e no fim, pus cortinas de renda no quarto porque o meu quarto é de menina e arrumei num cantinho, a minha familia de bonecas, que cresce e me acompanha sempre...
Traz um vestido comprido negro. Um tecido fino.
Traz um cabelo morto tombado nos ombros. Traz as mãos frias dentro de umas luvas quentes. As mãos continuam frias.
Traz um casaco pousado nos ombros, só pousado. Dá ideia que aquele casaco tão leve lhe pesa uma eternidade. Aquele casaco negro parece trazer consigo, cozido, tudo o que lhe pesa. A ela. Tanto.
Traz nos olhos negros uma qualquer sem expressão. E é isso que faz com que toda a gente olhe para ela, neste momento. É que há mulheres elegantes, vivas, quentes, a passear cores e perfume naquela escadaria. Sobem-nas e descem-nas com uma cadência feliz. Nota-se na forma como pousam a pontinha do sapato.
Ela não. Traz ainda na boca uma qualquer ruga triste que não se vê mas se adivinha no conjunto. Sobe as escadas com peso, sem graciosidade, tal é o negro da sua cor.
Já subiu estas escadas com cor, com luz, com palavras a escreverem-lhe no corpo tanta coisa. Com a boca fechada num sorriso invisível.
Nesse tempo ela subia aquelas escadas em direcção a qualquer coisa.
Hoje ela sobe estas escadas em direcção a algo que ainda não descobriu. E que parece não existir.

12/07/08

saudade



Tinha saudades de me sentar assim a conversar um par de horas com vocês.
Tenho saudades vossas, às vezes não me lembro disso em consciência mas acho que a saudade é mesmo assim.
Sentamo-nos em casa dos meus pais, a casa dos meus pais é de certa forma aglutinadora, parece que é o sítio onde toda a gente vai dar, o derradeiro sitio…
Sentamo-nos, eu no meio, uma de vós em cada ponta, eu a desfiar os últimos dois anos da minha vida em palavras breves, mas as palavras resumem-se assim bem com os do sangue e eles compreendem é uma espécie de pacto, de contrato tácito, não é preciso dizer muito, o entendimento lê o corpo, a sua linguagem.
Sentamo-nos assim em casa dos meus pais, tanta coisa aconteceu, umas más que se transformaram em boas, outras muito boas, algumas mas poucas más, nós aprendemos assim a saber distinguir bem o que temos de bom, também tivemos boas lições.
E sentamo-nos as 3, nos vossos já quarentas, nos meus quase.
Às vezes tenho vontade de voltar atrás para brincar ou para sentir os sabores da infância, onde vocês têm um lugar muito especial. Em mim como pessoa, na família como membros, na vida de todos.
Mas gosto de nos ver assim adultas, com a experiência marcada em nós, com os dissabores da vida, alguns bem difíceis, a tornar-nos ainda mais bonitas, capazes de falar neles e em tudo.
Porque com vocês é assim. Podemos não nos ver meses ou anos.
Mas permanece o sangue a correr depressa com o (tanto) nosso sangue, a alegria, a avidez com que trauteamos assuntos e passagens da vida, o entusiasmo, a amizade grande e o amor que me continua a fazer comparar-vos a algo idêntico ao que eu sinto pelos meus irmãos.

A dois dos grandes amores da minha vida: Rosi e Marisa.

09/07/08

botões, pulseiras e coisas da minha Mãe

Pedi há pouco à minha mãe, que está no Algarve, que me trouxesse uma prenda.... Pulseiras.
Há anos que o faço. Nem que ela se limite a ir, um fim-de-semana, para Viseu.
Também sou a única filha que peço.
É engraçado que peço mais agora, que sou grande, do que pedia em pequena.
Já pedi coisas extraordinárias à minha mãe.
Já lhe pedi que me cosesse um botão ou disfarçasse um remendo de um casaco de malha, coisa que ela faz como ninguém, que me arranjasse com as suas mãos sábias um bordado de uma blusa que se estava a desfazer.
Já lhe pedi que tomasse conta da minha gata que estava para ter filhotes.
Já lhe pedi um chá de cidreira ou um Buscopan.
Já lhe pedi para ser dura comigo e para me dizer a verdade.
Já lhe pedi que me tiresse uma coisa do olho ou que fosse comigo escolher uma casa.
Já lhe pedi para vir comigo a consultas difíceis.
Já lhe pedi gargalhadas e lágrimas.
Uma televisão ou uma dedicatória.
Já lhe pedi colo dezenas de vezes. Já lhe pedi as mãos no meu cabelo outras tantas.
Já lhe pedi perdão e tréguas.
Já lhe pedi que fizesse pazes e que acalmasse ânimos.
Já lhe pedi que parasse ou que fosse sempre em frente sem medo.
Já lhe pedi um pudim e um botão de rosa.
Já lhe pedi uma história ou um conselho de mãe.
Meia dúzia de ovos e uma écharpe para um casamento.
Às vezes peço-lhe um olhar, silêncio e um abraço. Só isto e sinto-me segura.
Há pouco a minha mãe telefonou-me para saber de que cor queria eu as pulseiras.
Sei que é a maneira que ela tem de me ouvir mais uma vez. De estar mais perto agora que está longe.
Eu guardo todas estas coisas que peço à minha mãe.
E guardo muitas outras que ela me dá, que recorta ou apanha ou inventa ou compra e que depois, antes de mas dar, guarda, e…como se estivessem em gestação, enche-as de amor,prepara-as e a seguir eu recebo-as e leio-as e elas dão-me um bocadinho da minha mãe.
Às vezes penso que a minha mãe não vai estar sempre perto.
E tenho medo, um medo feio e escuro.
Enquanto ela estiver comigo eu vou-lhe pedindo coisinhas, bocadinhos dela.
Ela gosta de mas dar e dá-se… nelas.
Ela não sabe, mas eu já pedi que os olhos, o abraço e o cheiro dela ficassem, para sempre, sempre comigo.

02/07/08

cena 3


Manfred caiu redondo no chão, mesmo no meio da pista de dança.
Mas caiu cheio de estilo. Com os sapatos do falecido, gravata alegre, unhas arranjadas, o cabelo penteadinho e um fato de linho beije, com risca fininha castanha escura.
Caiu depois de ter bebido, de golada, a bebida que Gertrude lhe preparara.
Gertrude estava belíssima naquela noite, com um vestidinho curto de organza azul-bebé, o cabelo cheio de laca e aquele perfume dela que era feito pela avó cega, a Mdme. Marple e que, na opinião de Manfred, cheirava a um creme fresco e encorpado, que lhe punham no peito, em criança, para não tossir.
Gertrude fora buscá-lo de Mercedes-Benz 190 SL, uma pérola que lhe fora deixada, forçosamente, por um tio inglês que tinha ficado passado da cabeça e fora internado, numa casa de repouso, no Sul de França.
“Manfred, estás giro… “ tinha-lhe dito, com uma gargalhada teatral.
Rumaram à festa e entraram no jardim de braço dado.
Com a orquestra a tocar ao fundo do jardim, entre choupos verdes e archotes acesos.
Ela atravessou o pátio, bamboleante, distribuindo sorrisos aqui e acolá, piscadelas de olhos cheios de rímel.
Ele atravessou o pátio bestialmente nervoso, olhos postos no chão, não conhecia ninguém. Os sapatos do falecido, embora janotas, faziam um barulho assustador de modo que ele nem tinha percebido se as pessoas viravam as cabeças por causa do decote de Gertrude ou por causa dos sapatos dele.
“Queres um Martini?” ela perguntou-lhe, lânguida.
“Pode ser…” disse ele que só bebia Laranjina C e chá de camomila, para dormir bem.
Ela deixou-o para ir buscar as bebidas. À sua volta, mulheres sofisticadas e muitas, a beber, a reluzir, a dançar, a olhar nos olhos homens elegantes, a fumar cigarros finos e a desfilar fantásticos vestidos.
Bebeu o Martini de gole e dançou com Gertrude um bolero.
Viu-se depois nos braços de uma colega de trabalho de Gertrude, uma tal Allison, rapariga forte, mais alta do que ele, de lábios grossos e que parecia ter-lhe pegado, de repente, ao colo, para levá-lo a rodopiar pela pista.
Ao som de “Perfídia”, Manfred começou a sentir-se leve como um passarinho, os olhos pareciam sair-lhe das órbitas, de repente Allison estava com a boca escancarada e os lábios tão grossos que ele mal lhe via dos olhos, viu ainda os músicos da orquestra a rir imenso, com grandes dentes de rato e ele próprio começou a rir e sentiu-se no ar, a flutuar, nos braços fortes de Allison, que agora tinha umas asinhas de anjo…
A última imagem que teve da festa foi de si próprio, no meio daquelas mulheres todas, todas as mulheres da festa…em roupa interior…Depois caiu redondo no chão, mesmo no meio da pista de dança.

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