31/08/08


sabe bem voltar a casa, ao nosso cheiro, aos nossos gatos, à roupa que esquecemos e aos ruídos que fazem parte da banda sonora da nossa vida.
sabe bem voltar ao ritual do limpar a cara antes de dormir e ver se os gatos têm comida.
sabe bem voltar a ligar a máquina de lavar a roupa e o portátil
sabe bem ler as mensagens que nos deixam.
sabe bem saber que fazemos falta.
estou de volta.

11/08/08

a espera





brent l.
sem saber um do outro, esperavam.
ele esperava ao fim da tarde.
ela esperava ao fim da noite.
ele esperava com a roupa do dia.
ela esperava, vestida de noite.
ele esperava sem acreditar.
ela vivia para esperar.
ele tornara-se cinzento.
ela vestia negro.
ele esperava no 1º andar.
ela esperava na rés do chão.
um dia ele deixou de esperar por ela e enfiou-se num lar e lá ficou a jogar cartas e a ensurdecer até ficar velho.
um dia ela morreu de velha, de vestido preto, ao sair do bar onde esperava, todas as noites.

98.9



fot. Paul O.
hipótese a)
"Regiões a norte do sistema montanhoso Montejunto-Estrela:Céu em geral muito nublado, apresentando-se pouco nubladono interior até ao início da manhã.Períodos de chuva fraca no Alto Minho, mais frequente a partir datarde, progredindo gradualmente às restantes regiões e sendo poucoprovável no nordeste transmontano e Beira Alta."

hipótese b)
“A inflação na zona euro atingiu em Julho os 4,1 por cento, face a igual mês do ano anterior, um novo recorde desde a criação desta zona em 1999, segundo uma primeira estimativa esta quinta-feira publicada pelo Eurostat.”

fascinação...


Construí-a na minha cabeça, pelas palavras que cantava.
As poucas revistas que chegavam do Brasil (e que eu consumia por causa dela e de outra) não chegavam para me fazer ter dela uma ideia real.
A Elis cantava da maneira que eu sentia as coisas, em menina.
Muito de pele, muito sentidas, cada palavra a deixar transparecer uma emoção ou um estado de espírito. Algumas frases eram ditas com voz rasgada, outras com um sopro a calar-se, algumas com lágrimas, nas próprias músicas. Eu arrepiava-me quando a ouvia, a presença dela parecia sair dos discos de 75 rotações numa espiral de luz como se fosse um mago.
Eu acreditava que só eu sabia a maneira como ela sentia tudo, para cantar, porque eu sentia parecido, para escrever.
Às vezes abraçava-me e olhava-me perto, nos olhos. Às vezes levava-me com ela, descalça, para cantar. E apresentava-me à Nara, ao Tom, ao João.
Cheguei a acreditar, tal era o amor que lhe tinha, que a minha voz colava bem à dela e que um dia quando ela já não estivesse eu seria capaz de a cantar. Sempre.
Um dia ela morreu cedo e eu acompanhei o funeral por uma revista e escrevi um texto sobre os artistas que não deviam morrer e decidi guardá-la, para sempre, viva no meu peito.
Tenho quase quarenta anos, continuo a acreditar que a minha voz cola bem à dela, continuo a achar que ela canta as coisas como eu ainda as sinto e que foi pena ela não ter sabido que eu acredito escrever como ela cantava.

Arquivo