10/09/08

a negra e a branca



bruce davidson
tinham feitios completamente diferentes, uma e outra, e por isso pegavam-se amiúde.
a branca enfurecia-se só com o rosto e não emitia qualquer som enquanto a negra partia a louça toda e berrava e deitava a casa a baixo entre perdigotos e pontapés.
a negra era impulsiva como as tempestades tropicais.
a branca era calma como uma tarde de verão cheia de calor.
a branca tinha a voz grossa por causa do cigarro e a negra odiava tabaco.
a negra gostava de música e de dançar e a branca não tinha qualquer aparelho em casa que tocasse qualquer tipo de música.
a branca gostava do McCain e a negra guardava, na mesinha de cabeceira, uma fotografia do Obama.
quando uma estava doente a outra fazia caldinhos brancos com frango, arroz e cenoura.
quando uma se enganava numa data a outra ficava sem lhe falar 15 dias.
quando uma discutia com o marido a outra abria-lhe as portas da casa.
quando uma ia à depilação a outra ia fazer-lhe companhia.
quando o marido de uma fazia anos o marido e a outra estavam sempre presentes.
quando a uma eram apontados defeitos a outra defendia-a com unhas e dentes.
uma dizia mata e a outra dizia esfola.
uma era 8 e a outra era 80.
uma chamava-se Ermelinda e a outra Mercedes.
eram cunhadas e não sabiam viver uma sem a outra.

09/09/08

"It had to be you"



g. lynch
um dia destes mando fazer um vestido vermelho de veludo de cristal,
apanho o cabelo atrás da cabeça para ficar esguia,
faço um jet bronze para ficar com bom ar,
contrato uns músicos que saibam tocar e que não sejam muito caros,
arranjo uns projectores de recorte
e ponho-me a cantar, para ti, uma canção de amor…


“It had to be you,
it had to be you
I wandered around,
and finally found
The somebody who
Could make me be true,
And could make me be blue
And even be glad,
just to be sad
Thinking of you”

o grande teatro da sua vida


Cristiana Ceppas
sentia-se triste porque lhe diziam muitas vezes “perdes tempo com coisas que não têm interesse nenhum”. às substituíam a frase por “deixa-te de tretas”. a tristeza dela era igual.
o facto é que observava muito, tudo, e depois gostava de reproduzir, fossem aves, crianças, árvores ou nuvens.
tinha no corpo elasticidade, jeito e leveza; a voz saía fina ou grossa como um trovão, dependia do seu estado de espírito ou da sua vontade.
entretinha crianças facilmente. velhos tontos então nem se fala, riam-se todos, sem dentes e olhos húmidos.
entretinha-se a si própria frente ao espelho, horas, a treinar posições ou a articular vozes.
só a mãe conseguia exclamar, de todas as vezes, um “ah!...” verdadeiramente espantado. depois envolvia-a num abraço terno e sussurrava-lhe ao ouvido “és a minha pequenina grande, uma verdadeira artista”.
e a mãe, com os velhos e as crianças, era o seu publico único, uno e fiel. sabia que no dia em que a mãe faltasse os espectáculos acabariam mas, que diabo, os artistas também tinham de descansar…
e assim continuou, a falar a linguagem das coisas inanimadas, a dar-lhes vida com o corpo, até que a sua mãe encerrou, certo dia, o grande teatro da sua vida.

08/09/08

alarvidades


ouka lele
estou sentada numa cadeira de pau na sala de espera do pediatra da criança que chora sem parar.
uma senhora em frente com óculos grossos e muito magra pergunta-me sorridente porque chora a criança e eu tenho vontade de lhe dizer o que pensei “se soubesse o que ela tinha não vinha ao médico. e a senhora o que faz aqui? está quase cega mas este consultório é de pediatras. enganou-se na porta, foi?"
depois pego numa revista e folheio para me por a par das alarvidades.
não sei como é que esta escanzelada da nicole kidman consegue ser apelidada de “a mais…” relativamente a qualquer coisa, muito menos no que a roupa diz respeito.
hoje estive numa sapataria e pedi para ver umas botas. deixei a criança que chorava muito há mais de uma hora seguida, da parte de fora da loja e mal entrei começaram logo todas a cochichar entre elas e eu até lhes perguntei se eu podia ajudar em alguma coisa.acabei por não comprar botas nenhumas porque não havia meias finas para experimentar e não me deixaram experimentá-las com este calor sem meias.
fui-me embora com a criança a chorar por mais uns bons quarenta e cinco minutos que foi o tempo que demorei a chegar a casa ainda tentei apanhar um autocarro mas se encontro aquela condutora de autocarro habitual tenho de lhe bater.
sento-me por fim a beber uma cerveja preta enquanto a criança adormece.
de tanto chorar.

02/09/08

Zequinha

Existiu, em casa dos meus pais, um canário que a minha mãe baptizou de Zequinha.
O Zequinha era um canário amarelo, de plumagem fina e cabecinha redonda, de olhos vivos e poupa da mesma cor.
O Zequinha seria um canário absolutamente normal como os outros canários que até hoje conheci se não fizesse coisas que eram absolutamente estranhas e não usuais nos pássaros da sua espécie.
De facto o Zequinha via um dedo aproximar-se da pequena gaiola e todo ele se inflamava, saltava no poleiro, piava repetidamente. E se alguém tivesse coragem bastante para introduzir o dedo na gaiola então ele dava-lhe pequenas bicadas, e ficava-se por ali a “lutar” com aquele dedo, como se de um verdadeiro duelo se tratasse.
Com o tempo, o Zequinha aprendeu a linguagem fininha e paciente da minha mãe.
Ela entrava na sala, de manhã e dava-lhe os bons dias e ele respondia-lhe com um esvoaçar cheio de carinho. A minha mãe sentava-se, no quintal, com a gaiola perto de si, a ver revistas e sempre, sempre a falar com ele. A minha mãe jantava na mesa, sentada e quando ela falava ele estremecia, com a sua voz. Desafiando-a, piava e só se calava quando ela se aproximava da gaiola.
O meu pai, que criou dezenas de canários durante a sua vida e nunca, diz ele, nunca viu assim um canário, que comunicasse, que conhecesse a voz, que conhecesse o cheiro e a mão e que tivesse aprendido assim, a gostar…
Com a paciência e doçura que lhe são habituais, a minha mãe ensinou-o a gostar de folhas de alface, a descansar ao sol com ela, a gostar de bolos e até a descansar na sua mão. E de facto ela metia a mão na gaiola e o Zequinha pulava para cima dela. Quando estava bem disposto e cheio de energia dava-lhe bicadas porque não sabia dar-lhe beijos. Quando estava cansado e nos últimos tempos, já velhinho, descansava na mão dela até adormecer.
O Zequinha adoeceu este ano no Verão, quando os meus pais foram para o Algarve, durante um mês.
Quando voltou a casa dos meus pais, depois das ferias, vinha sem forças, sem conseguir empoleirar-se. A minha mãe deixou de comer com ele e a sua respiração tornou-se pesada como a dele. Ainda assim, fraco e doente, só reagia com a voz e a mão dela.
O Zequinha morreu hoje, a dormir, na mão do meu pai, e a minha mãe pô-lo numa caixinha da sua avó, uma caixa de cartão que sobreviveu ao tempo, cheia de eucaliptos e rendas, uma caixa especial que ela tinha guardado, sem saber, para este destino.
O Zequinha morreu de velho mas também segundo a minha mãe, de saudades dela, mas morreu feliz e cheio de amor.
Porque amor foi o que a minha mãe ensinou um pássaro a sentir.

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