30/10/08

grey



fot. k rosenthal
fico mais cinzenta no outuno.
e ficando cinzenta tenho vontade de pintar as unhas de cinzento, vestir uma camisola cinzenta, calçar umas botas e usar uma carteira cinzentas,
passear-me acinzentadamente pelo meu dia cinzento,
comer num restaurante todo pardo,
de paredes de lágrimas cinzentas e copos da casa do vidro da marinha grande, cinzentos escuros, tomar um café com a cara encostada à mão, com ar cinzento,
suspirar com ar de ocaso,
dar um passeio outonal pelo passeio alegre e olhar para o mar cinzento
escrever as minhas memórias cinza, valadamente, a cinzento lápis
e deitar-me, já tarde, na minha cama quente
cansada
e adormecer pesada e calmamente
com as pálpebras a pesarem-me de sono.
um peso bom, de cansaço cinzento, que ao dormir
misturo com as outras cores todas
e transformo
num bom dormir
e no dia seguinte, um acordar para outra cor.

papel de parede

adoro papel de parede, tenho uma boa meia duzia de papéis de parede, que me lembro, que são para mim uma referência: o da casa de banho dos tios, na rua do arco, em viseu; o da sala das antas, o do escritório das antas; o do quarto da ro e da marisa, nas antas e o do meu quarto de solteira, das antas. esse papel era aboslutamente fabuloso e dependendo dos meus estados de espírito, eu conseguia ver, nele, caras de mostros ou de homens com esgares de terror ou anjos e fadas. nesse papel do meu quarto de solteira eu escrevinhei (que vergonha, escrever numa parede e principalmente num papel) umas coisas disfarçadas nas flores mais escuras, pequenas letras que queriam dizer coisas, mas eu sabia o sítio delas e sabia bem o que elas queriam dizer, oh se sabia, e essas coisas por estarem escritas na parede do quarto onde eu dormia velavam o meu sono e eu acreditava muito nisso e eram mais um dos meus (muitos) segredos.

ajustar contas

fazemo-lo mais, à medida que vamos avançando na idade.
como se quiséssemos começar a preparar qualquer coisa ou o caminho de qualquer coisa
para não deixar nada pendente.
a semana passada ajustei contas com o meu armário e alguma da minha roupa, a que tem mais personalidade e que eu guardo há mais tempo
mas é um disparate guardá-la porque nunca mais a vou vestir.
dei uma série de roupa antiga dessa, especial, mas primeiro ajustei contas com ela.
uma camisa dos áureos anos 90 que mais tarde me acompanhou nas loucas produções, com a sara e a paula
uma saia comprida dos remotos 80’s em que se usava tudo e não se usava nada e essa saia era assim uma espécie de allien.
também ajustei contas com umas carteirazitas que já guardaram uma centena de batons, caixas de chiclets e papeis com bocados da minha vida.
ainda tenho de ajustar contas um dia destes com umas tantas coisas.
acho que vou ser velha e ainda vou andar a ajustar contas.
é um sinal que estou viva.
e mesmo com a minha vida arrumada, eu vou sempre conseguir desarrumar alguma coisa…. para depois voltar a arrumar.

21/10/08

as minhas mulheres

Se eu pudesse
tornava menos difícil a vida de certas mulheres que conheço.
dava-lhes mimo, conforto e resolvia-lhe problemas bicudos
pagava-lhes as contas do Pingo Doce e do dentista dos filhos
perdia tempo a fazer madeixas
e a fazer ginástica para tonificar os músculos
comprava-lhes um mimo de vez em quando
principalmente naqueles dias em que as mulheres choram e ninguém se lembra porquê.
tirava-lhes os pêlos das pernas sem dor
areava-lhes os tachos
ouvia pieguices e queixas, sem abrir a boca
e com os olhos só com os olhos
levava-as pelos caminhos lógicos do raciocínio
ou então
ouvia-as, só.
às vezes é só disso que elas precisam.
se eu pudesse
tornava mais aprazíveis os dias de Inverno solitários de certas mulheres que conheço.
ensinava-as a rezar e a gostar de ver revistas
a fazer um bolo pequeno para dar para muitos dias
a fazer malha ou Arraiolos, no Inverno,
a tomar um banho de imersão à luz das velas, com uma taça de vinho
a ver um filme, sozinhas
a revisitar a solidão com memórias
e a falar com os objectos de casa.
ensinava-as a gostarem das suas casas, mais do que qualquer outra coisa.
se eu pudesse
aliviava, de certos papeis, muitas mulheres que eu conheço
que têm na vida, muitos papeis.
falava com os filhos adolescentes, a linguagem deles, para depois falar a sério com eles,
a linguagem de mãe.
aprendia com as mães dessas mulheres, a linguagem das pequenas coisas
para a ensinar depois às suas filhas.
velava as viagens dos seus filhos, de carro, à noite para que elas pudessem dormir
esfumava nas suas vidas os episódios menos bons
pintava a morte de branco
e a saudade transformava-a num hábito bom
ensinava-as a escrever num caderninho de cabeceira
as coisas boas da vida, para nunca se esquecerem delas.
se eu pudesse
tinha nascido com muitos braços e muitas pernas e muitas mãos,
e com olhos brilhantes, que pudesse clonar,
para estar ao mesmo tempo e sempre,
com essas tantas mulheres.

para as mulheres da minha vida e em especial para a kiki.

16/10/08

a porta giratória

Já se apaixonara em supermercados, papelarias, quermesses, no metro, na cadeira do cabeleireiro, na página de um jornal, mas nunca, nunca se apaixonara numa porta giratória de um centro comercial.
Ela ia a entrar e ele ia a sair. Não interessa agora como é que ela ia vestida ou o que é que ele trazia na mão. Ou seja, não houve qualquer elemento exterior aos dois que os fizesse iludir com qualquer coisa. Não.
Ela ia a entrar e ele ia a sair. E olharam-se numa partículazinha de tempo invisível e teimoso, quando ela já tinha os dois pés pequenos dentro do compartimento direito da (grande) porta giratória e ele tinha os dois pés grandes no compartimento esquerdo da (grande) porta giratória.
Olharam-se de raspão mas não o suficiente para se verem.
Quiseram ver-se mais uma vez.
Ela fingiu que o telemóvel tocou.
Ele fingiu que deixou cair um papel que tinha na mão.
E então, deram mais uma volta na porta giratória.
Porém, ela não encontrou o telefone, dentro da carteira.
E no chão, acocorado, ele não encontrou o papel simplesmente porque não estava a olhar para ele. Estava a olhar para ela.
Ela não era boa a fingir que falava para telemóveis mudos e por isso corou até à nuca.
Ele não era bom a fingir espanto quando o papel caiu ao chão porque tinha sido ele a deitá-lo e então deu-lhe vontade de rir.
Com tudo isto, não se tinham visto ainda bem.
E então, decidiram dar mais uma volta na porta giratória.
Esqueceram telefones e papéis e… Olharam-se demoradamente, enquanto um homem barrigudo entrou a tossir nicotina para o compartimento direito e uma adolescente com música aos gritos nos ouvidos entrou a mascar chiklet com barulho para o compartimento esquerdo.
Às tantas, sem saberem porquê, numa cadência de espírito e num bater de coração, consertado, acertaram os passos, um com o outro.
E ao mesmo tempo entrou, no compartimento da direita, uma mulher jovem, de óculos escuros, que procurava dentro da sua Louis Vuitton o telemóvel, que tocava. E o toque do telemóvel, ó sorte fantasmagórica, ó música oportuna, de repente a mais melodiosa do mundo, de repente a mais bela do mundo, a música deles ali naquela porta giratória a rodar, …“Dream a little dream of me”.
Sentiram-se, obviamente, a andar de carrossel. Devem ter pensado nisto ao mesmo tempo. Riram.
Banda sonora tácita. Tremor nos membros inferiores. A paixão a sair da larva, a bater ainda fraca mas a agarrar-se à vida, com unhas e dentes.
Ela levou a mão à boca. Ele mexeu o pescoço.
A mulher saiu sem ter encontrado o telemóvel. Mas a música ficou com eles.
Ela quis dar mais uma volta. Ele quis dar mais uma volta.
E então, decidiram dar mais uma volta na porta giratória.
E nos olhos, disseram-se coisas e combinaram tomar um café ali mesmo ao lado, na casa agrícola.
E saíram e frente a frente ele olhou para ela, embasbacado, o corpo parado mas ainda a rodar, num frémito de palavras que lhe corriam nas veias, prontas a sair em todas as línguas, sem pontuações ou com todas as figuras gramaticais.
Ela olhou para ele, fixamente, demorando-se em cada linha do rosto, reconhecendo o rosto, rugas, sinais, memorizando poros e pequenos derrames.
E foi então que ela riu de repente, com vontade, chegou-se a ele e lhe disse, com a voz ainda a rodar:
- Tenho de ir vomitar, estou muito tonta…Esperas por mim?

candy


fot. barbara kruger
candy (como lhe chamavam desde os tempos da escola primaria) viveu uma vida cheia, na praia e no campo, em 3 países diferentes, foi mulher de cidade elegante e sofisticada, foi mãe, foi professora exemplar e foi presidente do conselho executivo da associação das mulheres amigas de todos, foi feliz, casou de branco e virgem, teve 6 filhas e 2 abortos, leu centenas de livros e escreveu contos que ninguém leu, teve 12 netos, filiou-se no partido democrata, criou uma irmã deficiente mental, teve o cabelo de 7 cores diferentes, foi sócia honorária da Acedemia de Artes e Letras, aprendeu a pintar a óleo aos 63 anos, escreveu 16 diários com chave e 3 sem chave, bordou bainhas abertas em todas as fraldas das filhas e fez em crochet uma toalha e uma colcha para 8 netas, fez colecção dos livros Europa América, aprendeu ballet e aprendeu cozinha Hindu, teve 2 empregadas de família de quem cuidou, teve 5 melhores amigas desde os tempos de ama, amou com paixão o marido que conheceu aos 8 anos, enterrou mãe, pai, 2 filhas e 1 filho, sogra, sogro, empregadas de família, as 5 melhores amigas, chorou muito mas levantou-se sempre e nunca teve uma única depressão.
matou, sem querer, o marido, numa manhã de primavera, ao dar-lhe a medicação para o coração, repetida e fatal.

07/10/08

aos quarenta

aos quarenta
visto-me de folhas maduras
palavras calmas
olhos descansados.
pesa-me no corpo um pesar. bom.
de vida aproveitada
sonos aprendidos
aprendo-me. ensino-me. e ensino.
rejeito o que me prende.
o que me ensurdece, o que me encolhe.
rejeito o que me faz ficar cinzenta.
canções tristes que antes me tornavam pequena.
pessoas pequenas que antes me tornavam triste.
enternece-me um filme francês
um pássaro
um acorde harmonioso
um vermelho desbotado
um pão-de-ló acabado de fazer.
enternece-me a família
um álbum de retratos
um Inverno ameno
um telefonema de um amigo.
enternece-me o pó nas mobílias
a montra de uma mercearia
a cantiga portuguesa de ontem.
sou chávena de chá morno de plantas exóticas
sou vestido justo ao corpo
cadeira emparelhada
braço dado
livro gasto
sou, amiúde, miúda.
sou grande, pequena,
mimada e severa.
sou vespa cor-de-rosa italiana
sou prédio alto de nova Iorque.
sou romântica e cismática.
sou simpática e sonolenta.
sou filha, irmã, mãe, amiga, mulher.
sou, muito disto tudo, aos muitos que me rodeiam.
sou a esperança de alguns
a alegria de outros.
sou tábua, almofada, âncora.
sou. assim. aos quarenta,muita coisa.
visto-me, leve, rio, pinto, escrevo, palavras, cor, sim.
faço pausas pausadas. respiradas.
crio e recrio e invento
ouço música. constante.
banda sonora que construí com trabalho. esforço. de anos.
paz.
vejo cores que não têm nome. fotografo.
respiro os momentos, como ar. profundamente.
sinto coisas que não têm nome. memorizo.
trato-me, trato, retrato.
trato as palavras por tu.
entrego-me.
trato-me por tu.
e sou. a minha melhor amiga.

estou de volta... obrigada a todos vocês, que esperaram por mim.

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