28/11/08

pessoas



bruce davidson
e
Jones-Scott
o que seria a minha vida sem pessoas
sobre que escreveria
como saberia as suas histórias aquelas que eu gosto realmente de saber
aquelas que tanta gente apelida de “histórias sem nada de especial” ou “chochices”…
com quem partilharia coisas e objectos
memórias e tortilhas de milho, make-up e livros?
telefonemas e receitas de culinária?
o que seria a minha vida sem as moradas que colecciono, dos amigos,
sem a lista de e-mail’s e o rol de aniversários..
como poderia ter aprendido tanto e ensinado, também?
e quando um estranho se cruza connosco e nos pergunta as horas?
o trajecto de vida dele interceptou o nosso por um segundo porque houve interacção, por mais pequena que tenha sido
gostava de ter um mapa da minha vida com todas as pessoas que a interceptaram, desta maneira.
seria decerto um novelo de linhas, a minha vida,
com tendência para ficar sempre maior.

19/11/08

daqui vejo o estádio em brasilia cheio para o jogo a eugénia melo e castro a cantar o hino os gatos escondidos um fio de pêlo no tapete a descansar ouço os passos da vizinha de cima um cantor a entoar o hino brasileiro daqui quieta vejo tudo como um peixe e os meus olhos mexem-se com as sombras os ruídos as cores o público aplaude a minha amiga comenta a minha gata abre a boca e mostra um céu da boca cor-de-rosa manchado típico dos gatos persa puros pura é esta água silenciosa que me aquece daqui vejo tudo a sala adormecida os retratos sem vida o sofá com o desenho do corpo o chá a fumegar a audrey na parede a olhar para mim os meus pais noivos no retrato a adivinharem-me daqui deste aquário azul de água amiga vejo gatas paredes cores som conforto deixo-me assim sem me mexer respiro espirro quero queria quero-te espero-te e por fim fecho os olhos.
quem diz que os peixes não dormem?

frio. quente.
água. ar.
costas. costas.
suspiro. espera.
mar. grande.
distância. toque.
areia. mão.
ouves? espero.
dizes-me: vem.
e eu vou.

13/11/08

miscellaneous

falo penso medro durmo pinto coro sinto quero como vivo anseio estudo
escuto escrevo conformo saúdo telefono envio amo afago enterneço
estremeço entorno degolo esfrego limpo suo canto soo
eco renasço bordo atendo entendo tiro
entretanto entre tudo
tanto
tudo.



fot. sarah moon

12/11/08

voo

durmo para me voar até ti
e voo-me sobre a cidade adormecida
deito-me no teu tejo
para te esperar até de madrugada.



11/11/08

amor

gravo-te em mim.
na pele, na minha almofada, nas flores que enchem as jarras.
gravo-te no ar que respiro e nas canções que te trazem, à noite, quando já estou só.
sento-me e respiro-te.
gravo-te na saudade que suo
gravo-te nas mãos que sinto à volta do meu corpo quando me deito, quando já estou só.
deito-me e quero-te.
gravo-te quando os meus olhos se fecham e te procuro, incessantemente.
a minha noite procura-te
o meu amor encontra-te.
e durmo, na verdade, agarrada a ti.

03/11/08

chorar com filmes

chorei a 1ª vez com o Bambi, porque ele tinha perdido a mãe e no universo dos meus 6 anos perder a mãe era assim a coisa mais terrível que me podia acontecer, isso e não poder “escrever” nas costas das receitas de próteses dentarias do meu pai.

depois fui chorando ao longo dos anos com outros filmes.
já me aconteceu chorar de maneira diferente com o mesmo filme.
choro com o “e tudo o vento levou” quando a scarlett chega a tara, depois daquela viagem atribulada e aí é a musica que me faz chorar e choro aos soluços.

choro com a familiaridade da “música no coração” e das memórias que cada palavra da letra encerra e choro e rio ao mesmo tempo.

choro com imagens fotográficas de certos filmes.
com as mulheres do almodovar, com o azul do “bonjour tristesse”.
choro com diálogos pequenos de homens e mulheres
choro com a simplicidade
choro com imagens de nova Iorque
e ultimamente deu-me para chorar com historias de amor.

gosto de chorar com filmes.
é uma maneira de chorar acompanhada.

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