24/12/08

"Cebulório"







Amanhã entrarei em casa dos meus pais para mais uma noite de Consoada.
Amanhã cheirar-me-á a molho fervido com cebola, azeite, alho e louro.
Amanhã verei a mesa posta, a mesa grande de consoada, engalanada. Com o seu melhor vestido. Amanhã servir-se-á o jantar no melhor serviço, os guardanapos de pano enfeitarão os copos e até as cadeiras parecem ter calçado saltos altos.
Amanhã encontrarei olhos brilhantes, palavras fraternas, indumentárias cuidadas e maquilhagens bonitas.
Amanhã receberei abraços e beijos. Verei, nos olhos de todos, o Natal que me ensinaram a amar. Sentirei, sentada à mesa, o calor forte do sangue que corre nas veias e nos copos de vinho.
Sentirei, espalhados pela casa e em comunhão embriagante, os perfumes mornos, das ocasiões especiais, os cheiros dos doces feitos a tantas mãos, o cheiro da casa dos meus pais que tem o cheiro de mãe da minha mãe e o cheiro a velhice do meu pai e tem, também, o cheiro daqueles que já não estão.
Amanhã falaremos de coisas agradáveis e cantaremos, uma vez mais, o “Cebulório, em uníssono.
E quando o fizermos, às nossas vozes juntar-se-ão as vozes de todos aqueles que, espalhados pelo mundo, comungam comigo deste amor que, juntos, desembrulhamos nesta noite.

23/12/08

bom natal & bom ano


para todos
e em especial
para vocês,
que visitam este meu espaço habitualmente,
vai um beijo e um abraço especiais.

12/12/08

ele preocupava-se com ela.
protegia-a da chuva, dos ovos fora de prazo.
tentava protegê-la da sua própria distracção
alertando-a para os perigos de atravessar a estrada, alheada.
alertando-a para uma mania bizarra que ela tinha de, quando caminhava, deixar que o corpo e consequentemente o andar descaíssem, ligeiramente,
para o lado esquerdo.
podia ser do coração, ela pensou um dia.
porque o coração mora no lado esquerdo do peito
e o coração pesa com a idade,
fruto das coisas que se vive e se sente.
e ela vivia tudo e sentia tudo intensamente.
então um dia ele descobriu esta imagem e mandou-lha.
e ela viu esta imagem num determinado momento
um momento em que de facto precisava dela, ou antes precisava dele,
e o certo é que a imagem foi capaz de lhe trazer
os braços fortes dele e o peito morno
e inunda-la com aquela sensação de segurança
que só o amor nos consegue dar.
e no dia seguinte ela andou meia descaída para o lado esquerdo.
porque o seu coração havia ficado um pouco mais pesado,
por causa do amor.

ele tentou de tudo para lhe arrancar um sorriso.
era teimoso, o que não ria.
ria com pouquíssimas coisas na vida.
contavam-se, aliás, pelos dedos de uma das mãos.
ficaram ali naquela coisa do ri e não ri sabe-se lá quanto tempo e nada.
gastaram a pilha da máquina digital e nada.
ele tentou piadas simples e daquelas mais rebuscadas, versos tontos, asneiras indizíveis, nomes próprios inacreditáveis,
nomes de medicamentos compostos por sufixos e mais algumas tontearias,
casamentos de celebridades com coisas inanimadas tipo uma rua da Buraca e nada.
quando por fim desistiu, desligou a máquina, deu um passo à frente, amuado,
e tropeçou no tapete da sala e foi de cara e joelhos ao chão,
e ficou ali como um quadrúpede e foi então que
o outro riu.
um riso desdentado, arrancado a ferros,
riu riu riu como se vertesse da boca sorrisos de anos,
guardados e cheios de mofo
e engasgou-se com aquele riso alarve e teve um ataque de tosse estrambótico
a ponto de ficar sem voz e começou a ficar roxo
e então quem começou a rir foi o outro, ainda de quatro, no chão,
então riram os dois até não terem mais nada para rir
e sem terem tirado uma única fotografia de jeito.




10/12/08

amo-te




tu vais
mas fica o teu perfume, a pairar no ar, à minha espera
para me apanhar de surpresa, me abraçar e entrar dentro de mim.
tu vais mas os teus olhos ficam
nos meus
repousam e dormem comigo
fazem-me amor.
e eu fico com o calor dos teus braços no escuro quando me procuras
e fico com o castanho dos teus olhos no vermelho dos meus lábios
e fico com a tua voz a brincar no meu ouvido.
tu vais afastas-te ficas longe
cada vez mais à medida que avanças
mas isso é só uma questão de kilómetros.
porque sabes,
eu fico contigo todos os dias da minha vida
naquilo que é o amor que tu me ensinaste.

04/12/08

apetecia-me escrever-te uma carta de amor




uma carta pequena
em papel de seda
escrita a azul
que começasse assim
"meu amor,"
contar-te de uma forma simples e pequena
como foi o meu dia hoje
o que jantei
que música me fez escrever
que imagem me fez parar.
ou quantas saudades tive tuas
se é que isso se pode medir.
tu sabes que sim
(que eu consigo medir as palavras
escutar-te através do papel
desenhar o teu cheiro
olhar-te nos olhos quando me desnudo da maquilhagem)
sabes, às vezes apetece-me escrever-te
falar-te através do papel
rir-me enquanto roo a caneta
pegar-te na mão enquanto as palavras jorram
sinto-me perto. sinto-te.
eu acho que isto é amor.
o que é que tu achas?
e depois acabava assim
"um beijo,
da tua Laura".



cair


cair, cair no chão, sem dó nem piedade, de repente, fulminantemente, absolutamente… já caíram? já vos aconteceu? sim, claro. aconteceu a todas.
faz parte do rol de aventuras desgraçadas que acabam com a nossa reputação em adolescentes, sim, cair, a sair do carro ou a sair do café ou no polivalente do liceu com os adolescentes idiotas com esgares babados no canto da boca prontos a rir a rir sem só sem pena.
sim, cair, eu e todas, a partir de agora só direi "eu" porque dá trabalho estar a escrever “eu e todas” e no fundo neste âmbito “eu e todas” é precisamente a mesma coisa, por isso e retomando,
eu, a sair do carro, elegante, recta, paulatina, a pensar noutra coisa qualquer e zás, sem saber como e porquê ou empurrada por que foras invisíveis ou divinas, estou no chão, de quatro, eu, calças de fazenda a lamber a calçada, húmida sabe-se lá de quê, mãos frias contra o frio do chão sujo de pés e escarros e outras mais tais sujidades, biqueira das botas, afiada, lustrosa, enterrada na lama viscosa dos intervalos minúsculos dos paralelos,
eu, vexada, humilhada, naquela posição de quadrúpede, obrigada a estar ali assim e ainda por cima os caracóis malandros a lamberam-me a face furibunda,
o vento a acoitar-me o cabelo de lado como que a gozar, bufando-me, com regozijo, perversidades por estar assim nesta posição pouco humana
e eu naquela posição incomoda, infeliz, levanto-me, ante os olhares do mundo, sim, porque naquele momento eu penso que o mundo inteiro olha para mim,
olham para mim todos os olhos em bico de Xangai,
olham para mim os olhos dos mamíferos da floresta amazónica,
olham para mim os funcionários públicos desolhados
as donas de casa insatisfeitas
os mortos ainda mornos com os seus olhos colados de morte
olham para mim prédios e camionetas, fontes e viadutos,
rotundas e cegos.
levanto-me a no momento a seguir
e ao levantar-me, nesse exacto momento em que a minha coluna se instala no esqueleto,
abano a cabeça num gesto muito pequeno, de passarinho e altiva,
recupero aquela minha altivez de mulher adulta que sabe o que quer e,
de calças de fazenda ligeiramente enlameadas na zona do joelho,
de joelho esfolado precisamente nessa zona do joelho,
biqueira da bota preta ligeiramente riscada e húmida de lama,
caracóis perfeitos a bofetearem o vento,
lanço-me no meu andar em saltos altos, oscilando levemente a anca,
os saltos bicudos a beijocarem a calçada húmida, carteira no braço, olhos brilhantes…

02/12/08

é que, sabes, posso não ter dito vezes suficientes o que quero dizer-te,
com este vermelho aqui em baixo.
sim, o vermelho.
não é ela. ela podia não estar no desenho. não é ela que é importante.
o importante é a cor. o vermelho.
consegues ver? vês?
vês os matizados, as sombras, os riscos, as manchas?
vês os desenhos das figuras?
o fluir dos vermelhos?
a zanga, a paixão, o adormecer, o encanto?
a mão forte, a harmonia, o conforto?
a companhia, o entusiasmo?
a segurança, o divertimento?
o amor, que fica, depois de se conseguir ver e sentir isto tudo?
foi o que ficou em mim. instalado.
capaz de me fazer ver (todas) estas coisas, simplesmente, numa cor.

o (meu) amor é vermelho e arde


henry a.
vou pintar-me um dia, de invisível…
para poder passear-me nua, pelos dias.

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