29/12/09

no sense

o que é que eu faço a isto tudo que sinto ao mesmo tempo e me põe gorda na cabeça pois quero deitar cá para fora e não consigo penso coisas alegres e tristes tenho vontade de me atirar de um prédio para voar e tenho vontade de comer o papel que escrevo e tudo isto porque tenho tanta coisa na cabeça que me entonteçe e assusta e se ao menos eu pudesse arrotar umas palavras para me aliviar era bom mas não quanto mais cheia me sinto mais penso deve ser das palavras que já tenho que ficam a ruminar e dão à luz outras parecem vermes ou ratos ou então nascem espontaneamente ainda não consegui descobrir mas nestes dias em que me sinto assim tenho vontade de montar um negócio uma mini empresa que importe palavras e faça embrulhos riquinhos de palavras gourmet para ficar rica e me poder dar ao luxo nestes dias de ficar em casa deitada no sofá com os meus cadernos e os lápis os aguças e as borrachas e escrever escrever escrever até ficar enjoada e cair de cansaço e voltar a acordar e voltar a escrever num ritual que ao outros pode parecer surreal ou psicótico mas que a mim me faz uma mulher magra feliz e sem olheiras.

"anjo da guarda minha companhia guarda a minha alma de noite e de dia"

- Reza, mãe?
E ela diz-me que sim, que reza.
É que ela reza diferente de mim.
As orações dela chegam a um sítio onde as minhas não chegam.
Talvez porque ela esteja há mais tempo perto de Deus.
Talvez porque quando reza o pensamento não lhe foge como me acontece a mim.
Talvez porque entre ela e ele exista um canal de comunicação especial, privado, que se faz de amor e Fé.
- Reza mesmo, mãe?
E ela diz-me que sim. E quando me responde parece estar já a rezar.
A voz desce, as palavras saem mais cantadas. Parece que o peito lhe sobe e desce ao compasso do rezar que já lhe faz parte da pele.
Eu rezo à noite. E de dia aos bocadinhos quando me lembro. Entre refeições, trabalho ou transito.
Ela reza quando se decide a rezar e fá-lo, dedicada e inteira. No pequeno altar improvisado do quarto onde moram santos altos e pequenos, nossas senhoras de Fátima, de olhos húmidos e vestes amareladas do tempo, meninos Jesus pequenos e gordos, em palhinhas.
- Então reze muito, por favor.
E entrego a minha fé envergonhada à fé inabalável dela e fico descansada.
Porque sei que as minhas orações vão, pela boca da minha mãe, aos pares, direitinhas aos ouvidos de um Deus que a razão me impele a não aceitar.
Mas que uma fé inexplicável me leva a acreditar.

25/12/09

boas festas

para todos vocês, Feliz Natal.
um beijo
Laura

03/12/09

às vezes não, às vezes sim

às vezes apetece-me ter cabelo comprido e às vezes não.
às vezes apetece-me pintar os lábios de vermelho e às vezes não.
às vezes apetece-me ter os lábios compridos e o cabelo pintado de vermelho e às vezes não.
às vezes sim umas coisas e às vezes não tantas outras.

às vezes apetece-me ouvir o silêncio e às vezes não.
às vezes apetece-me rasgá-lo com a voz e os objectos e às vezes não.
às vezes apetece-me ouvir as pessoas e a voz e as histórias delas. às vezes não.
às vezes ouço a antena 2 às vezes não.
às vezes ouço a minha consciência às vezes fecho-lhe a porta na cara.
às vezes gosto de ouvir a tosse do vizinho de cima às vezes não.
às vezes apetece-me agarrar tudo com muita força e às vezes não.
às vezes apetece-me agarrar tudo com muita força e de unhas pintadas de vermelho
e às vezes não.
há dias em que sim e há dias em que não.
há dias em que sou assim e há dias em que não.
e depois há dias em que acordo primeiro que o meu corpo
e fico a ver-me de cima o dia todo
e a pensar "às vezes sim" "às vezes não"
e a escrever num caderninho o sim que podia ser não
e a escrever o não que podia ser sim.
eu sou assim. em muitos dos meus dias.
às vezes não. às vezes sim.

27/11/09

os meus filhos

é assim que eu escrevo as minhas peças de teatro.
ando a semear ideias e palavras pela casa durante uns dias.
deixo-as em pó nos móveis, em cabelos nos tapetes
deixo-as a marinar no silêncio durante o dia
a germinarem no sono das minhas gatas.
e depois um dia chego a casa e sento-me
e deixo que elas me ataquem devagarinho
todas, ao mesmo tempo, muitas, todas.
sento-me então, muito mãe,
e precipito-me sobre um papel ou um teclado
e escrevo, seguido, o embrião da minha peça.
e depois de parido, mimo-o, afago-o, modelo-o
e um dia, finalmente, sei que está crescido, robusto,
e pronto.
e é mais um filho que me sai da alma.
directamente para um palco.
que é onde os meus filhos estão bem.

22/11/09

sure

gostava de acreditar que aquilo que está escrito não mais pode ser apagado.
gostava de acreditar que há marcas indeléveis.
gostava de ler as palavras, gemidas, das minhas mãos.
e marcar, então, a tinta
um percurso inabalável, sereno
que certamente me levasse
e tão simplesmente
eu me deixasse ir.

pois...

o que nos faz sentir pequenos, às vezes, não tem nada a ver com o tamanho.

19/11/09

buscopan


dois dias antes de vir o período as mulheres enlouquecem.
eu pelo menos sou assim.
para além de me sentir a mais infeliz das mulheres
vejo espiões nas esquinas e assassinos no metro
alienígenas no supermercado
e criaturinhas vis agarradas às persianas do quarto.
irritam-me o anuncio do Pingo Doce e a animadora matinal da M80.
se não recebo uma sms acho que as pessoas me esqueceram
se a minha mãe não me dá mimos eu telefono-lhe a cobrá-los
apetece-me sempre comprar um trapinho nessas horas miseravelmente tristes: um basicozinho da Lanidor,
um casaquito de malha andadeiro naquela cor que dá com tudo.
apetece-me um tónico capilar e um episódio lamechas da serie “irmãos e irmãs”
apetece-me estupidamente chocolate
arrebatadoramente uma caipirinha
e choro se me põem à frente, para jantar, açorda ou carapaus.
choro a caminho de casa com uma musica
e depois quando paro na portagem não olho para o senhor,
para disfarçar a pintura borrada.
choro uma pinga porque mandei uma cotovelada numa esquina
ou virei o pescoço depressa demais e fico com aquela dor “eléctrica”.
choro porque as sobrancelhas não estão arranjadas.
choro porque sim e porque não.
e rio depressa demais de coisas que não têm qualquer graça
e a seguir choro da vontade estúpida de ter rido.
tenho os nervos debaixo da camisola, abraçados à epiderme
prontos para um ataque indubitável, às dentadinhas.
uma dia antes de vir o período as mulheres enlouquecem menos.
eu também sim.
fico-me pelo buscopan e um pacote de lenços de papel, à mão,
para o caso de ter que chorar em sítios pouco próprios.

i just wanna be me

não quero ser
actriz famosa
cantora imortal
dançarina referencial
não
quero apenas ser-me a mim
com as roupas guardadas de anos
que andam comigo de peça em peça
com os objectos cheios de segredos
e com as pessoas que me acompanham
essas sim, vestem-me de coisas
roupa memórias referências cores sinais
não quero ser outra
quero ser-me assim: eu.
com todos os outros
e as outras de mim.

11/11/09

where do i begin

às vezes tenho vontade de pegar em certas coisas, metê-las dentro de um frasco,
fechá-las,
abanar o frasco violentamente
até doer a mão e o braço
até que essas coisas percam os seus contornos
e se transformem numa massa informe e desmaiada,
e depois deixar repousar.
abri-lo, então, outra vez
e
comprovar que as coisas que nos incomodam
podem nunca deixar de fazer parte das nossas vidas,
mas podem, e às vezes devem, ficar arrumadas noutro lugar.

tau tau


ou apanhar nos dentes.
ou apanhar uma laustíbia.
ou um piparote.
também pode ser uma galheta.
se bem que uma lambadinha é sempre um gesto com mais ternura.
uma vez decidi meter-me no meio de uma confusão entre marido e mulher.
a mulher apanhava do marido à força toda, no meio da rua, defendia-se como podia pois era pequenota e ele, bastante mais alto, parecia um macacóide, socava-a onde podia.
ora eu saí do carro com os dentes cerrados, punhos preparados e cheguei-me e eles e gritei “largue-a! não tem vergonha?”.
mas não, meus caros amigos, não foi ele que se virou a mim. não. foi ela.
desgrenhada, vermelha que nem um tomate, ajeitou os cabelos furiosos, pôs as mãos à cinta e disse-me, com uma pronuncia vernácula, de norte:

“o marido é meu e dá-me porrada quando quiser!”.
eu de início nem acreditei naquilo que ouvi e acabei por me retirar com uma cabeça que mais parecia um melão e quando cheguei ao carro todos me atiraram a velha máxima "entre marido e mulher ninguém mete a colher".

e by daí, nunca mais meti.

09/11/09

mulheres bonitas (5)

gong-li

almoços de família

gosto de almoços de família, com a família toda junta, à volta de uma mesa.
gosto de almoços de família volantes com a família de pratos na mão a tagarelar na sala, na cozinha, no corredor.
gosto do cheiro a comida e perfumes que se mescla nos almoços de família.
do tilintar do vidro dos copos e das gargalhadas.
gosto da musica da família dos almoços de família:
das conversas cruzadas, das pulseiras e da satisfação.
gosto da família aos domingos
com olhos de cama e roupa bonita
com voz de rádio e cabelo lavado.
gosto dos abraços nos almoços de família
dos cigarros fumados em conjunto
das tartes de limão e dos cafezinhos depois de almoço.
gosto do ar bonacheirão e satisfeito com que a família se espraia depois de um almoço de família.
parecem gatos felizes nos sofás, que comeram principescamente, têm mimos e são bem tratados.
é das imagens mais próximas que eu tenho da perfeição.

este domingo tivemos um e foi muito bom…

02/11/09

Bilhete para Pedro Almodovar


hei-de escrever um bilhetinho ao Almodovar
que lhe vá certeiro ao coração
que o deixe sem forças nas pernas
com as mãos trémulas e a voz embargada.
um bilhetinho simples e directo
com um bocadinho de perfume
dobrado na pontinha superior direita
escrito com a minha letra, a preto,
que reze assim:



olá, Pedro, olha..
se te encostares a mim
(e não penses com isto que sou louca desvairada)
e ficares em silencio
só a ouvir o barulho do arquivo do meu cérebro
durante 5 minutos,
vais ver que será o suficiente para ouvires
a quantidade incontável de histórias de mulheres
que nunca vou conseguir escrever.



Laura

cantiga


as mulheres de tornozelos finos
têm um não sei quê de frágil
que a mim me dá vontade de escrever.
parecem-me, os tornozelos, notas musicais, jarras esguias, palhinhas de refresco…
e então quando caminham, ondulantes, de saltos finos, ao sabor do vento,
empoeiram-se-me os olhos com uma cantiga invisível
e fico ali com ar apatetado
a beber aquele serpentear de estímulos
e a pensar na sorte que tenho, eu própria, em ter tornozelos finos
e ser capaz de ouvir, em certos dias,
a modinha do meu próprio caminhar.

30/10/09

some like it hot

um dia destes roubo umas flores da autarquia
pinto o cabelo de louro, corto-o bem curto, faço um "shot" de hidratação
aprendo a falar inglês macio
e a fazer um vibrato de veludo
ponho nos lábios um gloss daqueles que duram muito tempo mesmo depois de beijar
desenho um risco perfeito, nos olhos, de eye-liner
faço uma exfoliação corpo e cara
faço as unhas
e a cama de lavado
e scones com geleia
preparo um tabuleiro com um pano do enxoval
e meto-me na cama ao fim-da-tarde
a cantar baixinho o "poo poo pee doo".
e depois desta lista de coisas sentir-me-ei uma estrela
que mesmo sendo desconhecida
espalha elegantemente os cabelos na manta de seda
segura uma flor de encontro ao peito
e acredita que as pequenas coisas podem dar origem a grandes momentos.







mulheres bonitas (4)

kim novak (Vertigo)

28/10/09

pérolas (1)


"óculos de sol", 1999. Palavras Loucas Orelhas Moucas.

26/10/09

that old devil called lau

penso muitas vezes nisto “quando for velha vou ser assim ou assado”.
farto-me de rir com as amigas e as irmãs a conjecturar sobre a cor do cabelo ou os tempos livres.
gostava de ser uma velha “rapioqueira”.
o Word não reconhece este termo, mas eu uso-o para designar alguém com
energia, vontade e óptima disposição.
é assim que eu gostava de ser.
e loura, também.
já agora, magra.
com ossos fortes.
sem pigarro.
com gatos.
com a curva da cintura definida.
sem crises de memória.
com uma cadeira de baloiço.
pouco surda.
sem varizes.
com as pessoas que gosto ainda vivas.
com muitos livros para ler.
com ainda mais cadernos para escrever.
com uma colecção esmagadora de lápis.
com uma colecção patética de borrachas.
com uma coleccção estupidamente absurda de canetas de várias cores.
com uma parede cheia de fotografias de coisas idas e queridas.
com o cabelo mui comprido.
com recortes impensáveis.
com as unhas pintadas.
com baton gloss.
com Moet Chandon para bebericar ao fim da tarde.
com calças justas e botas rasas.
com aulas de ginástica uma vez por semana.
com férias marcadas numas termas.
com pão com manteiga e café com leite.
com riso forte.
sem negro.
em paz.

mulheres bonitas (3)

Loretta Young

este país não é para pombas

quem é que inventará as… cenas?
por exemplo, o termo “estou feita ao bife”. porque não dizemos antes “estou feita ao “filé mignon”? além de ser mais giro o filé quando é bom mete o bife num sapato.
agora usa-se muito o termo “estás-te a esticar”.
acontece-me de vez em quando ouvir assim umas coisas, arrebitar as orelhas face ao total desconhecimento do termo e passados dias ver-me a usá-lo, quase sem me dar conta.
é como quando se diz “tótil” ou “bué”.
gosto mais do “tótil”, se bem que eu ainda sou do tempo do “n”.
estou “n” contente. trabalhei “n”.
fica muito mais giro do que estou “bué” contente. trabalhei “bué”.
em Valongo há toda uma serie de termos que ainda agora me fazem corar. de espanto.
as pessoas chamam-se entre elas “pombas”, “mor” e “rei”.
é vê-las, nos supermercados, com os carrinhos cheios de refrigerantes e leite gordo, com as barriga a verter das calças, a murmurar num sotaque irrepreensível: “ó pomba tens a chabes?”.
ou então os pequenitos ranhosos sentados nos carrinhos a tirar macacos e a fazer com eles bolinhas, e a ouvir a mãe com o cabelo até à cinta a dizer: “tira a mão do nariz, rei!”.
ora tudo aquilo me faz uma confusão bestial.
quer os refrigerantes, quer o leite gordo, quer as barrigas, quer o “rei” e a “pomba”.
ontem fazia compras no intermarché e estou eu na zona dos legumes quando uma senhora velhota viúva de cabelo ralo aos caracóis me pergunta
com um alho francês todo esticado: “ó pomba isto pesa-se adonde?”.
e eu respondi “não sei minha senhora” e logo um senhor baixinho parecido com uma sagres mini, de bochechas vermelhas e barba à capitão Iglo interrompe e exclama num português perfeito “atão bocê não sabe que se pesa na caixa?” – e riu um riso tabágico e mostrou-me a sua rara colecção de dentes e continuou, de chinelos de quarto encabeçando uma família de “bolas” – a mulher, que se rebolava de fato de treino pelos corredores, e as duas meninas, com vestinhos 2 tamanhos-abaixo, que ainda não rebolavam completamente mas iriam fazê-lo muito em breve.
de cada vez que vou ao supermercado aprendo um termo novo e demoro-me sempre mais do que queria já que fico embasbacada a olhar para aquela gente a pontapear abusivamente a nossa amada língua, como se fossem realmente reis e rainhas, ofuscantes e magnificentes, em toda a sua majestade gramatical.

22/10/09

mulheres bonitas (2)

Veronica Lake

m o s c a s

há coisas que me irritam de sobremaneira.
as moscas são uma delas.
e a culpa é da minha aurora, que quando limpa a casa deixa as janelas abertas de par a par como se fossem uma boca escancarada.
deixa as janelas abertas e as moscas entram.
deixa-me a mim nervosa e às minhas gatas também.
portanto em minha casa moro eu e duas gatas. somos 3.
3 fêmeas nervosas por causa de moscas.
porque às tantas ando eu a chamar nomes às moscas e as minhas gatas em duas patas a emitir sons terríveis com as boquinhas pequenas.
ouvi dizer que as moscas no Outono ficam “chochas”.
não sei o que isso quer dizer mas provavelmente é verdade pois elas rondam-me meias tontas e de vez em quando pousam nos sítios mais incríveis, já pousaram no lábio inferior e imagine-se, no mindinho.
ora isso ainda me põe mais irritada.
é que as minhas gatas gostam de comer moscas mas eu não.
ontem declarei-lhes guerra aberta com um pano da cozinha.
e as gatas ficaram sentadas, a ver-me aos puxões e investidas violentas, com esgares e roncos,
nunca tinha visto as minhas gatas com cara de parvas mas ontem vi.
matei 3.
ficaram as mais resistentes para o combate final, que se avizinha.

20/10/09

mulheres bonitas (1)

Lupe Velez

gosto de mulheres bonitas.

com sobrancelhas arranjadas, unhas pintadas, cinturas finas e cabelos lustrosos.

sou capaz de ficar a vê-las passearem-se como se escrevessem poemas com os saltos altos

sou capaz de as fotografar à socapa, ou nas barbas delas.

gosto de lhes ouvir a voz e roubar os assuntos

gosto da forma como sofrem e abrem o pacote do açúcar

gosto de as ver beber água e escolher uns sapatos.

e porque gosto delas, das mulheres bonitas,

e como conheço tantas

umas pessoalmente, outras só das imagens,

decidi trazê-las aqui

com jeitinho com alma com um sorriso.

e voilá.

19/10/09

a miúda que gostava da rapariga chinesa e de orquídeas

(fotografia de Teresa Queirós)



e eu fiquei a ali a ouvi-la,

a beber as palavras com cheiro a chá

a ouvir as imagens com cheiro a cinema

ela disse muita coisa

falava como uma miúda um sentir de mulher

de vez em quando escondia o rosto nas mãos

às vezes mordia o lábio e levantava-se e saltava

empurrada pelas palavras que lhe saltavam da boca

bebericando um chá vermelho perfumado

esgueirando os olhos para a orquídea ou para o quadro da menina chinesa com uma borboleta nas mãos

"gosto dela" - disse-me com uma voz pastel.

e eu continuei a ouvi-la, aquela menina-mulher que parecia ter borboletas e flores a saltarem-lhe dos olhos grandes que roubou à mãe

e ouvi-a contar-me, com voz de veludo, um filme real

e via-a fazer, com mãos sábias de gata, festas sedosas às minhas gatas

e vi-me de repente a estabelecer, com ela, uma ligação irreal

daquelas que não sabemos explicar como acontecem

mas que nos deixam na boca um paladar a música, cinema, perfumes e palavras.



(para a Teresa Queirós.)

o que eu aprendi com a luz

(uma e outra, deitadas no linóleo preto de um palco vazio. )

- sentes? o calor dos projectores?
- sim.
- e o barulho? aquele fiozinho de som, da luz..
- sim.. foste tu que me ensinaste a ouvir. o que é que eu te ensinei?
- outros sons.
- diz-me.
- as palavras… no meio das deixas.
- é verdade. o barulho do mar naquele texto do marinheiro. o som das bainhas do vestido a serem descosidas.
- sabes outra coisa que eu ouço?
- o quê?
- o som do teu cabelo.
- (risos) e como é o som do meu cabelo?
- é folk.
- folk?
- sim.
- e o que é isso do cabelo ter um som folk?
- um dia explico-te.
- explica-me agora.
- oh é a mesma coisa que o som nas luzes e no intervalo das deixas.
- pois. é especial.
- estás com os olhos pequeninos e suados.
- é dessa mania que tu tens de dizer assim coisas.
- ouviste?
- o quê?
- este barulho… parece um tilintar, de tecido.
- é o quê?
- é o som das tuas pestanas.
- (risos) achas que mais alguém acredita nisto?
- sei lá.
- eu gosto de acreditar.
- eu também.
- gosto da tua saia.
- e eu gosto da forma como dizes o texto das cadeiras.
- gosto de fazer teatro, coisas parvas, teatrices…
- e eu gosto de ti.

(para a Patricia Miranda.)

13/10/09



apresenta




E se um dia o seu companheiro a fechasse, à chave, no quarto de dormir e deixasse um papel colado na porta a dizer "Tira o dia. Aproveita para ficar em casa e pensar em nós".
Isto seria para si, no mínimo, estranho? Normal?

Seria uma atitude egoísta ou infantil? Irracional, deliberadamente provocatória?

Se ainda por cima não tivesse cigarros, telefone e sobretudo paciência?...Se calhar nunca pensou nisto e é bem provável que nunca lhe tenha acontecido.

Mas pode acontecer... e aconteceu.

E queremos contar-lhe como foi...



Autoria, interpretação e encenação

Laura Ferreira

Participação especial

Gasolina com o texto “Fôlego”

Música

Monolab

Fotografia

Pedro Tudela

Vídeo

Tiago Silva, Rui Ferreira e Nanci Sousa

Desenho de Luz

Luis Ribeiro / Patricia Miranda



FÓRUM CULTURAL DE ERMESINDE

16 A 18 DE OUTUBRO - 21H45
preço dos bilhete 5 EUR (estudantes 3 EUR)

Reservas pelos nº 91 925 99 35 / 96 29 65 763

08/10/09

dkgfuivn ojiaerbn obvk jiwe+roc

procurou-as incessantemente em rios e mares.
não conseguia perceber porquê, porque lhe haviam tirado as palavras a ela,
a ela que sempre precisara delas a ela que as tratara sempre tão bem.
procurou-as incansavelmente em livros e obituários
em menus e revistas, em jornais e manuais técnicos.
continuava sem saber o porquê de tal castigo
e abstinente, emagreceu uns kilos e puniu-se
comprou cremes de cara, novos, para ver se ficava com a cara mais alegre
comprou um rímel milagroso e um batôn mate,
um candeeiro novo para a sala e uma colcha cor-de-rosa para a cama.
e voltou a procurar as palavras
no pó de debaixo da cama
na máquina da roupa
nas tigelas de marmelada.
continuou sem perceber a razão daquela punição tão severa
e não encontrando uma razão plausível para tal
abandonou-se a um choro copioso
mas chorou tanto tanto tanto
que deve ter despertado o enternecimento de algo ou alguém
e então uma noite, encolhida no sofá, de olhos inchados e sem vida,
sentiu uma coisa na garganta, julgou tratar-se de tosse,
sentiu-a, primeiro fraca depois forte,
tão forte a pontos de a engasgar de morte.
e foi então que elas assomaram à sua boca aos trambolhões
as palavras
acumuladas, de dias, de lugares e nervos
de insónias e tormentos e memórias.
cuspiu-as de uma vez para poder respirar
saíram grandes, pequenas, a negrito, sublinhadas,
e então pegou no caderninho preto
e feliz, escreveu escreveu escreveu
até chorar de olhos bem abertos
até desmaiar de cansaço
até a boca ficar seca delas, de palavras.
e mesmo a dormir continuou a escrever
até ao dia seguinte.

01/10/09

um dia destes agarro numa máquina fotográfica e vou para a rua recolher imagens.
com vida.

16/09/09

encontrar a nossa cor.

nem que seja numa fotografia.

02/09/09

PALAVRAS LOUCAS
ORELHAS MOUCAS
Associação de Teatro

apresenta
"CRÓNICA FEMININA"
de Laura Ferreira
“Gosto de raparigas. E das coisas delas… …ir aos pares à casa de banho,
ir às compras sem ter nada para comprar....
Gosto de mulheres baixas, altas, faladoras, silenciosas.
Eu sou gaja p’ra chorar aí uma vez por mês.
Gosto do cheiro da minha mãe!
- Achas que os sapatos de cunha favorecem as raparigas que têm as pernas grossas?
Gosto do vermelho da pele depois de um dia de praia…
Dança comigo em Espanha, em Tóquio, numa fila da VCI…
Eu adormeço sempre a pensar em coisas fúteis!... "

Num espectáculo ao jeito de uma crónica, queremos mostrar-lhe:
… como pensam as mulheres, porque choram, porque riem, porque se emocionam…
…de que falam quando vão aos pares à casa de banho, porque discutem com eles…
…porque são, no fundo, especiais…

Autoria e Encenação: Laura Ferreira
Com: Joana Melo Costa, Nanci Sousa, Gisela Baltazar, Laura Ferreira, Rosário Nascimento
Vídeo: Tiago Silva e Rui Ferreira
Desenho de som e música: monolab
Desenho de Luz: Luís Ribeiro

10 a 13 de Setembro / 21h45
Fórum Vallis Longus Sala das Artes
Avenida 5 de Outubro, s/n VALONGO


Preço dos bilhetes: 2,5 EUR
Disponíveis para venda, no local, a partir de 01 de Setembro
Nº telefone para reservas: 93 229 26 52/ 22 240 20 33
Reservas válidas por 48h
espectáculo para M/12 anos
plom@gmail.com

05/08/09

férias


Férias quase à porta...

Com as férias à porta temos sempre alguma coisa para dizer às pessoas, no elevador: está quase, bem merecidas... agora que estão perto parece que o tempo não passa...

Eu própria já sinto o sabor delas, já as ouço ao longe a chamar, com voz de miúda...

o Photomaton vai entrar de férias comigo e voltará nos primeiros dias de Setembro.

Na mala levarei um caderno para escrever coisas.

No coração levo este meu tesouro e prometo voltar depressa.

A todos os que aqui costumam vir, o meu desejo de bom descanso.

Um beijo e um abraço. Até já.

Laura


23/07/09

9 to 5


era mais fácil usarmos uma farda à semana, para não ter que decidir o que se veste todos os dias.
eu já tive fases em que decidia na véspera o que vestir; deixava tudo dobradinho: calças, blusa, sapatos, pulseiras, carteira.
mas depois acordava de manhã e nunca me apetecia vestir isso e então deixei de escolher na véspera.
também já tive fases em que me deitava e detinha-me a pensar na toilette do dia seguinte. a maior parte das vezes adormecia e só tinha escolhido as calças. mas isto ainda me dava mais trabalho, na manhã seguinte, pois tinha de fazer um esforço para me lembrar o que tinha pensado na véspera (e esquecido, entretanto) e como acabava por nunca me lembrar, tinha de escolher outra vez.
hoje em dia penso enquanto tomo banho, depois do pequeno almoço.
não sei muito bem porque é que estou a escrever este texto, mas esta imagem fez-me pensar nos 5 dias da semana…

15/07/09

conversas de luz apagada (julho)

- não cheguei a dizer-te porque é que gosto de Junho… e já estamos em Julho.

- não queres dizer antes em Agosto e assim arrumas logo os 3 meses – gargalhada dele, alta, um bocado histérica.

ela olha-o. parada. suspira.

- pronto, pronto,… - diz ele com um beijo desajeitado e molhado, na face.

- olha lá…cuidado… pús creme na cara… - ela deita-se de barriga para o ar, meia afastada, mãos cruzadas na barriga.
(pausa).ela com os olhos presos no tecto. ele olha-a pelo rabo do olho.

- diz lá porque é que gostas de Julho…

- não te disse de Junho por isso também não posso dizer de Junho. as duas coisas estão ligadas. complementam-se.. – e volta-se para o outro lado. – até amanhã… - diz num fio de voz com os olhos bem abertos.

- não pensei que isto dos meses fosse assim uma coisa tão importante para ti, desculpa… - ele espera uma resposta que não vem. – aproxima-se dela. encosta um pé. depois as pernas. depois tudo.

- tu gostas de Junho e Julho e eu gosto de ti. – diz numa voz rouca. e a seguir perde-se no cabelo dela.

myspace

fot. laurie s.

tenho um caderno preto onde escrevo todas as noites quando já estou deitada
é tão giro escrever deitada
sem pinturas
quase sem luz sem ninguém sem reservas sem assunto
sim sem assunto sem saber o que vai sair
a mão corre desgarrada aos ziguezagues ao sabor do que penso
sem saber o que penso penso tudo misturado
parece que estou a fazer um bolo e os ingredientes são as palavras
os olhos fecham-se as palavras escorrem-lhe dos cantinhos
ah e também faço coisas gráficas assim uns desenhos que não lembram ao diabo
mas preciso preciso daquele momento meu
em que sou eu e o papel
num encontro apaixonado perfeito
que se consuma todas as noites e me faz adormecer de cansaço….

a rapariga que apanhava pancada porque gostava de arte e a rapariga solitária que descobriu o amor

fot. laurie s.

quando ela quis falar de arte a primeira vez com os pais eles deram-lhe um enxerto

e diz-se que foi a partir desse momento que ela começou a ficar estranha e a fazer coisas bizarras tipo comer batons e roubar sapatos dos mortos nas capelas e levá-los para casa
os pais viram-se gregos para que aquela menina endireitasse e não endireitou
e também não namorou nem casou
coleccionava tudo quanto era fotografias fazia recortes roubava revistas
chorava com filmes ficava embasbacada a olhar para as pessoas e gostava de raparigas
a mãe tinha um grande desgosto por ela gostar de raparigas mas ela gostava
e a sua maior paixão foi uma vizinha sozinha que tinha um cão que era cego
e ela a vizinha era tão tímida que quase nem falava e chamava-se Margarida
de maneira que as duas passavam a vida juntas e passaram a curta vida juntas
ela falava sobre arte e a Margarida ouvia
ela falava sobre sítios onde nunca tinha estado mas que conhecia dos livros e a Margarida deliciava-se
ela proferia declarações de amor decalcadas dos grandes clássicos do cinema e a Margarida ria e chorava ao mesmo tempo
amavam-se amavam-se muito.
diz-se que morreram juntas porque não quiseram morrer separadas
e fizeram-no à filme e deixaram um bilhete a dizer “nós amámo-nos muito, ouviram bem?”
e no papel a marca de baton vermelho das duas bocas sobrepostas
e quando as encontraram de mãos dadas mortas frias
tinham a pele branca e a boca vermelha
e estavam de vestidinho vermelho e saltos altos
e quem as conhecia disse oh se disse
que aquelas duas mulheres nunca tinham estado tão belas
e houve quem tirasse um retrato às duas mortas de amor e o guardasse
e o espolio extraordinário de um amor de tantos anos
de objectos dengosos fotografias delicodoces
filmes em vhs e cassettes de música amorosa
citações capazes de fazer chorar as pedras
desapareceu num ápice num instante
ninguém sabe como como pode ele ter desaparecido aquele espólio
mas ficou
ficou a imagem daquelas duas mulheres
de mãos dadas frias e muito tranquilas:
a que gostava de arte e apanhava pancada
a que falava pouco mas descobriu o amor.

11/07/09

chá verde e pão com manteiga


ela pensava mais em coisas idiotas. ele pensava mais em coisas sérias.

ela gostava de salada com vinagre. ele gostava de salada com azeite.

ela gostava de animais. ele gostava de livros.

ela gostava de chorar com uma comédia romântica. ele gostava de descobrir nos filmes referências de outros filmes.

ela gostava de dormir com a luz acesa. ele gostava de dormir com a luz apagada.

ela gostava da cartilagem das pernas de frango. ele gostava de ovas de salmão.

ela gostava de vestidos às flores. ele gostava de pólos.

ela gostava de apanhar sol. ele gostava de sombra.

ela gostava de tetris. ele gostava de xadrez.

ela gostava dos "irmãos e irmãs". ele gostava das "mentes criminosas"

ela gostava de figuras de santas. ele gostava de peças chinesas.

ela dava-lhe molleskines com colagens amorosas. ele dava-lhe viagens incríveis.

ela ria-se alto. ele ria-se baixo.

ela fazia fitas. ele gostava de adormecer no sofá.

ela era elegante às vezes. ele era elegante todos os dias.

ela era diferente dele. ele era diferente dela.

mas na maioria do tempo que estavam juntos eram felizes.

10/07/09

“o amigo que deixou de ser”

nas amizades eu deixo-me encantar.
entrego-me, confio, ajudo, suporto e… amo. do fundo do meu coração.
confio tão plenamente que invisto todo o meu ser emocional naquele outro… ser.
nunca me passa pela cabeça que possa haver, a partir daquele momentozinho em que decido dar
dar tudo o que tenho - àquele Amigo - que ele possa esquecer ou simplesmente… ignorar.
há muitos anos que o meu coração tinha um grande portão, até ao céu,
e era preciso que alguém soubesse “bater” muito bem, para lá entrar.
e depois de merecer lá ter entrado, saber ir ficando; primeiro à porta, depois cada vez mais para dentro…
até entrar no meu mundo.

às vezes precisamos de chorar os amigos que deixam de estar no nosso coração.


estas palavras são o ponto final do último amigo que eu deixei entrar no meu;
preciso de escrever estas palavras porque nunca as direi pessoalmente,
porque já não há espaço e assim não há motivo
porque esse amigo saiu sem ter avisado, sem sequer me ter dito “obrigada”.

fica a memória, que por ser tão breve em breve se apagará.
ficou a desilusão que por já a ter chorado já se apagou.

e fica o portão aberto, para o meu coração,
para todos aqueles que mereceram um dia lá ter entrado
e de quem serei amiga
até ao fim.

07/07/09

bye


não me conformo e choro a morte de alguém que não conheci.

sublime a Música que nos vê de cima e nos encanta e nos guia, pela vida.

a minha vida é guiada por música, é respirada por música, é regada por música, é mantida por música.

e certas músicas da minha vida são já quase parte do meu corpo

e certos artistas são-me tão familiares que lhes consigo sentir o bafo ou o perfume. da pele.

não me conformo e choro porque hoje queria ter sido maior que a música.

para quem sabe dizer ao ouvido de alguém que também parte de mim continua presa a uma qualquer terra do nunca, remota existência da infância,

e que isso é muito bom e louvados sejam aqueles que o conseguem fazer para nos dar essa experiência em forma de arte

seja ela qual for e neste caso em forma de música.

hoje estou triste, choro e se por ventura estas palavras não fizerem qualquer sentido não importa, não vou voltar atrás para as corrigir

não quero são assim são minhas

são as minhas palavras tristes

no dia em que eu pela primeira vez quis ser maior que a Música

para te ver de cima.


(para mj)

e viveram felizes para sempre

um dia alguém decidiu tirar dali aquele balde do lixo
e ela ficou sem ter a que se amparar.
decidiu, pois, ir até ao centro de dia
e por lá conheceu um viúvo e por lá casou
ficando eternamente agradecida por alguém, naquele dia, ter pensado
que um balde do lixo podia, quem sabe, fazer uma mulher feliz.

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