05/02/09

vai estudar, Laura Marisa! a voz da minha mãe soava zangada “ai estou zangada estou”!
põe-te já imediatamente a estudar! queres uma escalfeta? vai indo que eu levo-ta lá! gira!
gira, eu? não, dizia ela com alguma irritação “gira mas é para o estudo” e eu metia pernas ao caminho, cabisbaixa, com ar de cadelinha triste.
e eu, menina, com tristeza de velha, metia-me numa das divisões da casa que estivesse vazia, espalhava livros e cadernos e lápis e borrachas. canetas de muitas cores. (sempre as canetas…)
a minha mãe punha pouco depois a escalfeta aos meus pés, uma mão no ombro e a seguir uma pancadinha de solidariedade. vá, estuda bem que é para teres pelo menos um “suf” amanhã no teste.
eu ficava a vê-la sair.
e entretanto o calor penetrava-me pelos pés e subia subia, indolente, ondulante, pelas pernas, numa carícia reconfortante e à minha frente as letras dos livros a saracotear numa sedução que me deixava tonta. e eu a lembrar-me de uma história.
e um cão latia sete casas abaixo, e eu a lembrar-me de outra história.
e o meu irmão tocava no piano os nocturnos de chopin e de repente o ar enchia-se de um cheiro quente de ferro de engomar e… lembrava-me de outra história.

eu escondia os meus diários no meio da livralhada e neles, escrevia as histórias, as histórias que me assomavam do quente do corpo, do perigo de ser descoberta, da amplitude desmedida do meu mundo interior…
ficava três, quatro horas a escrever coisas. escrevia sobre tudo e sobre nada.
estudo é que nem vê-lo.
e depois sentia-me mal porque estava ali a enganar a minha mãe e ainda por cima com os pés quentinhos.
tirava más notas, pois claro, e sofria as consequências: castigos e puxões de orelhas.
mas, fartei-me de encher cadernos.
e, graças a esses tempos, consigo ainda hoje escrever sobre qualquer coisa e continuo a encher cadernos e folhas e molleskines.

esta foi uma pequena pausa no meu estudo.
já não tenho diários escondidos no meio dos livros.
mas ouço barulhos que me despertam frases e sinto cheiros que me trazem cores.
não tenho os pés numa escalfeta, mas tenho-os quentes.
e o meu coração ficou bem mais quente depois de ter escrito.

10 comentários:

Anónimo disse...

Que lindo! Imagino-te tão bem nesse tempo...nesse espaço meu conhecido.
beijo grande, enorme
marisa

CNS disse...

Fui engolida pela doçura destas memórias. Lindo!

um beijo

Teresa Durães disse...

os meus tempos de estudante... mas a minha mãe nãome chateava porque tinha boas notas e por isso confiava. claro que dentro dos livros estavam outras histórias não escritas onde divagava

Carla disse...

e como entendo estas palavras que me levaram a tempo em que inventei histórias em locais que eram só meus...papéis que escondia entre outros papéis e as palavras que sempre me acompanharam quer na solidão quer em momentos de multidão
beijos

Patti disse...

E benditos cadernos e apontamentos e folhas soltas, que agora nos permitem ler estes textos lindos.

vida de vidro disse...

Ainda bem que nunca desististe de escrever! Abençoados cadernos. **

Laura Ferreira disse...

E que bom que é sentir que as minhas palavras chegam a todas, de formas diferentes é certo, mas chegam.
O maravilhoso da escrita é que ela além de ser um tesouro nosso, também pode ser dado, na palma da mão, aos outros.
E eu dou-vos, a todas, as minhas duas palmas cheias de palavras.
Obrigada por estarem aí.

Um beijo e abraço.

Para ti, minha Marisa, que nos une o sangue e um amor incondicional, vai um bocado do meu amor.
Estive a jantar com a Ró e o Pedro, falei com a Sandra, é muito bom estar com eles e ouvi-los.
Também te ouço, muitas vezes, na saudade.

Amor, querida, sempre.

pin gente disse...

ai quando as mães nos chamam pelos dois nomes!
eu, que só dei um a cada um dos meus filhos, uso um apelido...

linda e doce a tua história.
benditos cadernos.

um beijo, laura

Anónimo disse...

minha Lau, emocionaste-me com essa "declaração" que sabes ser correspondida,
fiquei a pensar que há 24 anos quando daí saí, não imaginava que um dia podia ser possível assim um"fio" de ligação. Bendita a técnica, bendito o computador, bendita a internet, mas acima de tudo, benditos os que como tu alimentam almas...

beijos enormes

marisa

Mary Joe disse...

http://desaltosaltosvarios.blogspot.com/

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