14/05/09

as meninas resplancedentes



passei longos anos da minha vida, na meninice e pré-adolescência, a ver as minhas irmãs e primas a arranjar-se para sair à noite.
a memória mais remota coloca-me com o queixo ao nível do lavatório da casa de banho para ver as meninas a pintarem-se.
e fascinada, a minha mão deve ter aprendido aqueles movimentos, pois hoje sou capaz de pintar-me com os olhos fechados.
fascinada, os meus olhos bebiam tudo; rímel, rouge, batôn, perfume, roupa, calçado…
e depois elas iam, e eu ficava.
saíam, fortes, com a postura das mulheres bem arranjadas, que se sentem giras, com os belíssimos caracóis mais vivos do que nunca…
aos 14 anos, estava eu no Algarve com a família e eis que surge a tão esperada possibilidade de… “sair à noite”.
e aconteceu o que acontece nos contos de fadas; aquelas meninas (irmãs e primas) levaram-me com elas depois de dizer “ó lau, queres vir connosco?”, vestiram-me, maquilharam-me, pentearam-me, perfumaram-me e levaram-me àquela que foi a primeira discoteca onde entrei: o “summertime”.
e eu, lau adolescente, com óculos e borbulhas, meia assarapantada, a sentir-me visceralmente grande, com a cara pintada como elas, sem óculos, a roupa escolhidíssima como a delas, perfumada e com uns sapatinhos brancos e prateados (a saia era indiana, cor-de-rosa e uma blusa sem manga de rendas, igualmente cor de rosa… ainda me lembro do barulho dos sininhos da saia indiana, eu nessa noite também era a fada sininho, só me faltava voar…)

o “summertime” era um sitio magnifico, com sofás vermelhos de veludo e pequenas mesinhas, era uma discoteca à antiga, com a pista no meio dos sofás, uma bola gigante, uma aparelhagem potente e aquele cheiro de felicidade misturado com música e corpos morenos.

na altura eu estava convencida que era a miúda à face da terra que mais gostava da Rita Lee; além de lhe conhecer a família toda eu ainda sabia que ela gostava mais de peixe do que de carne, que fazia imensa ginástica, nome dos filhos, da mãe, do marido, do 1º namorado, etc.

e entro então no “summertime” com as meninas resplandecentes, antes da pista abrir, porque nesse tempo a cena era ir “antes da pista abrir” porque a abertura da pista ainda era assim uma coisa digna de se ver.
e quando a pista abre, as luzes apagam-se, os strobes começam a funcionar e a pista enche-se de fumo, ouvem-se os acordes da monumental música do “2001 odisseia no espaço”, o volume a rasgar o fumo, a luz, os nossos ouvidos, e o meu coração a saltar-me do peito, eu tonta de emoção e arrepiada dos pés à cabeça e quando finalmente aquela melodia majestosa se cala, quando a luz muda, para ficar só a grande bola de espelhos a reflectir centenas de reflexos pelo vermelho dos sofás, pelas paredes espelhadas, pelos nossos corpos, eis que eu ouço, sim, os primeiros acordes do piano do “lança perfume”… e eu não queria acreditar, a música da minha Rita a tocar, ali, naquela sitio mágico e eis que as meninas resplandecentes dão um gritinho, pegam-me na mão porque eu estou petrificada e arrastam-me para aquela pista que literalmente me engole…
e eu com a voz embargada, o coração do tamanho de uma formiga, cantei, dancei, dancei a primeira música, numa discoteca “a sério”, dancei o “lança perfume e senti nesse dia, que sim, que às vezes é possível sentirmo-nos dentro de um conto de fadas e senti-me a miúda mais feliz do mundo, nesse momento, em que toda a gente saltava, cantava alto, as meninas resplancedentes à minha volta a ver a "noviça" embasbacada, enquanto se ouvia

Me vira de ponta cabeça
Me faz de gato e sapato
E me deixa de quatro no ato
Me enche de amor, de amor
Lança, lança perfume…

às minhas meninas que me levaram, nesse dia: Rosi, Marisa, Kiki, Beti e Teresa.
à minha mana Kiki, um beijo especial, por ter aberto o "baile" dos meus 40 anos com uma entrada exactamente igual...

22 comentários:

Teresa Durães disse...

fortes recordações

PAS[Ç]SOS disse...

pois... eu não recordo essas festas [nem poderia como é óbvio!] mas lembro-me perfeitamente de ouvir Rita Lee e o seu 'Lança Perfume'. E é sempre bom irmos lembrando algumas canções que se vão distanciando no tempo, mas que acordam quando despertamos as memórias.

Teresa disse...

eu lembro-me de não conseguir ver para além do muro em frente a minha casa (que hoje me dá pela cintura).

No entanto, nunca sei a data das minhas memórias. Sou uma verdadeira pateta no que diz respeito a datas e nomes e todas essas coisas que especificam outras.

Fico contente que tenhas gostado do meu cantinho :).

Um beijo

O Puma disse...

Muito lindo

Eu sou do tempo das damas

ao bufete

com a Rita Lee

Boa memória

Mar Arável disse...

É sempre bom não perder

o passo

quando as estrelas brilham

lysa disse...

Como diria a Rita,telepatia :)

Eu também já vivi contos de fadas.espero viver outros tantos*

Beijo grande

Anónimo disse...

Querida Laura, como em ti estão tão vivas e coloridas tais recordações! O "Summertime"... ainda o ano passado pensámos ter descoberto, tua irmã e eu, o prédio onde funcionava! Obrigada por este refrescar de memória, És sem dúvida "o memorial" da nossa família.
Adoro-te
beijos, muitos
marisa

CNS disse...

Doces recordações, "fada sininho"

um beijo

Mateso disse...

Que bom recordar, obrigada também revivi...
Sensibilizada pelas visitas no meu azul.
Beijos.

Anónimo disse...

muitos parabéns pelos 40 anos tão jovens, com memórias já tão grandes e tão bonitas. um beijo.

Tchi disse...

Originalíssima ideia para celebrar a quarta idade juvenil.

Beijinho de parabéns, ainda que com algum atraso.

Belíssima descrição dos tempos das "meninas resplandecentes".

Tempos que nunca são demais recordar.

:)

José Manuel Dias disse...

A vida é feita de vivências...

~pi disse...

graaaaaaaaaaaaaandes mulheres

ai rita lee!

ai 40 anos!! :)




beijo





~

Arabica disse...

Pois que os quarenta tragam todo o perfume, calor e alegria do Summertime (que eu também conheci e gostava bastante).

Belas memórias :)

Essa música da Rita lembra-me as minhas filhas pequenitas...

Beijos

pb disse...

boas recordações, fizeste-me recuar 30 anos no tempo, a pista de dança, os strobs, a luz negra, a bola de espelhos...se calhar, quem sabe, cruzámo-nos algures nessas noites. bj

A.S. disse...

Laura...

Recordar é viver! E as recordações mais intensas, permanecem sempre vivas, fazendo com que sintamos vontade de as voltar a viver...


Beijos!

lysa disse...

Laurinha,hoje estou tenrinha tenrinha :)

pin gente disse...

há momentos inesquecíveis, laura!
tiveste mais sorte que eu. era a mais velha e o papi não era muito dado a permitir saídas nocturnas... eheheh
aproveitavam-se as tardes, no swing, no griffon's... só mais tarde cheguei...
gostei de te ler.
um beijo
luísa

pin gente disse...

bolas!
faltou desejar os parabéns!
bem vinda ao clube.

Laura disse...

um beijo enorme a todos.
e que saudades do griffon's e do swing...
lembram-se do suor a escorrer do tecto?
mais beijos.

jardinsdeLaura disse...

Laura,

Tem a sua piada reconhecermos naqueles que vemos como pessoas interessantes referências comuns... como ter gostado muito de ouvir Rita Lee e entre outras das usas músicas o "Lança perfume"! Gostei de lembrar e ainda gostei mais da descrição sentida desse momento momento mágico de sua adolescência! Decididamente, gosto muito de a ler!

jardinsdeLaura disse...

Laura,

Quando li o seu comentário final a fechar todos os comentários feitos não pude impedir-me de rir!
Ao swing fui muito poucas vezes, contam-se pelos dedos e devo confessar que gostava menos do ambiente, mas no Griffon's, a certa altura da minha vida, estava lá todos os fins de semana! E contudo 10 anos nos separam!!!
Como este mundo pode ser, por vezes, tão pequeno!

Arquivo