15/07/09

a rapariga que apanhava pancada porque gostava de arte e a rapariga solitária que descobriu o amor

fot. laurie s.

quando ela quis falar de arte a primeira vez com os pais eles deram-lhe um enxerto

e diz-se que foi a partir desse momento que ela começou a ficar estranha e a fazer coisas bizarras tipo comer batons e roubar sapatos dos mortos nas capelas e levá-los para casa
os pais viram-se gregos para que aquela menina endireitasse e não endireitou
e também não namorou nem casou
coleccionava tudo quanto era fotografias fazia recortes roubava revistas
chorava com filmes ficava embasbacada a olhar para as pessoas e gostava de raparigas
a mãe tinha um grande desgosto por ela gostar de raparigas mas ela gostava
e a sua maior paixão foi uma vizinha sozinha que tinha um cão que era cego
e ela a vizinha era tão tímida que quase nem falava e chamava-se Margarida
de maneira que as duas passavam a vida juntas e passaram a curta vida juntas
ela falava sobre arte e a Margarida ouvia
ela falava sobre sítios onde nunca tinha estado mas que conhecia dos livros e a Margarida deliciava-se
ela proferia declarações de amor decalcadas dos grandes clássicos do cinema e a Margarida ria e chorava ao mesmo tempo
amavam-se amavam-se muito.
diz-se que morreram juntas porque não quiseram morrer separadas
e fizeram-no à filme e deixaram um bilhete a dizer “nós amámo-nos muito, ouviram bem?”
e no papel a marca de baton vermelho das duas bocas sobrepostas
e quando as encontraram de mãos dadas mortas frias
tinham a pele branca e a boca vermelha
e estavam de vestidinho vermelho e saltos altos
e quem as conhecia disse oh se disse
que aquelas duas mulheres nunca tinham estado tão belas
e houve quem tirasse um retrato às duas mortas de amor e o guardasse
e o espolio extraordinário de um amor de tantos anos
de objectos dengosos fotografias delicodoces
filmes em vhs e cassettes de música amorosa
citações capazes de fazer chorar as pedras
desapareceu num ápice num instante
ninguém sabe como como pode ele ter desaparecido aquele espólio
mas ficou
ficou a imagem daquelas duas mulheres
de mãos dadas frias e muito tranquilas:
a que gostava de arte e apanhava pancada
a que falava pouco mas descobriu o amor.

3 comentários:

Unknown disse...

lindo
o q hei-de dizer mais. ..

Unknown disse...

lindo
o q hei-de dizer mais. ..

Arábica disse...

Uma trajEctória diferente.

A vermelho baton, cruzada.

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