19/10/09

o que eu aprendi com a luz

(uma e outra, deitadas no linóleo preto de um palco vazio. )

- sentes? o calor dos projectores?
- sim.
- e o barulho? aquele fiozinho de som, da luz..
- sim.. foste tu que me ensinaste a ouvir. o que é que eu te ensinei?
- outros sons.
- diz-me.
- as palavras… no meio das deixas.
- é verdade. o barulho do mar naquele texto do marinheiro. o som das bainhas do vestido a serem descosidas.
- sabes outra coisa que eu ouço?
- o quê?
- o som do teu cabelo.
- (risos) e como é o som do meu cabelo?
- é folk.
- folk?
- sim.
- e o que é isso do cabelo ter um som folk?
- um dia explico-te.
- explica-me agora.
- oh é a mesma coisa que o som nas luzes e no intervalo das deixas.
- pois. é especial.
- estás com os olhos pequeninos e suados.
- é dessa mania que tu tens de dizer assim coisas.
- ouviste?
- o quê?
- este barulho… parece um tilintar, de tecido.
- é o quê?
- é o som das tuas pestanas.
- (risos) achas que mais alguém acredita nisto?
- sei lá.
- eu gosto de acreditar.
- eu também.
- gosto da tua saia.
- e eu gosto da forma como dizes o texto das cadeiras.
- gosto de fazer teatro, coisas parvas, teatrices…
- e eu gosto de ti.

(para a Patricia Miranda.)

1 comentário:

Unknown disse...

sinto-me lisonjeada com tais palavras...o esse saltitar da conversa....beijo com mim

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