29/12/09

"anjo da guarda minha companhia guarda a minha alma de noite e de dia"

- Reza, mãe?
E ela diz-me que sim, que reza.
É que ela reza diferente de mim.
As orações dela chegam a um sítio onde as minhas não chegam.
Talvez porque ela esteja há mais tempo perto de Deus.
Talvez porque quando reza o pensamento não lhe foge como me acontece a mim.
Talvez porque entre ela e ele exista um canal de comunicação especial, privado, que se faz de amor e Fé.
- Reza mesmo, mãe?
E ela diz-me que sim. E quando me responde parece estar já a rezar.
A voz desce, as palavras saem mais cantadas. Parece que o peito lhe sobe e desce ao compasso do rezar que já lhe faz parte da pele.
Eu rezo à noite. E de dia aos bocadinhos quando me lembro. Entre refeições, trabalho ou transito.
Ela reza quando se decide a rezar e fá-lo, dedicada e inteira. No pequeno altar improvisado do quarto onde moram santos altos e pequenos, nossas senhoras de Fátima, de olhos húmidos e vestes amareladas do tempo, meninos Jesus pequenos e gordos, em palhinhas.
- Então reze muito, por favor.
E entrego a minha fé envergonhada à fé inabalável dela e fico descansada.
Porque sei que as minhas orações vão, pela boca da minha mãe, aos pares, direitinhas aos ouvidos de um Deus que a razão me impele a não aceitar.
Mas que uma fé inexplicável me leva a acreditar.

1 comentário:

Sofia disse...

Rezo, uma reza diferente, uma reza para Ela....não somente para Deus.
Com grande pena minha, também tenho mta dificuldade em concentrar-me apenas naquele momento...
Enrego a minha reza ao meu pai e avó, por saber que gostam mesmo de mim, que têm uma relaçao próxima, que Deus os ouve e que, talvez pela sua maturidade,não se dispersam como eu...

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