29/01/09

os sapatinhos vermelhos e a desenhadora que nunca casou


Sonhei que, depois de viajar com Francisco de Holanda pela Itália da Renascença por dois breves longos anos, e de trazer entre muitas outras coisas, uns sapatinhos vermelhos desenhados por Miguel Ângelo (inteiramente visionários) regressava a Portugal e era acolhida na corte de D. João III onde, por carta régia, era designada “desenhadora maneirista, artista flexível e assaz profetisa”.
Fui alvo de inveja forte e injúrias malfazejas, mas tive um quarto invejável no piso superior do palácio, com uma cama de dossel e uma rosácea na varanda.
Experimentei varias artes e em todas era mais ou menos mas interessa dizer é que passei a vida a desenhar.
Criados, nobres, moços de estrebaria, artífices e magistrados.
Nunca casei porque tinha a mania de desenhar.
Mas ia aos bailes todos da corte e fotografava, na memória, as afectações e posturas e os sapatos escondidos e os leques com um bocadinho de renda a desfazer.
Os caracóis feitos e as cabeleiras a cheirar a clássico.
Desenhei vestidos, cabritos a assar, tapeçarias com a armada portuguesa a partir, baluartes e cruzes processionais.
Desenhei relicários e patos, torres de menagem e saiotes de criadas.
Desenhei casamentos e códices.
Um dei-me conta dos meus cabelos brancos e decidi desenhar os meus sapatinhos vermelhos antes que me desse alguma coisa.
E depois de os desenhar, pintei-os a óleo, com pinceladas certeiras e ansiosas, tratando a cor com a felicidade com que tratava aqueles meus sapatinhos exuberantes.
Quando acabei a pintura ainda tinha mais cabelos brancos e os sapatos já não me cabiam nos ossos salientes dos pés.
Seguiu-se um monólogo-discussão terrível, eu a fazer duas vozes, porque uma voz queria partilhar com o mundo aquela preciosidade e a outra voz queria guardar aquele tesouro, para sempre.
Fiquei com mais alguns cabelos brancos mas, claro, uma das vozes venceu.
E venceu aquela que falava mais baixo e que chorava quando se matavam porcos e galinhas.
E o Quadro dos sapatinhos vermelhos ficou a aformosear a parede lateral do meu quarto nobre, até os meus cabelos serem um emaranhado de neve e até o ultimo sopro de vida morrer na minha garganta.
Depois disso, não sei o que foi feito dele.

27/01/09

3 laura's 4 everything


sim, mãe, vou jantar…a que é que diz respeito este valor? estenda-me uma roupa que está na máquina. não, a velocidade de sedimentação aparece elevada. talvez, tofu com massa resulta melhor. anda, diz-me lá o que é que tens, não estás bem, eu já sei como é que funcionas… não posso passar aí hoje… talvez a nódoa saia com detergente da loiça. o obama ganhou?... parabéns, passo aí no fim de semana…nunca te esqueças que gosto de ti. arcobotante para descarregar o peso nas laterais. ilvico, mas tens de ter cuidado com o estômago. mana, estás bem, nunca mais disseste nada. manda-me o numero de telefone do sr. Adão estou com um problema na torneira da minha casa de banho. sim, a repsol é a mais barata. mantenha o corte e pinte a raiz. pode ser peixe por causa do colesterol. a gata precisa de mais atenção, sim, está a ficar deprimida. gravamos a voz num dia destes. colgate fluor gel. evax sem alas, normal. leite magro e pão integral. não acendo a lareira porque tenho medo das centopeias nos tocos de madeira.
ãh? são duas da manhã tenho de ir dormir.
só se fosse um episódio dos irmãos e irmãs é que eu ficava acordada.
sim, já pus o despertador.
fot. Andre Kertesz

hoje furei o peito com os dedos,
peguei no meu coração e meti-o numa jarra
logo quando chegar a casa vou pô-lo a fazer de bibelot.
isto é para ele me dar descanso
e para eu conseguir estudar em profundidade as diferenças entre o gótico e o românico

na escultura portuguesa.
o meu coração às vezes bate tanto que me tapa os olhos.

alice no país de loboutin.
(fot. David Lynch)

26/01/09

Alba Red

quisera eu escrever uma poesia inglesa
que ficasse bem na boca de uma rapariga.
fá-lo-ia, sim, se soubesse,
se soubesse por em palavras as ideias que neste momento
penso,
em inglês.

"...and the sun rising through it."
este post encontra-se propositadamente em preto.



19/01/09

p h o t o m a t o m

O meu blog faz hoje 3 anos.
obrigada a todos aqueles que por aqui passam e que comigo viajam.

18/01/09

f i r e


Conhecia-lhe as palavras mas não a voz.
Conhecia-lhe certas pontuações mas não as pausas respiradas.
Conhecia-lhe acentos em palavras e certas palavras que acentuava.
Conheça-lhe a força, a fragilidade, a generosidade e os silêncios. Tudo isto através das suas palavras.
Costumava pensar que ela era como um camaleão, que mudava de cor regularmente.
Com os estados de espírito, com os dias de sol ou com as palavras dos outros.
Acreditava que ela se arrepiava com imagens, que chorava com movimentos, que ficava quieta com certos sons.
“Creio que ela às vezes é uma miúda que consegue voar através da cabeça dos outros e ficar a pairar nas palavras deles”- pensava a outra, que também era, por vezes, miúda e como tal gostava de acreditar que era capaz de fazer assim coisas impossíveis.
Via-a sem a ver, esguia, encaracolada, ensolarada.
Temperavam-na livros, música, espaços cheios de vida e a vida a preencher os seus espaços.
“Deve ter uma casa cheia de histórias com retratos, vida de animais, recordações de pessoas, memórias dela própria e perfume de todos os sítios onde esteve” – pensava a outra que também tinha uma casa cheia de coisas e coisas e coisas.
Imaginava-a a escrever sofregamente no teclado do computador sem respirar com os dedos e as palavras a correrem mais depressa que ela e a saltarem-lhe da boca para o branco do ecrã, as palavras a desenharem um texto sublime.
Conhecia-lhe as palavras, sim.
E um dia conheceu-lhe a voz.
E a voz era exactamente aquilo que ela, sem imaginar, imaginou.

(para G.)

17/01/09



50 anos!

parabéns, mano!

16/01/09

O P e r f u m e

Maitresse, by Agent Provocateur.

14/01/09

"e ele levou"


eu, um dia antes de ter deixado de falar
eles tinham todos a mania das grandezas, queriam que eu fosse isto e aquilo e por ser loura e engraçadinha ainda esperavam mais de mim, e eram totós e pulseiras e meiinhas de renda mimosas e tudo a condizer e voilá, queriam que eu cantasse e dançasse e representasse e tocasse 2 instrumentos, um de cordas e um de sopro e eu já irritada com tanta exigência dormi sobre o assunto, acordada, uma e duas noites e tive a ditosa ideia de me calar, definitivamente, quando teria os meus 3 anos e então aí é que foi, ele foi médicos e curandeiros e padres porque a menina não falava e isto e aquilo e o que terá ela, fizeram-se promessas à nossa Senhora de Loudes e a minha mãe envelheceu no corpo todo por causa disso e o meu pai teve um enfarte que o tornou tendente para o lado direito e os meus irmãos passaram a falar mais baixo porque eu não falava, não é, e eu, secretamente feliz, mergulhei no maravilhoso mundo do silêncio e passei a confiar as minhas palavras aos cadernos de capa de xadrez príncipe de gales que coleccionei num total de 27 e só voltei a falar quando, 13 anos mais tarde, encontrei o homem da minha vida a quem disse muito simplesmente “leva-me daqui desta casa com tudo grande que eu há 13 anos que não digo uma palavra e preciso desesperadamente de falar”. e ele levou.

11/01/09

Ajusto-me ao tempo, ao frio, ao calendário.
Como se a minha vida fosse uma linha direita, apertada, iluminada
na qual me movo e a qual preencho
com palavras, cores, sono e silêncio.

05/01/09

sim em 2009 farei mais exercício
tratarei o colesterol com carinho
farei exames médicos atempados
farei logo em janeiro aquelas coisas que deixámos para dezembro do ano anterior
sim
tratarei do imposível
arrumarei papeis e gavetas
mandarei sapatos para o sapateiro
beberei chá línea
comerei queijo fresco magro
subirei mais escadas
sim
escreverei na minha agenda estas coisas nobres
e ainda outras que me lembro sempre que o ano começa.
sim
e não me esquecerei
de continuar a ser feliz.

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