23/02/09


já tenho pensado inúmeras vezes se... penso a cores ou a preto e branco.
não é que isso seja importante, mas gosto de pensar mesmo em coisas que não são importantes.
gosto de pensar que sonho a preto e branco e que sonho a cores.
é mais cinemetográfico. mais estético.
gostava de passar para o meu blog os meus sonhos a preto e branco.
e pronto, é uma decisão que acabei de tomar.

a cidade que eu aprendi a amar







22/02/09

20/02/09

cansaço escreve-se assim.

the sweetest embrace (2)


mas eu não sei dançar mas eu levo-te mas eu não tenho jeito mas anda mas tenho medo mas não tenhas mas tenho anda não deixa-te ir não perdes nada achas? tenho a certeza.

e foi.

the sweetest embrace

- Danças?...
- ...

(pausa)

- Não vou esperar muito mais. Aliás já não espero. Não te pedi tudo. Só para dançar. É uma coisa simples.
-...

(pausa)

- Costumas deixar fugir as coisas assim sem dizer nada? Isso não é bom.

(pausa)

- As reticências um dia vão deixar-te só.

16/02/09

tarde de domingo

E passaram de carro pela avenida marginal com sol e crianças de patins e cães amigos dos donos, senhoras vestidas de domingo e desportistas ferranhos; gaivotas contentes com a azáfama quasi primaveril, um sol de inverno tímido e simpático, os olhos de Sally a observar tudo, os de Luke sabe-se lá onde, a fila de carros de domingo tolerante e bem comportada, lenta, a cumprir os preceitos do dia da semana em que tudo se permite, até a estupidez no trânsito.
- Sabes o que é que me apetecia? - Sally perguntou.
- Não.- Luke respondeu.
- Sentar-me ali com um livro, a ouvir música, ou só a ver. Há aqui muitas coisas para ver.
"Ela vê sempre coisas extra nas coisas que são só coisas." Ele pensou.
Mas isso era uma das coisas que ele mais gostava nela.
- Tu gostavas? - Ela perguntou com dois olhos grandes abertos num convite.
- Sim. - Disse ele.
E parou o carro e foram sentar-se no paredão.
Ela com as mãos a mexer de excitação, eles com os olhos de músico à procura das notas nas ondas do mar e dos cabelos dela.

coisas que eu gosto, a preto e branco

um piano
um abraço que se queria há muito


palavras ditas e guardadas

cantar...




09/02/09

1ª classe, papelinhos e o rapaz de cabelo aos caracóis


nunca me apeteceu muito ir para a escola.
gostava mais de ver novelas e desfolhar revistas para ver mulheres com vestidos giros e sapatos altos.
de maneira que quando fui para a 1ª classe, fi-lo obrigada.
não era muito engraçada de aspecto; usava umas terríveis botas ortopédicas, cabelo à escovinha, teimoso e cheio de marcas do travesseiro e ainda por cima roía as unhas até aos sabugos.
para completar tinha umas pernas que apreciam uns palitos e usava uma roupa meia estranha, que passava dos meus irmãos para as mãos de uma costureira habilidosa, que era meia amalucada e criava, nos seus delírios de crença que em outra vida tinha sido aprendiz de costureira da Coco Chanel, peças únicas de um retro-kitsch delicioso.
não era, portanto, uma imagem propriamente simpática.
de maneira que lá para o segundo mês de aulas decidi incorporar a personagem feminina de uma novela que passava, na altura, na televisão (e que eu via às escondidas) e que era uma rapariga alegre, popular no seu circulo de relações sociais e muito, mas muitíssimo gira.
pois bem, comecei a falar brasileiro, na sequencia da incorporação e comecei também a fazer jus à minha disposição natural para ser popular.
lancei charme pelas raparigas de lacinhos e óculos de massa e batas cheias de nódoas, uma piscadela de olhos aos matulões e até fui bastante riquinha com as auxiliares de educação de joelhos gordos.
aprendi a copiar a palavra “amo-te” e eis que um dia, em que me sentia particularmente gira e brasileira, decido abordar o rapaz mais triste da turma – um mulato bem giro, de caracóis brilhantes e olhos negríssimos - um rapaz que estava sempre sozinho nos intervalos, por ser mulato, julgo eu, mas que tinha uma voz quente e forte, já para a idade.
entrego-lhe o papel , na aula, que diz “amo-te” numa caligrafia curva e balbucio uma qualquer palavra num brasileiro impecável.
não foi muito inteligente ter entregue o papel na aula, porque o Carlos (era o nome dele) ficou meio apalermado a olhar para mim com aqueles olhos negros, a professora magrinha chegou-se a mim, sorriu, fez-me uma festinha no cabelo, pegou no papel, leu, arregalou um bocadinho os olhos uma coisinha de nada, deu-me uma pancadinha nas costas e disse-me numa voz segura “dá-me o teu caderninho para eu escrever um recado para a tua mãe”.
a minha mãe foi à escola falar com a dona Maria José, que estava preocupada porque a menina de repente desatara a falar brasileiro e ainda por cima numa pronuncia rigorosíssima, “têm família no Brasil, é?”
e a minha mãe lá lhe explicou (como pôde) que a menina falava muito sozinha e fazia umas coisas que a ela, mãe, lhe pareciam espectáculos se bem que não havia publico, mas o deleite e a entrega da criança eram totais de maneira que aquilo de falar brasileiro era uma fase e que um dia destes passava.

e pronto, acho que foi aqui que começou a minha fatal queda para escrever para pessoas, sobre pessoas, com pessoas, a olhar tudo com extrema atenção, a perceber o sentido das coisas banais, a reconhecer os estímulos que levam as pessoas a agir, a pensar, a especular, a rir, a gozar.

05/02/09

estudo, pés quentes & histórias de chopin


vai estudar, Laura Marisa! a voz da minha mãe soava zangada “ai estou zangada estou”!
põe-te já imediatamente a estudar! queres uma escalfeta? vai indo que eu levo-ta lá! gira!
gira, eu? não, dizia ela com alguma irritação “gira mas é para o estudo” e eu metia pernas ao caminho, cabisbaixa, com ar de cadelinha triste.
e eu, menina, com tristeza de velha, metia-me numa das divisões da casa que estivesse vazia, espalhava livros e cadernos e lápis e borrachas. canetas de muitas cores. (sempre as canetas…)
a minha mãe punha pouco depois a escalfeta aos meus pés, uma mão no ombro e a seguir uma pancadinha de solidariedade. vá, estuda bem que é para teres pelo menos um “suf” amanhã no teste.
eu ficava a vê-la sair.
e entretanto o calor penetrava-me pelos pés e subia subia, indolente, ondulante, pelas pernas, numa carícia reconfortante e à minha frente as letras dos livros a saracotear numa sedução que me deixava tonta. e eu a lembrar-me de uma história.
e um cão latia sete casas abaixo, e eu a lembrar-me de outra história.
e o meu irmão tocava no piano os nocturnos de chopin e de repente o ar enchia-se de um cheiro quente de ferro de engomar e… lembrava-me de outra história.

eu escondia os meus diários no meio da livralhada e neles, escrevia as histórias, as histórias que me assomavam do quente do corpo, do perigo de ser descoberta, da amplitude desmedida do meu mundo interior…
ficava três, quatro horas a escrever coisas. escrevia sobre tudo e sobre nada.
estudo é que nem vê-lo.
e depois sentia-me mal porque estava ali a enganar a minha mãe e ainda por cima com os pés quentinhos.
tirava más notas, pois claro, e sofria as consequências: castigos e puxões de orelhas.
mas, fartei-me de encher cadernos.
e, graças a esses tempos, consigo ainda hoje escrever sobre qualquer coisa e continuo a encher cadernos e folhas e molleskines.

esta foi uma pequena pausa no meu estudo.
já não tenho diários escondidos no meio dos livros.
mas ouço barulhos que me despertam frases e sinto cheiros que me trazem cores.
não tenho os pés numa escalfeta, mas tenho-os quentes.
e o meu coração ficou bem mais quente depois de ter escrito.

03/02/09

inspiração


a inspiração para escrever chega em passinhos pequenos,
sopra-me aos ouvidos vogais ou palavras inventadas.
vê-me despida na banheira e senta-se, de pernas cruzadas, para me atormentar.
às vezes acorda-me antes do despertador e empurra-me da cama.
às vezes dá porrada no estudo, faz caretas às refeições.
dilui-se no café e atravessa os fios do telefone.
fantasia-se de perfume e verniz.
faz-me conduzir depressa e faz-me mouca.
rouba-me às pessoas e mantém-me prisioneira.
às vezes é preguiçosa, intolerante, miúda embirrenta.
amua comigo. faz amor comigo.
é preguiçosa, altiva.
dá-me sapatadas nos dedos e puxa-me as pestanas.
casou comigo quando eu tinha 6 anos.
é um caso sério na minha vida.

e para albergar a escrita

pequenos, grandes, quadriculados, lisos, de linhas... acumulam-se nas minhas estantes.
guardam segredos, colagens, escritas, memórias e coisas pequenas.

e para a escrita




escrita, desenho e olhos.


fevereiro é mês de preto e branco...

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