28/04/09

oração à minha Mãe


mãe,
fica comigo, sim?
eu sei que os anos correm velozes
que a tua pele de seda envelhece e o teu corpo fica cansado.
que vestes nos olhos pequeninos a névoa de tanto tempo,
mas eu vejo neles a menina que ainda és.
vejo-te com cachos no cabelo e a estudar anatomia
vejo-te com soquetes nos pés e com um vestido de princesa
para cintilares no baile de finalistas.
vejo-te comigo ao colo
a contares-me da “Rapunzel”
a ensinares-me os “óculos de sol”
a coçares-me os olhos com o teu queixo porque é doce
vejo-te… vestida, com o cheiro de Mãe.

fica sempre comigo…
do outro lado do telefone
na cabeceira da cama quando tenho febre
num recorte de jornal
numa oração por uma causa (im)possível.
eu fico contigo, sim?
à medida que o tempo passa
enquanto a minha pele envelhece e os meus ossos se cansam
e se instala nos meus olhos a mulher que eu posso ser.
amando-te todos os dias
estarei perto ou longe
num telefonema
à cabeceira da tua cama
num papel com uma historia
num papel com um recado de amor
numa canção esquecida
num vestido que já não serve.
estarei perto ou longe
até o tempo todo se acabar
e os Homens tiverem a certeza
que o Céu existe
só porque eu e tu
havemos de nos encontrar.
(para a minha mummy que faz hoje 78 anos.)

15/04/09

a matemática dos beijinhos

Quero contar-vos o que me aconteceu hoje e me fez parar… de espanto.
Pois bem, entrei na repartição de finanças, em Valongo, às 9 e dois da manhã. Eu e 10 fregueses das finanças, entrámos em carreirinha, como formigas, eles à frente, eu atrás.
Sentei-me no banquinho à espera para ser atendida. E como já vai sendo hábito, passei os olhos pela repartição, um espaço aberto. Na sala estariam já umas 10 pessoas a trabalhar, maioria mulheres.
E o espantoso é que entre o momento em que me sentei para esperar e fui atendida, entraram para trabalhar mais 6 mulheres e essas 6 mulheres que entraram pousaram os casacos e as carteiras e foram cumprimentar as tais 10 pessoas que já se encontravam a trabalhar.
Mas atenção: cumprimentar de beijinho na cara - as mulheres e aperto de mão - os homens!
E eu fiquei embasbacada, assarapantada, só me apetecia fotografar aquilo, registá-lo de alguma forma e por isso o faço agora, por isso escrevo, por isso partilho com vocês que me estão a ler… o que vi e me fez parar.

É que as mulheres daquela repartição eram muito diferentes entre si e essa diferença determinou inteiramente o seu modus operandi no que se refere à osculação matinal.
Pois bem, as que tinham um ar menos “funcionarias públicas” entraram com cabelos fulgurantes, andar sacudido, a derramar perfume à passagem, calças por dentro das botas mesmo à moderna e foram directas às respectivas secretárias e beijocaram a colega do lado direito e a colega do lado esquerdo. Assim, decididas, económicas nos beijos e nos sorrisos.
Depois entraram as de ar mais “funcionarias públicas”, aquelas que trazem sempre sacos plásticos nas mãos com coisas inacreditáveis lá dentro tais como bananas que precisam de ser comidas,patelas de arroz integral e receitas para aviar na farmácia; pousaram a sacalhada e foram, calmamente, friso calmamente, de mesa em mesa, picar o ponto com beijinhos nas colegas, algumas de boca ao lado para não manchar a base da bochecha, outras de boca em cheio na bochecha e com direito a beijo repenicado.
E eu pensei, porque é que estas mulheres se beijam às 9 da manhã quando se viram pela última vez às 17 horas de ontem? E depois pensei que pode perfeitamente ser um ritual.
Um ritual de mulheres funcionárias que se beijam entre si mesmo que se detestem e que dão apertos de “bacalhau” aos homens, sabe-se lá porquê.
Perdem naquelas andanças, seguramente, uns 10 minutos cada uma. E os fregueses que se lixem, ali à espera na fila, sem ser atendidos. Sem beijinhos.

E depois pus-me a fazer contas de cabeça e cheguei à conclusão que assisti, numa partícula reduzida de tempo, a uns 120 beijos, coisa que para mim, que até sou pessoa de dar muitos, corresponde a uma imensidão de beijos e para dar tantos eu precisaria de uns 30 dias.
Ora, se todos os colaboradores dos estabelecimentos e serviços deste país dessem dois beijinhos de bom dia aos colegas perdia-se nesta brincadeira uma data de tempo e isso resultaria nalguma espécie de prejuízo.
E isto não pensando no que pode acontecer ao fim da tarde.
São bem capazes de acabar o serviço mais cedo, arrumar a mesa e a sacalhada e porem-se aos beijinhos de ”atéamanhãseDeusquiser” 10 minutos antes da hora e se calhar até mandam os fregueses embora porque o beijinho é mais importante e se formos a ver bem éramos capazes de chegar à conclusão que a coisa resultaria assim nalguma espécie de prejuízo.
Quando fui, finalmente, atendida, imaginei-me por breves instantes a saltar o balcão e a despedir-me daquelas mulheres faladoras e daqueles homens com ar cinzento.
E fui trabalhar com uma vontade irreprimível de cumprimentar, à chegada, os meus colegas com dois beijinhos ou um aperto de mão.
Não o fiz.
Mas ainda o faço, um dia destes.

as minhas duas meninas

( fot. olaf e.)

os meus olhos têm duas meninas

que não são pupilas

mas são meninas, asseguro-vos.

a menina do olho esquerdo

a menina do olho direito.

as duas meninas dos meus olhos andam, geralmente, hirtas

sensatas

afinadas

numa melodia cadenciada.

não se cansam não se atrasam não se aperreiam as meninas

não se dão a conhecer aos outros

mas eu sei-as, miúdas e infantis

não discutem e não ficam com dor de costas as meninas.

são antónimas e amorosas

calorosas e concubinas.

de vez em quando armam-se em espertas

fogem-me

fintam-me

fugazes

e acordo com os olhos em bico

com as duas meninas a atazanar-me o juízo

por causa de tudo que lhes ensinei.


07/04/09

self portrait (2)

em dias nublados,
temporariamente muito nublados
com perigo de vento forte
e acentuado arrefecimento nocturno.

não gosto de mortos assim com as mãos

não gosto de mortos assim com as mãos.
sempre que vejo uma imagem em que um morto está assim com as mãos desvio o olhar.
por isso é que eu não via os “7 palmos de terra”.
por isso é que eu seria incapaz de ter uma funerária.
por isso é que eu seria incapaz de ficar com um morto assim com as mãos fechada numa sala, eu e o morto.
por isso é que eu já escrevi no meu testamento que quero ser cremada.
por isso é que alguns daqueles que me lêem devem estar a pensar
“esta miúda anda a pensar muito neste tema ultimamente, primeiro o requiem agora isto das mãos dos mortos…”
não se preocupem.
gostei muito desta fotografia que é de não sei quem.
mas seria incapaz de a ter num sitio onde estivesse sempre a olhar para ela.
porque não gosto de mortos assim com as mãos.

xanax


devíamos ter de nascença um botão no corpo para alterar o rumo das nossas emoções.
assim tipo, agora estou chateada ligo o botão e deito a cena para trás das costas, ou estou muito triste e ligo o botão e começo a rir muito.
se não fosse pedir demais até podia ser uma caixa de velocidades.
é que depois de escolher o estado de espírito ainda podíamos seleccionar a intensidade.
e podíamos recuar sempre que quiséssemos.
ou então meter uma velocidade, acelerar até uma rotação muito alta e desaparecer.
devíamos ter, também, à nascença um carimbo qualquer que nos distinguisse uns dos outros em termos de emoções.
assim tipo, tu levas o carimbo e não te vais ralar muito com as cenas e tu levas outro carimbo e vais ser uma pessoa ansiosa e assim pró deprimido e farás um filme com qualquer coisa mas em contrapartida vais fazer outras coisas bem, porque não pode ser tudo mau, não é...
também podíamos ter umas pastilhas que nos adoçassem o espírito de vez em quando.
uma alavanca para fazer dormir.
um xarope para as chatices.
um supositório para as pieguices.
um comprimido para as obsessões.
um spray para as estrias e para as varizes.
um tónico para as preocupações idiotas
e um bálsamo para as lágrimas estúpidas.
podíamos ser todos iguais.
dava muito menos trabalho e não se gastava dinheiro em psicoterapia.

02/04/09

bocas de amor

gosto de te ver dormir com ar de miúdo, despenteado,
bambo e abandonado
à cama e a mim que estou ali a olhar-te.
quando voltar a ver-te dormir
vou aproximar a minha boca do teu ouvido e dizer-te baixinho
que te amo
que gosto de te ver dormir
porque é o mais próximo que ficas
do tão pequenina que me sinto
por te amar.
um dia tinha uma gota de água no lábio
não sei como é que aquilo aconteceu
ter uma gota tão perfeita naquele sitio, exactamente naquele sitio
e tu disseste “olha tens aí uma coisa tão engraçada, no lábio…”
olhei-me no espelho pequenino
e sim, vi que estava lá uma gota engraçada e pequena, de água
perecia ter sido ali colocada com a intenção única de ser fotografada
porque é preciso ter alguma sorte,
ter assim uma gota de água tão bem arrumada, no lábio,
então, quis guardar esse momento e disse-te
“tira uma fotografia nem que seja com o telemóvel,
gostava que guardasses esta imagem e depois dás-lhe um titulo
e eu ponho-a no meu blog, sim?”
e tu aproximaste-te de mim
e com a língua
roubaste, de mansinho, aquela gota de água do meu lábio
saboreaste-a
e com cara de miúdo disseste
“não ponhas no teu blog, deixa-a ficar só para mim”.


baixinho, pergunto-te, ao ouvido
gostas de mim?
e tu ris. sempre que te faço esta pergunta.
primeiro ris
mas depois dizes que sim.
gostas.
porque sabes que eu sei que gostas.
porque sabes que eu preciso de o ouvir.


01/04/09

os animais são eternos


"- Mãe, os animais vão para o Céu?"- perguntei à minha mãe, em criança.

Ela deu-me concerteza uma resposta tão credível que me fez acreditar até hoje que sim, que os nossos animais morrem e vão depois para um local calmo e cheio de paz, onde não há dor nem fome.

As pessoas instruídas não acreditam nestas coisas da fé, alguém me disse há uns dias.

Disparate, Céu? Disseram-me também com grande certeza.

Eu tenho estudado filósofos, antropólogos, teorias e sistemas, museus e períodos artísticos.

Leio livros e até já discuto política americana.

Mas há em mim uma qualquer crença infantil ou iletrada que me faz acreditar que aqueles que amo são eternos, que partem primeiro porque sim, porque tem que ser, mas que um dia me vão receber à porta de um qualquer lugar.

Hoje olhei para os olhos tristes e molhados da minha mãe.

Não lhe perguntei se os animais vão para o Céu porque já tenho a certeza.

Ela não me perguntou em palavras mas eu disse-lho num abraço.

E, infantis ou iletradas nestas coisas de Fé, ficamos ali um bocadinho naquele aperto de amor, a dizer uma à outra entre água e calor que sim, que o amor entre os homens é eterno, assim como a lealdade e a amizade que estampámos ao longo dos tempos, nos olhos de todos aqueles animais que acolhemos e amamos.


hoje o nosso cão rocky "adormeceu" ao meu colo. um sono de paz, sem dor.

há em mim qualquer coisa pequena
que me faz querer ser grande
como a amplitude do que sei que não existe.

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