26/06/09

os artistas não deviam morrer

foi o que pensei quando em miúda percebi que os artistas também morrem.
e de facto as pessoas que nos oferecem de si através da musica ou qualquer outra arte deviam ser imortais.
a sua obra é-o de facto, mas isso para mim não chega.
o Michael Jackson povoou a minha existência desde sempre, com a sua musica.
dancei-o com as amiga em coreografias estudadíssimas, ouvi-o em férias com muito calor, vibrei com ele em festas de garagem e festas de verão, a cozinhar ou a conduzir, a tomar duche ou a limpar o pó.
namorei com rapazes invisíveis, no meus 11 anos, ao som de “rock with you”, imaginei-me dentro do clip do “thriller” inúmeras vezes, decorei os passos de dança de “billie jean” e cantei e dancei em Alvalade, no dia 26 de Setembro de 1992, o rol de musicas que se ouviram na primeira e única vez que ele esteve em Portugal.
a música está mais pobre, hoje, seguramente.

“And when the groove is dead and gone (yeah)
You know that love survives
So we can rock forever, on
I wanna rock with you
I wanna groove with you
I wanna rock with you
I wanna groove with you”

17/06/09

conversas de luz apagada (junho)

fot. m.clement

gosto de junho. sabes porquê?

(pausa).



és mais bonito em junho. os teus olhos são maiores como os dias.

a tua boca sabe a verão.

já te tinham dito que a tua boca sabia a verão?

não me digas agora que tenho a mania das imagens.

pois tenho. é verdade, mas não digo isto só para te agradar.

(pausa).



sabes porque é que gosto de junho?

ou melhor, sabes desde quando é que gosto de junho?

acho que desde sempre.

junho tem um não sei quê que nunca mais se acaba

como esta minha mania de falar de coisas que não interessam a ninguém.

(pausa).



quando respiro, em junho, parece que encho o peito mais fundo.

com verde, terra, dias grandes e calor.

não li isto em livro nenhum, é verdade.

achas que eu tenho jeito para escrever?

(pausa).



estás a dormir?.... (pausa mais longa que a anterior).



amanhã digo-te porque é que gosto de junho.

se eu fosse...

uma bebida...
uma sequência de um filme... ("les poupées rousses", Cédric Klapisch)


09/06/09

distinção ao meu tesouro


A Gasolina, da Árvore das Palavras distinguiu o Photomaton neste mês de Junho o que muito me honrou e comoveu em primeiro lugar porque eu gosto muito dela, em segundo porque o mês de Junho é o meu preferido pelas razões que ela apresentou e em último porque eu gosto muito do meu Photomaton.

Deixo-lhe aqui um agradecimento enorme e prometo não parar, como ela me pede, nunca parar.

http://palavrasnaarvore.blogspot.com/

O meu coração verbou com a tua distinção.

má ou mázinha, depende dos dias

às vezes sinto-me .
e tal traduz-se numa cinestesia que me vai directamente ao nariz porque quando me sinto má tenho comichão no nariz.
nunca tive muita coragem para assumir que me sinto má de vez em quando. nem sei porque é que me sinto assim. não tenho vontade de fazer assim coisas muito absurdas que possam interferir com os outros, não me apetece roubar nem incendiar baldes do lixo, não provoco atentados nem cometo crimes em séerie… será a energia não utilizável, do meu corpo, a querer sair? ou coisa do género?
portanto eu acho que não sou má de verdade senão andava aí a fazer maldades e assim.
o que me acontece é cerrar os dentes, retesar os músculos das pernas, sentir um ronco animalesco a formar-se na garganta como se fosse uma avalanche a formar-se nas montanhas, ver-me de repente com uma energia que me faz sentir capaz de esmagar o meu prédio com o punho cerrado e logo a seguir abro a boca e deixo sair umas asneirolas alto. principalmente quando estou em casa é que elas saem e se as minhas gatas percebessem o que digo não miavam e ronronavam viscosas nas minhas pernas continuamente enquanto, num rosario maldito, eu desfio as asneiras todas que conheço.

também não me passa pela cabeça dizer aos amigos com um ar bem disposto “sabes que hoje me sinto má e só me apetece andar à estalada?”.
não me passa pela cabeça confessar à minha mãe que tenho vontade de esbutenar uns pratos ou partir uma jarra que me foi dada não sei por quem, só porque me sinto mázinha.
e o que é ser má? e mázinha? de que maneira sou má? porque me sinto mázinha?
onde é que descarrego? em quem descarrego?
no trânsito! acontece-me ser má e descarregar nos pintarolas armados em fangios, todos tortos, sentados no assento (devem ter aquela coluna numa miséria) e só com uma mão a agarrar o volante, geralmente chegam com uma chiadela e pensam que me intimidam com a travagem mas estão enganados. deito-lhes o meu olhar de má absoluta e continuam na fila que é uma maravilha.

também gosto daquelas senhoras no supermercado que chegam às filas com um ar de quem não quer a coisa mas que na realidade querem a coisa toda e se metem sorrateiramente à minha frente, na fila, e mexem cheias de tiques no cabelo e fazem de conta que eu não estou ali mas depois descaem-se a olhar-me para os sapatos e para o cabelo e eu lanço-lhes um sorriso resplandecente mauzinho q.b. e dou um passo à frente delas.

isto já para não falar nos empregados das bombas de gasolina que se sentem másculos e julgam que nós temos de aturar isso e então põem uma voz grossa e com a pistola da gasolina na mão dizem com uma voz aflautada e com uma pronúncia tortuosa “quer que encha?”
dá-me logo vontade de lhes entalar a mão no vidro e pisgar-me.
isto tudo para dizer que de vez em quando me sinto má. ou mázinha, depende dos dias.
e hoje apeteceu-me escrever isso.e agora ainda fiquei mais zangada porque fui à net à procura de imagens de “bad girl” e só me aparecem vocês imaginam o quê.

não é nada que eu não saiba já mas há dias que não há paciência…

04/06/09

a minha própria psicologia


se nos meus 10 anos me tivessem explicado a teoria psicanalítica
e que assim que a nossa personalidade tem três sistemas independentes mas inter-actuantes
de nomes Id Ego e Superego
ai eu tinha-lhes logo arranjado outros nomes, uns nomes bem catitas
e escusava de ter andado a escrever uma novela durante 2 ou 3 anos
a obrigar os outros a escrever comigo e consequentemente a gastar de uma forma excessiva cadernos com uma historia simplória
e desinteressante e tinha criado ali mesmo nos meus 10 anos uma historia que quem sabe
ainda hoje decorreria e assim escusava de andar aqui a escrever estes textitos miúdos
que não servem para grande coisa e canalizava a minha inspiração e/ou motivação para escrever para a dita historia que me daria pano para mangas e imenso gozo
porque só assim de repente passou-me na ideia que até podia pô-las todas à chapada
as três entidades da personalidade os três sistemas que contribuem para que eu seja eu
a suposta laura enquanto ser individual, sim, gostava muito de ter tido essa possibilidade
só não o faço agora porque tenho mais que fazer mas se pudesse fazia
e até já tinha título para a historia…

Emília, Laura e Alice (ou as histórias incontáveis de um modelo estrutural psíquico)

02/06/09

quem disse que o silêncio era de ouro?...

escreve dedo escreve sempre
mesmo com calo sem calo
eu calo não me calo
escreve dedo escreve
trabalhos sobre Raul Brandão
trabalhos sobre obras do Estado Novo
trabalhos sobre museus e exposições temporárias
escreve dedo escreve
uma nota de condolências
uma carta de amor
uma receita de peru.
escreve dedo escreve
umas rimas simpáticas de aniversario
a conta da empregada
a vacina dos gatos
os depósitos do banco.
escreve dedo escreve
no caderno de capa preto
aquele que guarda o inenarrável
o absurdo o contido e o imprevisto.
mas escreve escreve sempre
e nunca te canses de escrever.

puppet

fot. a.k.
ela era uma mulher bem mandada comportada
mergulhada na vida doméstica com tal afeição
que nem tinha tempo para ambições
era silenciosa e trabalhadora
meiga e caridosa com humanos e animais
ainda por cima tinha bom feitio e fazia tudo acertadamente pausadamente o que ele queria e ainda o que lhe pediam e ainda o que antecipava nos olhos dos outros
até ao dia em que lhe cortaram os fios
e aí é que foram elas.

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