23/07/09

9 to 5


era mais fácil usarmos uma farda à semana, para não ter que decidir o que se veste todos os dias.
eu já tive fases em que decidia na véspera o que vestir; deixava tudo dobradinho: calças, blusa, sapatos, pulseiras, carteira.
mas depois acordava de manhã e nunca me apetecia vestir isso e então deixei de escolher na véspera.
também já tive fases em que me deitava e detinha-me a pensar na toilette do dia seguinte. a maior parte das vezes adormecia e só tinha escolhido as calças. mas isto ainda me dava mais trabalho, na manhã seguinte, pois tinha de fazer um esforço para me lembrar o que tinha pensado na véspera (e esquecido, entretanto) e como acabava por nunca me lembrar, tinha de escolher outra vez.
hoje em dia penso enquanto tomo banho, depois do pequeno almoço.
não sei muito bem porque é que estou a escrever este texto, mas esta imagem fez-me pensar nos 5 dias da semana…

15/07/09

conversas de luz apagada (julho)

- não cheguei a dizer-te porque é que gosto de Junho… e já estamos em Julho.

- não queres dizer antes em Agosto e assim arrumas logo os 3 meses – gargalhada dele, alta, um bocado histérica.

ela olha-o. parada. suspira.

- pronto, pronto,… - diz ele com um beijo desajeitado e molhado, na face.

- olha lá…cuidado… pús creme na cara… - ela deita-se de barriga para o ar, meia afastada, mãos cruzadas na barriga.
(pausa).ela com os olhos presos no tecto. ele olha-a pelo rabo do olho.

- diz lá porque é que gostas de Julho…

- não te disse de Junho por isso também não posso dizer de Junho. as duas coisas estão ligadas. complementam-se.. – e volta-se para o outro lado. – até amanhã… - diz num fio de voz com os olhos bem abertos.

- não pensei que isto dos meses fosse assim uma coisa tão importante para ti, desculpa… - ele espera uma resposta que não vem. – aproxima-se dela. encosta um pé. depois as pernas. depois tudo.

- tu gostas de Junho e Julho e eu gosto de ti. – diz numa voz rouca. e a seguir perde-se no cabelo dela.

myspace

fot. laurie s.

tenho um caderno preto onde escrevo todas as noites quando já estou deitada
é tão giro escrever deitada
sem pinturas
quase sem luz sem ninguém sem reservas sem assunto
sim sem assunto sem saber o que vai sair
a mão corre desgarrada aos ziguezagues ao sabor do que penso
sem saber o que penso penso tudo misturado
parece que estou a fazer um bolo e os ingredientes são as palavras
os olhos fecham-se as palavras escorrem-lhe dos cantinhos
ah e também faço coisas gráficas assim uns desenhos que não lembram ao diabo
mas preciso preciso daquele momento meu
em que sou eu e o papel
num encontro apaixonado perfeito
que se consuma todas as noites e me faz adormecer de cansaço….

a rapariga que apanhava pancada porque gostava de arte e a rapariga solitária que descobriu o amor

fot. laurie s.

quando ela quis falar de arte a primeira vez com os pais eles deram-lhe um enxerto

e diz-se que foi a partir desse momento que ela começou a ficar estranha e a fazer coisas bizarras tipo comer batons e roubar sapatos dos mortos nas capelas e levá-los para casa
os pais viram-se gregos para que aquela menina endireitasse e não endireitou
e também não namorou nem casou
coleccionava tudo quanto era fotografias fazia recortes roubava revistas
chorava com filmes ficava embasbacada a olhar para as pessoas e gostava de raparigas
a mãe tinha um grande desgosto por ela gostar de raparigas mas ela gostava
e a sua maior paixão foi uma vizinha sozinha que tinha um cão que era cego
e ela a vizinha era tão tímida que quase nem falava e chamava-se Margarida
de maneira que as duas passavam a vida juntas e passaram a curta vida juntas
ela falava sobre arte e a Margarida ouvia
ela falava sobre sítios onde nunca tinha estado mas que conhecia dos livros e a Margarida deliciava-se
ela proferia declarações de amor decalcadas dos grandes clássicos do cinema e a Margarida ria e chorava ao mesmo tempo
amavam-se amavam-se muito.
diz-se que morreram juntas porque não quiseram morrer separadas
e fizeram-no à filme e deixaram um bilhete a dizer “nós amámo-nos muito, ouviram bem?”
e no papel a marca de baton vermelho das duas bocas sobrepostas
e quando as encontraram de mãos dadas mortas frias
tinham a pele branca e a boca vermelha
e estavam de vestidinho vermelho e saltos altos
e quem as conhecia disse oh se disse
que aquelas duas mulheres nunca tinham estado tão belas
e houve quem tirasse um retrato às duas mortas de amor e o guardasse
e o espolio extraordinário de um amor de tantos anos
de objectos dengosos fotografias delicodoces
filmes em vhs e cassettes de música amorosa
citações capazes de fazer chorar as pedras
desapareceu num ápice num instante
ninguém sabe como como pode ele ter desaparecido aquele espólio
mas ficou
ficou a imagem daquelas duas mulheres
de mãos dadas frias e muito tranquilas:
a que gostava de arte e apanhava pancada
a que falava pouco mas descobriu o amor.

11/07/09

chá verde e pão com manteiga


ela pensava mais em coisas idiotas. ele pensava mais em coisas sérias.

ela gostava de salada com vinagre. ele gostava de salada com azeite.

ela gostava de animais. ele gostava de livros.

ela gostava de chorar com uma comédia romântica. ele gostava de descobrir nos filmes referências de outros filmes.

ela gostava de dormir com a luz acesa. ele gostava de dormir com a luz apagada.

ela gostava da cartilagem das pernas de frango. ele gostava de ovas de salmão.

ela gostava de vestidos às flores. ele gostava de pólos.

ela gostava de apanhar sol. ele gostava de sombra.

ela gostava de tetris. ele gostava de xadrez.

ela gostava dos "irmãos e irmãs". ele gostava das "mentes criminosas"

ela gostava de figuras de santas. ele gostava de peças chinesas.

ela dava-lhe molleskines com colagens amorosas. ele dava-lhe viagens incríveis.

ela ria-se alto. ele ria-se baixo.

ela fazia fitas. ele gostava de adormecer no sofá.

ela era elegante às vezes. ele era elegante todos os dias.

ela era diferente dele. ele era diferente dela.

mas na maioria do tempo que estavam juntos eram felizes.

10/07/09

“o amigo que deixou de ser”

nas amizades eu deixo-me encantar.
entrego-me, confio, ajudo, suporto e… amo. do fundo do meu coração.
confio tão plenamente que invisto todo o meu ser emocional naquele outro… ser.
nunca me passa pela cabeça que possa haver, a partir daquele momentozinho em que decido dar
dar tudo o que tenho - àquele Amigo - que ele possa esquecer ou simplesmente… ignorar.
há muitos anos que o meu coração tinha um grande portão, até ao céu,
e era preciso que alguém soubesse “bater” muito bem, para lá entrar.
e depois de merecer lá ter entrado, saber ir ficando; primeiro à porta, depois cada vez mais para dentro…
até entrar no meu mundo.

às vezes precisamos de chorar os amigos que deixam de estar no nosso coração.


estas palavras são o ponto final do último amigo que eu deixei entrar no meu;
preciso de escrever estas palavras porque nunca as direi pessoalmente,
porque já não há espaço e assim não há motivo
porque esse amigo saiu sem ter avisado, sem sequer me ter dito “obrigada”.

fica a memória, que por ser tão breve em breve se apagará.
ficou a desilusão que por já a ter chorado já se apagou.

e fica o portão aberto, para o meu coração,
para todos aqueles que mereceram um dia lá ter entrado
e de quem serei amiga
até ao fim.

07/07/09

bye


não me conformo e choro a morte de alguém que não conheci.

sublime a Música que nos vê de cima e nos encanta e nos guia, pela vida.

a minha vida é guiada por música, é respirada por música, é regada por música, é mantida por música.

e certas músicas da minha vida são já quase parte do meu corpo

e certos artistas são-me tão familiares que lhes consigo sentir o bafo ou o perfume. da pele.

não me conformo e choro porque hoje queria ter sido maior que a música.

para quem sabe dizer ao ouvido de alguém que também parte de mim continua presa a uma qualquer terra do nunca, remota existência da infância,

e que isso é muito bom e louvados sejam aqueles que o conseguem fazer para nos dar essa experiência em forma de arte

seja ela qual for e neste caso em forma de música.

hoje estou triste, choro e se por ventura estas palavras não fizerem qualquer sentido não importa, não vou voltar atrás para as corrigir

não quero são assim são minhas

são as minhas palavras tristes

no dia em que eu pela primeira vez quis ser maior que a Música

para te ver de cima.


(para mj)

e viveram felizes para sempre

um dia alguém decidiu tirar dali aquele balde do lixo
e ela ficou sem ter a que se amparar.
decidiu, pois, ir até ao centro de dia
e por lá conheceu um viúvo e por lá casou
ficando eternamente agradecida por alguém, naquele dia, ter pensado
que um balde do lixo podia, quem sabe, fazer uma mulher feliz.

reflexões (1)

eu acho que a beleza que está por vezes à frente dos nossos olhos não é, de todo,
a mais bonita.

01/07/09

IN JULY


for:

estudar muito
fumar pouco
escrever mais ou menos muito
dispersar-me mais ou menos pouco
ler o "Brick Lane", de Monica Ali
ler um livro em inglês
esconder as brancas
não deixar morrer a planta da sala
escrever ao deitar no meu molleskine de capa preta
fazer Acupunctura
comprar o "chance"
escrever um texto subordinado ao tema "porque é que as senhoras na casa dos 60
têm todas o mesmo cheiro de senhoras na casa dos 60"
dar parabéns a 8 pessoas
estofar um sofá
não comer gorduras
ver mais episódios das "mentes criminosas"
dar importância só ao que vale a pena
arquivar os recibos da casa
ter 3 ideias originais para livros inacabados
dar conversa à minha Aurora pelo menos 1 vez por semana
portar-me bem, ter juizinho, não dizer asneiras e ser uma menina linda.


a Mateso e a Gasolina tiveram a generosidade de atribuir ao Photomaton este selo; obrigada às 2.

“O selo deste prémio foi criado a pensar nos blogs que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos seus leitores.


"Sobre o significado de LEMNISCATA: “curva geométrica com forma semelhante à de um 8; lugar geométrico dos pontos tais que o produto das distâncias a dois pontos fixos é constante.” Lemniscato: ornado de fitas; Do grego Lemniskos, do latim, Lemniscu: fita que pendia das coroas de louro destinadas aos vencedores (In Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora).
Reencaminho-o, pois, aos blogs que leio semalmente (desde há muito tempo)
e que têm qualquer coisa que me fez permanecer, "sentar" e deleitar.
e sobretudo sentir que esses espaços são já, um bocadinho, também, a minha casa.
Gasolina / Rita / Cláudia S.S. / CNS / Alice / Patti / Teresa Durães / Carla Marques/
Mateso / Mar Arável /Vida de Vidro / Pi / Pin Gente / Trilliti Star / Tchi / Arabica.
Um beijo a todos(as), Laura.

de gás a fundo

fotografia s.w.
ela quer contar sempre tudo, ela precisa, ela precisa de contar as coisas dela e as que não são dela e que rouba aos outros
mas contar contar pormenorizadamente com pausas suspiros
olhares que fogem
interrupções de telemóvel ou até faltar o ar
e então se é uma coisa importante ainda mais necessidade ela tem
às vezes ela precisa tão somente de estar deitada no sofá à noite quando não há nada para fazer
e tudo repousa à sua volta até o seu corpo
mas mesmo aí ela precisa
precisa de contar precisa de falar de uma imagem ou fazer uma pergunta
e então se é uma coisa importante ainda mais necessidade ela tem
e se não falar estamos mal
às vezes liga à mãe e conta-lhe
e a mãe conta-lhe o triplo porque foi a mãe foi a mãe que a ensinou a falar muito e a contar
ou então a uma das irmãs ou à amiga grávida
e com elas também verte as palavras que a engasgam
cospe as novidades uma a uma duas três várias muitas
olhos brilhantes
e então se é uma coisa muito importante que só lhe queira contar a ele
fica a mexer o pezinho nervosamente até à noite
e as palavras vão-se amontoando na garganta depois são tantas que escorrem até aos pulmões
e às tantas que remédio tem ela senão escrever porque as palavras já lhe estão na ponta dos dedos e ela escreve de um fôlego só
os dedos martelam as teclas e as gatas ficam estúpidas a olhar
escreve tão rápido que depois tem de voltar atrás e corrigir
as palavras que o corrector sombreou a vermelho por causa da correria estúpida
da correria da necessidade dela de contar contar contar contar .............. con..........................................t..........a..........................................r...

pronto, isto foi só a necessidade que tive de falar contigo, agora, para te contar a consulta.

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