30/10/09

some like it hot

um dia destes roubo umas flores da autarquia
pinto o cabelo de louro, corto-o bem curto, faço um "shot" de hidratação
aprendo a falar inglês macio
e a fazer um vibrato de veludo
ponho nos lábios um gloss daqueles que duram muito tempo mesmo depois de beijar
desenho um risco perfeito, nos olhos, de eye-liner
faço uma exfoliação corpo e cara
faço as unhas
e a cama de lavado
e scones com geleia
preparo um tabuleiro com um pano do enxoval
e meto-me na cama ao fim-da-tarde
a cantar baixinho o "poo poo pee doo".
e depois desta lista de coisas sentir-me-ei uma estrela
que mesmo sendo desconhecida
espalha elegantemente os cabelos na manta de seda
segura uma flor de encontro ao peito
e acredita que as pequenas coisas podem dar origem a grandes momentos.







mulheres bonitas (4)

kim novak (Vertigo)

28/10/09

pérolas (1)


"óculos de sol", 1999. Palavras Loucas Orelhas Moucas.

26/10/09

that old devil called lau

penso muitas vezes nisto “quando for velha vou ser assim ou assado”.
farto-me de rir com as amigas e as irmãs a conjecturar sobre a cor do cabelo ou os tempos livres.
gostava de ser uma velha “rapioqueira”.
o Word não reconhece este termo, mas eu uso-o para designar alguém com
energia, vontade e óptima disposição.
é assim que eu gostava de ser.
e loura, também.
já agora, magra.
com ossos fortes.
sem pigarro.
com gatos.
com a curva da cintura definida.
sem crises de memória.
com uma cadeira de baloiço.
pouco surda.
sem varizes.
com as pessoas que gosto ainda vivas.
com muitos livros para ler.
com ainda mais cadernos para escrever.
com uma colecção esmagadora de lápis.
com uma colecção patética de borrachas.
com uma coleccção estupidamente absurda de canetas de várias cores.
com uma parede cheia de fotografias de coisas idas e queridas.
com o cabelo mui comprido.
com recortes impensáveis.
com as unhas pintadas.
com baton gloss.
com Moet Chandon para bebericar ao fim da tarde.
com calças justas e botas rasas.
com aulas de ginástica uma vez por semana.
com férias marcadas numas termas.
com pão com manteiga e café com leite.
com riso forte.
sem negro.
em paz.

mulheres bonitas (3)

Loretta Young

este país não é para pombas

quem é que inventará as… cenas?
por exemplo, o termo “estou feita ao bife”. porque não dizemos antes “estou feita ao “filé mignon”? além de ser mais giro o filé quando é bom mete o bife num sapato.
agora usa-se muito o termo “estás-te a esticar”.
acontece-me de vez em quando ouvir assim umas coisas, arrebitar as orelhas face ao total desconhecimento do termo e passados dias ver-me a usá-lo, quase sem me dar conta.
é como quando se diz “tótil” ou “bué”.
gosto mais do “tótil”, se bem que eu ainda sou do tempo do “n”.
estou “n” contente. trabalhei “n”.
fica muito mais giro do que estou “bué” contente. trabalhei “bué”.
em Valongo há toda uma serie de termos que ainda agora me fazem corar. de espanto.
as pessoas chamam-se entre elas “pombas”, “mor” e “rei”.
é vê-las, nos supermercados, com os carrinhos cheios de refrigerantes e leite gordo, com as barriga a verter das calças, a murmurar num sotaque irrepreensível: “ó pomba tens a chabes?”.
ou então os pequenitos ranhosos sentados nos carrinhos a tirar macacos e a fazer com eles bolinhas, e a ouvir a mãe com o cabelo até à cinta a dizer: “tira a mão do nariz, rei!”.
ora tudo aquilo me faz uma confusão bestial.
quer os refrigerantes, quer o leite gordo, quer as barrigas, quer o “rei” e a “pomba”.
ontem fazia compras no intermarché e estou eu na zona dos legumes quando uma senhora velhota viúva de cabelo ralo aos caracóis me pergunta
com um alho francês todo esticado: “ó pomba isto pesa-se adonde?”.
e eu respondi “não sei minha senhora” e logo um senhor baixinho parecido com uma sagres mini, de bochechas vermelhas e barba à capitão Iglo interrompe e exclama num português perfeito “atão bocê não sabe que se pesa na caixa?” – e riu um riso tabágico e mostrou-me a sua rara colecção de dentes e continuou, de chinelos de quarto encabeçando uma família de “bolas” – a mulher, que se rebolava de fato de treino pelos corredores, e as duas meninas, com vestinhos 2 tamanhos-abaixo, que ainda não rebolavam completamente mas iriam fazê-lo muito em breve.
de cada vez que vou ao supermercado aprendo um termo novo e demoro-me sempre mais do que queria já que fico embasbacada a olhar para aquela gente a pontapear abusivamente a nossa amada língua, como se fossem realmente reis e rainhas, ofuscantes e magnificentes, em toda a sua majestade gramatical.

22/10/09

mulheres bonitas (2)

Veronica Lake

m o s c a s

há coisas que me irritam de sobremaneira.
as moscas são uma delas.
e a culpa é da minha aurora, que quando limpa a casa deixa as janelas abertas de par a par como se fossem uma boca escancarada.
deixa as janelas abertas e as moscas entram.
deixa-me a mim nervosa e às minhas gatas também.
portanto em minha casa moro eu e duas gatas. somos 3.
3 fêmeas nervosas por causa de moscas.
porque às tantas ando eu a chamar nomes às moscas e as minhas gatas em duas patas a emitir sons terríveis com as boquinhas pequenas.
ouvi dizer que as moscas no Outono ficam “chochas”.
não sei o que isso quer dizer mas provavelmente é verdade pois elas rondam-me meias tontas e de vez em quando pousam nos sítios mais incríveis, já pousaram no lábio inferior e imagine-se, no mindinho.
ora isso ainda me põe mais irritada.
é que as minhas gatas gostam de comer moscas mas eu não.
ontem declarei-lhes guerra aberta com um pano da cozinha.
e as gatas ficaram sentadas, a ver-me aos puxões e investidas violentas, com esgares e roncos,
nunca tinha visto as minhas gatas com cara de parvas mas ontem vi.
matei 3.
ficaram as mais resistentes para o combate final, que se avizinha.

20/10/09

mulheres bonitas (1)

Lupe Velez

gosto de mulheres bonitas.

com sobrancelhas arranjadas, unhas pintadas, cinturas finas e cabelos lustrosos.

sou capaz de ficar a vê-las passearem-se como se escrevessem poemas com os saltos altos

sou capaz de as fotografar à socapa, ou nas barbas delas.

gosto de lhes ouvir a voz e roubar os assuntos

gosto da forma como sofrem e abrem o pacote do açúcar

gosto de as ver beber água e escolher uns sapatos.

e porque gosto delas, das mulheres bonitas,

e como conheço tantas

umas pessoalmente, outras só das imagens,

decidi trazê-las aqui

com jeitinho com alma com um sorriso.

e voilá.

19/10/09

a miúda que gostava da rapariga chinesa e de orquídeas

(fotografia de Teresa Queirós)



e eu fiquei a ali a ouvi-la,

a beber as palavras com cheiro a chá

a ouvir as imagens com cheiro a cinema

ela disse muita coisa

falava como uma miúda um sentir de mulher

de vez em quando escondia o rosto nas mãos

às vezes mordia o lábio e levantava-se e saltava

empurrada pelas palavras que lhe saltavam da boca

bebericando um chá vermelho perfumado

esgueirando os olhos para a orquídea ou para o quadro da menina chinesa com uma borboleta nas mãos

"gosto dela" - disse-me com uma voz pastel.

e eu continuei a ouvi-la, aquela menina-mulher que parecia ter borboletas e flores a saltarem-lhe dos olhos grandes que roubou à mãe

e ouvi-a contar-me, com voz de veludo, um filme real

e via-a fazer, com mãos sábias de gata, festas sedosas às minhas gatas

e vi-me de repente a estabelecer, com ela, uma ligação irreal

daquelas que não sabemos explicar como acontecem

mas que nos deixam na boca um paladar a música, cinema, perfumes e palavras.



(para a Teresa Queirós.)

o que eu aprendi com a luz

(uma e outra, deitadas no linóleo preto de um palco vazio. )

- sentes? o calor dos projectores?
- sim.
- e o barulho? aquele fiozinho de som, da luz..
- sim.. foste tu que me ensinaste a ouvir. o que é que eu te ensinei?
- outros sons.
- diz-me.
- as palavras… no meio das deixas.
- é verdade. o barulho do mar naquele texto do marinheiro. o som das bainhas do vestido a serem descosidas.
- sabes outra coisa que eu ouço?
- o quê?
- o som do teu cabelo.
- (risos) e como é o som do meu cabelo?
- é folk.
- folk?
- sim.
- e o que é isso do cabelo ter um som folk?
- um dia explico-te.
- explica-me agora.
- oh é a mesma coisa que o som nas luzes e no intervalo das deixas.
- pois. é especial.
- estás com os olhos pequeninos e suados.
- é dessa mania que tu tens de dizer assim coisas.
- ouviste?
- o quê?
- este barulho… parece um tilintar, de tecido.
- é o quê?
- é o som das tuas pestanas.
- (risos) achas que mais alguém acredita nisto?
- sei lá.
- eu gosto de acreditar.
- eu também.
- gosto da tua saia.
- e eu gosto da forma como dizes o texto das cadeiras.
- gosto de fazer teatro, coisas parvas, teatrices…
- e eu gosto de ti.

(para a Patricia Miranda.)

13/10/09



apresenta




E se um dia o seu companheiro a fechasse, à chave, no quarto de dormir e deixasse um papel colado na porta a dizer "Tira o dia. Aproveita para ficar em casa e pensar em nós".
Isto seria para si, no mínimo, estranho? Normal?

Seria uma atitude egoísta ou infantil? Irracional, deliberadamente provocatória?

Se ainda por cima não tivesse cigarros, telefone e sobretudo paciência?...Se calhar nunca pensou nisto e é bem provável que nunca lhe tenha acontecido.

Mas pode acontecer... e aconteceu.

E queremos contar-lhe como foi...



Autoria, interpretação e encenação

Laura Ferreira

Participação especial

Gasolina com o texto “Fôlego”

Música

Monolab

Fotografia

Pedro Tudela

Vídeo

Tiago Silva, Rui Ferreira e Nanci Sousa

Desenho de Luz

Luis Ribeiro / Patricia Miranda



FÓRUM CULTURAL DE ERMESINDE

16 A 18 DE OUTUBRO - 21H45
preço dos bilhete 5 EUR (estudantes 3 EUR)

Reservas pelos nº 91 925 99 35 / 96 29 65 763

08/10/09

dkgfuivn ojiaerbn obvk jiwe+roc

procurou-as incessantemente em rios e mares.
não conseguia perceber porquê, porque lhe haviam tirado as palavras a ela,
a ela que sempre precisara delas a ela que as tratara sempre tão bem.
procurou-as incansavelmente em livros e obituários
em menus e revistas, em jornais e manuais técnicos.
continuava sem saber o porquê de tal castigo
e abstinente, emagreceu uns kilos e puniu-se
comprou cremes de cara, novos, para ver se ficava com a cara mais alegre
comprou um rímel milagroso e um batôn mate,
um candeeiro novo para a sala e uma colcha cor-de-rosa para a cama.
e voltou a procurar as palavras
no pó de debaixo da cama
na máquina da roupa
nas tigelas de marmelada.
continuou sem perceber a razão daquela punição tão severa
e não encontrando uma razão plausível para tal
abandonou-se a um choro copioso
mas chorou tanto tanto tanto
que deve ter despertado o enternecimento de algo ou alguém
e então uma noite, encolhida no sofá, de olhos inchados e sem vida,
sentiu uma coisa na garganta, julgou tratar-se de tosse,
sentiu-a, primeiro fraca depois forte,
tão forte a pontos de a engasgar de morte.
e foi então que elas assomaram à sua boca aos trambolhões
as palavras
acumuladas, de dias, de lugares e nervos
de insónias e tormentos e memórias.
cuspiu-as de uma vez para poder respirar
saíram grandes, pequenas, a negrito, sublinhadas,
e então pegou no caderninho preto
e feliz, escreveu escreveu escreveu
até chorar de olhos bem abertos
até desmaiar de cansaço
até a boca ficar seca delas, de palavras.
e mesmo a dormir continuou a escrever
até ao dia seguinte.

01/10/09

um dia destes agarro numa máquina fotográfica e vou para a rua recolher imagens.
com vida.

Arquivo