27/11/09

os meus filhos

é assim que eu escrevo as minhas peças de teatro.
ando a semear ideias e palavras pela casa durante uns dias.
deixo-as em pó nos móveis, em cabelos nos tapetes
deixo-as a marinar no silêncio durante o dia
a germinarem no sono das minhas gatas.
e depois um dia chego a casa e sento-me
e deixo que elas me ataquem devagarinho
todas, ao mesmo tempo, muitas, todas.
sento-me então, muito mãe,
e precipito-me sobre um papel ou um teclado
e escrevo, seguido, o embrião da minha peça.
e depois de parido, mimo-o, afago-o, modelo-o
e um dia, finalmente, sei que está crescido, robusto,
e pronto.
e é mais um filho que me sai da alma.
directamente para um palco.
que é onde os meus filhos estão bem.

22/11/09

sure

gostava de acreditar que aquilo que está escrito não mais pode ser apagado.
gostava de acreditar que há marcas indeléveis.
gostava de ler as palavras, gemidas, das minhas mãos.
e marcar, então, a tinta
um percurso inabalável, sereno
que certamente me levasse
e tão simplesmente
eu me deixasse ir.

pois...

o que nos faz sentir pequenos, às vezes, não tem nada a ver com o tamanho.

19/11/09

buscopan


dois dias antes de vir o período as mulheres enlouquecem.
eu pelo menos sou assim.
para além de me sentir a mais infeliz das mulheres
vejo espiões nas esquinas e assassinos no metro
alienígenas no supermercado
e criaturinhas vis agarradas às persianas do quarto.
irritam-me o anuncio do Pingo Doce e a animadora matinal da M80.
se não recebo uma sms acho que as pessoas me esqueceram
se a minha mãe não me dá mimos eu telefono-lhe a cobrá-los
apetece-me sempre comprar um trapinho nessas horas miseravelmente tristes: um basicozinho da Lanidor,
um casaquito de malha andadeiro naquela cor que dá com tudo.
apetece-me um tónico capilar e um episódio lamechas da serie “irmãos e irmãs”
apetece-me estupidamente chocolate
arrebatadoramente uma caipirinha
e choro se me põem à frente, para jantar, açorda ou carapaus.
choro a caminho de casa com uma musica
e depois quando paro na portagem não olho para o senhor,
para disfarçar a pintura borrada.
choro uma pinga porque mandei uma cotovelada numa esquina
ou virei o pescoço depressa demais e fico com aquela dor “eléctrica”.
choro porque as sobrancelhas não estão arranjadas.
choro porque sim e porque não.
e rio depressa demais de coisas que não têm qualquer graça
e a seguir choro da vontade estúpida de ter rido.
tenho os nervos debaixo da camisola, abraçados à epiderme
prontos para um ataque indubitável, às dentadinhas.
uma dia antes de vir o período as mulheres enlouquecem menos.
eu também sim.
fico-me pelo buscopan e um pacote de lenços de papel, à mão,
para o caso de ter que chorar em sítios pouco próprios.

i just wanna be me

não quero ser
actriz famosa
cantora imortal
dançarina referencial
não
quero apenas ser-me a mim
com as roupas guardadas de anos
que andam comigo de peça em peça
com os objectos cheios de segredos
e com as pessoas que me acompanham
essas sim, vestem-me de coisas
roupa memórias referências cores sinais
não quero ser outra
quero ser-me assim: eu.
com todos os outros
e as outras de mim.

11/11/09

where do i begin

às vezes tenho vontade de pegar em certas coisas, metê-las dentro de um frasco,
fechá-las,
abanar o frasco violentamente
até doer a mão e o braço
até que essas coisas percam os seus contornos
e se transformem numa massa informe e desmaiada,
e depois deixar repousar.
abri-lo, então, outra vez
e
comprovar que as coisas que nos incomodam
podem nunca deixar de fazer parte das nossas vidas,
mas podem, e às vezes devem, ficar arrumadas noutro lugar.

tau tau


ou apanhar nos dentes.
ou apanhar uma laustíbia.
ou um piparote.
também pode ser uma galheta.
se bem que uma lambadinha é sempre um gesto com mais ternura.
uma vez decidi meter-me no meio de uma confusão entre marido e mulher.
a mulher apanhava do marido à força toda, no meio da rua, defendia-se como podia pois era pequenota e ele, bastante mais alto, parecia um macacóide, socava-a onde podia.
ora eu saí do carro com os dentes cerrados, punhos preparados e cheguei-me e eles e gritei “largue-a! não tem vergonha?”.
mas não, meus caros amigos, não foi ele que se virou a mim. não. foi ela.
desgrenhada, vermelha que nem um tomate, ajeitou os cabelos furiosos, pôs as mãos à cinta e disse-me, com uma pronuncia vernácula, de norte:

“o marido é meu e dá-me porrada quando quiser!”.
eu de início nem acreditei naquilo que ouvi e acabei por me retirar com uma cabeça que mais parecia um melão e quando cheguei ao carro todos me atiraram a velha máxima "entre marido e mulher ninguém mete a colher".

e by daí, nunca mais meti.

09/11/09

mulheres bonitas (5)

gong-li

almoços de família

gosto de almoços de família, com a família toda junta, à volta de uma mesa.
gosto de almoços de família volantes com a família de pratos na mão a tagarelar na sala, na cozinha, no corredor.
gosto do cheiro a comida e perfumes que se mescla nos almoços de família.
do tilintar do vidro dos copos e das gargalhadas.
gosto da musica da família dos almoços de família:
das conversas cruzadas, das pulseiras e da satisfação.
gosto da família aos domingos
com olhos de cama e roupa bonita
com voz de rádio e cabelo lavado.
gosto dos abraços nos almoços de família
dos cigarros fumados em conjunto
das tartes de limão e dos cafezinhos depois de almoço.
gosto do ar bonacheirão e satisfeito com que a família se espraia depois de um almoço de família.
parecem gatos felizes nos sofás, que comeram principescamente, têm mimos e são bem tratados.
é das imagens mais próximas que eu tenho da perfeição.

este domingo tivemos um e foi muito bom…

02/11/09

Bilhete para Pedro Almodovar


hei-de escrever um bilhetinho ao Almodovar
que lhe vá certeiro ao coração
que o deixe sem forças nas pernas
com as mãos trémulas e a voz embargada.
um bilhetinho simples e directo
com um bocadinho de perfume
dobrado na pontinha superior direita
escrito com a minha letra, a preto,
que reze assim:



olá, Pedro, olha..
se te encostares a mim
(e não penses com isto que sou louca desvairada)
e ficares em silencio
só a ouvir o barulho do arquivo do meu cérebro
durante 5 minutos,
vais ver que será o suficiente para ouvires
a quantidade incontável de histórias de mulheres
que nunca vou conseguir escrever.



Laura

cantiga


as mulheres de tornozelos finos
têm um não sei quê de frágil
que a mim me dá vontade de escrever.
parecem-me, os tornozelos, notas musicais, jarras esguias, palhinhas de refresco…
e então quando caminham, ondulantes, de saltos finos, ao sabor do vento,
empoeiram-se-me os olhos com uma cantiga invisível
e fico ali com ar apatetado
a beber aquele serpentear de estímulos
e a pensar na sorte que tenho, eu própria, em ter tornozelos finos
e ser capaz de ouvir, em certos dias,
a modinha do meu próprio caminhar.

Arquivo