29/12/09

no sense

o que é que eu faço a isto tudo que sinto ao mesmo tempo e me põe gorda na cabeça pois quero deitar cá para fora e não consigo penso coisas alegres e tristes tenho vontade de me atirar de um prédio para voar e tenho vontade de comer o papel que escrevo e tudo isto porque tenho tanta coisa na cabeça que me entonteçe e assusta e se ao menos eu pudesse arrotar umas palavras para me aliviar era bom mas não quanto mais cheia me sinto mais penso deve ser das palavras que já tenho que ficam a ruminar e dão à luz outras parecem vermes ou ratos ou então nascem espontaneamente ainda não consegui descobrir mas nestes dias em que me sinto assim tenho vontade de montar um negócio uma mini empresa que importe palavras e faça embrulhos riquinhos de palavras gourmet para ficar rica e me poder dar ao luxo nestes dias de ficar em casa deitada no sofá com os meus cadernos e os lápis os aguças e as borrachas e escrever escrever escrever até ficar enjoada e cair de cansaço e voltar a acordar e voltar a escrever num ritual que ao outros pode parecer surreal ou psicótico mas que a mim me faz uma mulher magra feliz e sem olheiras.

"anjo da guarda minha companhia guarda a minha alma de noite e de dia"

- Reza, mãe?
E ela diz-me que sim, que reza.
É que ela reza diferente de mim.
As orações dela chegam a um sítio onde as minhas não chegam.
Talvez porque ela esteja há mais tempo perto de Deus.
Talvez porque quando reza o pensamento não lhe foge como me acontece a mim.
Talvez porque entre ela e ele exista um canal de comunicação especial, privado, que se faz de amor e Fé.
- Reza mesmo, mãe?
E ela diz-me que sim. E quando me responde parece estar já a rezar.
A voz desce, as palavras saem mais cantadas. Parece que o peito lhe sobe e desce ao compasso do rezar que já lhe faz parte da pele.
Eu rezo à noite. E de dia aos bocadinhos quando me lembro. Entre refeições, trabalho ou transito.
Ela reza quando se decide a rezar e fá-lo, dedicada e inteira. No pequeno altar improvisado do quarto onde moram santos altos e pequenos, nossas senhoras de Fátima, de olhos húmidos e vestes amareladas do tempo, meninos Jesus pequenos e gordos, em palhinhas.
- Então reze muito, por favor.
E entrego a minha fé envergonhada à fé inabalável dela e fico descansada.
Porque sei que as minhas orações vão, pela boca da minha mãe, aos pares, direitinhas aos ouvidos de um Deus que a razão me impele a não aceitar.
Mas que uma fé inexplicável me leva a acreditar.

25/12/09

boas festas

para todos vocês, Feliz Natal.
um beijo
Laura

03/12/09

às vezes não, às vezes sim

às vezes apetece-me ter cabelo comprido e às vezes não.
às vezes apetece-me pintar os lábios de vermelho e às vezes não.
às vezes apetece-me ter os lábios compridos e o cabelo pintado de vermelho e às vezes não.
às vezes sim umas coisas e às vezes não tantas outras.

às vezes apetece-me ouvir o silêncio e às vezes não.
às vezes apetece-me rasgá-lo com a voz e os objectos e às vezes não.
às vezes apetece-me ouvir as pessoas e a voz e as histórias delas. às vezes não.
às vezes ouço a antena 2 às vezes não.
às vezes ouço a minha consciência às vezes fecho-lhe a porta na cara.
às vezes gosto de ouvir a tosse do vizinho de cima às vezes não.
às vezes apetece-me agarrar tudo com muita força e às vezes não.
às vezes apetece-me agarrar tudo com muita força e de unhas pintadas de vermelho
e às vezes não.
há dias em que sim e há dias em que não.
há dias em que sou assim e há dias em que não.
e depois há dias em que acordo primeiro que o meu corpo
e fico a ver-me de cima o dia todo
e a pensar "às vezes sim" "às vezes não"
e a escrever num caderninho o sim que podia ser não
e a escrever o não que podia ser sim.
eu sou assim. em muitos dos meus dias.
às vezes não. às vezes sim.

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