31/08/10

o coleccionador de selos

Passara a vida a coleccionar selos.
A observá-los, depurada e atentamente, com uma atenção que aos olhos dos outros parecia desmesurada.
Dispensara as amenas cavaqueiras com os amigos, ao sol, e as tertúlias de cerveja com sueca; as tardes ociosas de Domingo, em que se encostavam às paredes quentes do café, para ver passar as raparigas com flores na cabeça e os seus andares de Verão.
Deu pouca atenção à 1ª comunhão do neto e ao dia de formatura do filho mais velho. Esquecera aniversários de casamento, entregas de IRS e compras de supermercado.
A Internet passara-lhe à margem e nunca ouviu, sequer, falar do Sudoku.
Mas quando, no leito de morte, alguém perguntou se tinha sido feliz, ele apertou com as ultimas forças, o seu primeiro álbum de selos, a cheirar a antigo, e os olhos brilharam como duas estrelas.
E a Maria do Carmo, que estivera ao seu lado a vida inteira e entendia aquele seu amor pelos selos e acreditava, hoje, que ele era quase tão grande como o amor que tinha por ela e pelos filhos, respondeu, numa voz calma e resignada.
- Nunca deixou de fazer o que lhe proporcionava felicidade e bem-estar. Talvez por isso tenha sido feliz e nos tenha feito a nós, também, felizes.
Deu-lhe um beijo na testa enrugada, colocou a sua mão sobre a mão dele e sobre o álbum dos selos e deixou-o partir em paz, como tantas vezes o deixara, abandonado, à luz ténue do candeeiro sobre a mesinha onde, feliz como uma criança se dedicava à tarefa minuciosa de se apaixonar por cada um daqueles minúsculos pedaços de papel.

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