31/08/10

"Vespa"

Sentara-se com pouca certeza na cadeira de plástico meia bamba da esplanada que dava pelo nome de… “Vespa”. Detivera-se, por momentos, a pensar quem se lembraria de ter dado um nome daqueles a um local que supostamente se destinava a pura descontracção e relaxe, ao ar puro, quase de fronte para o mar.

Pediu um fino e tremoços.
Os homens de meia-idade, castanhos do sol e suados, com as suas imensas barrigas de cerveja, viram a mulher sozinha a pedir um fino e fizeram aquela expressão característica que vem escrita no ADN de todos os homens, e que se traduz num misto de cumplicidade em relação à bebida propriamente dita e uma pitada de incredulidade e irritação face ao à vontade com que o gesto é levado a cabo.
Com algum alívio, a rapariga comprovou que o nome “Vespa” poderia ter sido apenas um delírio do proprietário, porque na verdade os únicos seres vivos que por ali se vislumbravam eram as gaivotas, que descreviam círculos tontos sobre o areal, atordoadas pelo calor.
O empregado pousou na mesa o fino e o pratinho dos tremoços.
Ela deu gole pequenino e mordeu um tremoço cheio de sal.
Arrepiou-se com o sabor a sal e ao mesmo tempo com o sol e suspirou de satisfação.
Mergulhou na leitura enquanto os homens a olhavam, coçando as suíças e as carecas suadas.
Foi quando, de repente, o chão da pequena esplanada sobranceira ao areal, pareceu ganhar vida e pareceu querer engolir todos aqueles que lá se encontravam sentados, começando ao mesmo tempo a movimentar-se, ondulante, e rugindo como uma fera.
Tudo começou a abanar.
“Tremor de terra?”. A rapariga engoliu em seco e apanhou o copo do fino no ar.
Duas senhoras, mais à frente, partilharam a mesma preocupação e devolveram-lhe um olhar assustado. Um casal levantou-se, com um bebé corado a chorar, muito assustado.
Três adolescentes deixaram escapar uma asneirola e só voltaram as cabeças para onde vinha o rugido, naquela atitude típica dos adolescentes que não querem, nunca, ter muito trabalho.
Apenas os homens das barrigas permaneceram impávidos e serenos, alheios a perigos, vendavais e tremores de terra, continuando a mascar os palitos ao canto da boca e a fumar cigarros quase até às priscas.
Foi quando, vinda da cozinha do “Vespa”, uma empregada atravessou o bar de uma ponta à outra, em pé, nos seus cento e muitos kilos, descontraída e confiante, abanando tudo à sua passagem, provocando nos clientes assustados, um ruído surdo de admiração e alivio.
Não era um tremor de terra, graças a Deus.

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