29/01/10

uff


pensou: será que é desta que se foram as palavras?
Depois de 4 peças escritas e coisas à pressa na agenda e no diário, e coisas no trabalho, e tudo,
e receitas passadas a limpo e relatórios e sabe-se lá mais o quê,
não há palavras que resistam, pensava enquanto as desbaratava no dia a dia e também as pensava, sim, porque ao pensar muito ela também as gastava
e houve um momento no seu dia em que teve um medo que lhe pôs os dedos tortos
e o olho a tremer e pegou numa caneta e abanou-a nervosamente
abriu a pasta das imagens do computador devagarinho para não acordar o pânico
e olhou:
Lá estavam elas.
A piscar-lhe o olho, a chamá-la com o dedinho indicador
Com as vozinhas a preto e branco ou a cor a dizer“agora sou eu” agora sou eu"
E então.
Escreveu.

super light


Há dias em que acordo levezinha comigo e com a vida.
Toca o despertador e penso “pão com manteiga e café com leite”;
é sinal que estou bem disposta. De outra maneira penso “merda”.
Há dias em que acordo ainda mais leve do que nos dias em que me sinto levezinha.
Tomo banho a trautear Rita Lee e pinto-me às cegas
como se a minha mão já conhecesse as curvas e as lombas do meu rosto.
Escolho uma roupa gira com tudo a condizer, até ao mais ridículo detalhe tipo
meias escondidas dentro das botas a condizer com a camisola de gola alta.
Vou à secção dos perfumes, no meu móvel, e escolho aquele que combina mais com o meu brando estado. “Chance”.
E saio para a rua, de saltos altos, caracóis felizes, entro no meu carro
e vou a cantar furiosamente o musical do “Chicago” até ao Porto.
Em casa, tu ficas a dormir no quente do nosso sono.
E é, em parte, esse quente que me faz sentir assim tão levezinha.

broadway

Quando chegaram à cidade ficaram deslumbradas, de cabeça no ar, olhos poucos para ver tanto.
Levara consigo as suas actrizes que na realidade eram amigas.
Em sonhos ela tinha já estreado a sua ultima peça.
E tinha sido um sucesso naqueles palcos.
E as pessoas que a viram ficaram assimde cabeça no ar, olhos poucos para ver tanto.
E era bom sonhar assim.
Porque dessa maneira ela podia estrear os seus trabalhos em qualquer palco do mundo.

19/01/10

o photomaton faz 4 anos, hoje...

Arranjei aqui uma relação para a vida.
Continuo enamorada pelo meu “photomaton”.
Gosto de o vestir bem, de o perfumar, de o mostrar a todos, orgulhosa, mãe de escrita.
Aqui sou miúda, mulher, mãe, irmã, amante, hospedeira do ar, filósofa, bailarina, escassa, mordaz, ardente, única, vagarosa, emocional.
Dou voz às tantas Lauras que em mim andam às turras ou de passo certo.
Surpreendo-me e invento-me. Conheço-me a cada texto. Cresco e crio a minha família de palavras com quem aperto os tantos nós.
Tenho um brio desmedido e fica-me um brilhozinho nos olhos sempre que aqui venho porque às vezes preciso e leio todos aqueles que também me lêem.
O porto seguro das palavras.
O ler-me são afagos. O escrever são abraços.
Escrevo para ficar perto de alguns que estão longe, escrevo para entrar dentro de mim.
O photomaton é hoje, o que é, graças a muitos que me visitam e já são “da casa”.
Gosto de pansar que deste espaço há quem conheça o pó, saiba o compasso do silêncio, a ventania e o cheiro.
E mesmo não sabendo quem são, alguns, eu sinto os olhos que ficam nas palavras.
E sabendo quem são os que são, porque se identificam, consigo deles imaginar tanta coisa, cores, sentidos, roupas e ementas.
O photomaton deixou de ser só meu no dia em que senti que podia ser de muitos.
Por isso aqui volto sempre, mesmo quando o tempo falta e o cansaço me engole, na esperança de saber que levo palavras a tantos e que essas palavras me levaram às palavras de tantos outros.
Obrigada a todos os que partilham comigo esta paixão extraordinária pela escrita
que nos permite observar e sentir as coisas e as pessoas com palavras, imagens, sons, cheiros, música
e escrever escrever sempre, sem sono, sem pressa, sem tempo, sem norte, sem medo.

e ficar em paz.

14/01/10

hoje apatecia-me tirar um retrato de família com as peças de teatro todas que já escrevi.

agora que escrevi as minhas três proximas peças de teatro e penso ter esgotado as minhas palavras, retorno a este meu canto onde estou à vontade para, se quiser, escrever uma receita de culinária ou a tabuada dos 6, onde não preciso de ter cuidado com os "is" e os "esses" e onde me sinto livre para escrever assim corrido sem tema sem obrigações apenas porque preciso porque mesmo que a minha cabeça não esteja aqui os meus dedos correm sozinhos.
hoje apatecia-me tirar um retrato de família com as peças de teatro todas que já escrevi.

Preciso de tempo tanto como de água.

Um dia perguntaram-me qual era o meu maior medo e sem pensar escrevi
“não ter tempo”.
De quê? De tudo.
Preciso de tempo tanto como de água.
Invento-o, se preciso for.
Se pudesse pegava num dia e esticava-o a partir das 10 da noite por mais umas horas.
Se houvesse à venda comprava-o. Nem que fosse a 30 anos, como a minha casa.

era mesmo isto

apetecia-me tagarelar com uma amiga de coisas inúteis
podia ser nas escadas da casa da música, no café da fnac.
ou passear em santa catarina para ver os saldos
que já não interessam a ninguém porque só há numeros grandes.
e depois beber um martini com uma rodela de limão e um pedra de gelo,
ao fim da tarde, no majestic.

11/01/10

sometimes it snows in Porto

gosto do frio visto pelo embaciado das janelas de uma casa quente.
gosto de ter frio para me deitar no quente dos meus lençóis.
gosto da ponta do nariz fria e do cabelo a tremer de frio.
gosto de beber leite quente quando tenho frio.
gosto dos meus pés frios a procurar o quente.
gosto das pessoas encasacadas e de bochechas frias.
dos transportes públicos com cheiro a gente
do morno dos cafés.
gosto do frio da neve que cai, no Porto, tão raramente.
gosto do meu Porto vestido de inverno, a rigor,
com olhos húmidos, mãos enluvadas
e sobretudo de cachemira cinzento.

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