27/02/10

right

Um dia destes faço-te passar uma vergonha na rua
Ponho os braços à volta do teu pescoço
Ponho-me na pontinha do pé direito
Levanto o pé esquerdo como uma bailarina
E digo-te ao ouvido
Que mesmo sendo uma rapariga algo complicada
Consigo compreender a simplicidade
Que me dás
De cada vez que eu me dou
A ti.

be happy

Ser feliz tudo de uma vez não é proveitoso.
Mais vale ser-se feliz aos bocadinhos
e deixar que esses momentos escorreguem pelos dias
e nos embalem para nos deixar na boca um sabor especial.
Se formos sempre felizes
deixamos de ter aquela sensação de vestir algo novo,
de nos olharmos ao espelho
e conseguir ver os laivos desse acontecimento peculiar
que é assinalar no nosso corpo a claridade que a felicidade tão bem estampa.

18/02/10

Quem disse que às vezes não sabe bem perder a pose?


volto já


Uma vez num aeroporto vi uma carreirinha de hospedeiras de bordo, orientais, de pele de porcelana, pestanas reviradas e cabelos brilhantes. Eu estava sentada em frente a elas.
Pedi-lhes autorização para tirar um retrato. E disparei. E guardei aquele momento único em que, com os olhos de amêndoa, me fitaram, algumas com espanto, outras com indiferença, outras em pose.
Certa vez vi em Itália uma filinha de jovens freiras a caminhar em sintonia, com os hábitos ao sabor do vento e pés enfiados em sandalinhas andadeiras.
Também já me aconteceu ver uma mesa de avós num restaurante, com cabelos cheios de laca, armados e lábios cor-de-rosa. Deviam cheirar a escola primária. Bebiam uma tacinha de vinho branco e falavam alto, todas, ao mesmo tempo.
Um dia destes vi, na Internet, esta fotografia deliciosa e decidi roubá-la.
Merecia uma historia mas de momento fico-me por aqui.
Quem sabe um dia a revisito com as palavras merecidas.
Por enquanto, resta-me expressar a minha infinita sensibilidade a certos grupos de mulheres, em fila ou perfiladas, aprumadas e a tagarelar, silenciosas ou coquetes, que me fazem parar, ver e sorrir com a barriga, escrever com os olhos e guardá-las aqui ou numa pasta, no meu computador.

10/02/10

cadeiras

Tenho uma panca com cadeiras.
Depois de ficar a olhar muito tempo para elas acho que lhes consigo adivinhar um rosto.
Se continuar mais tempo adivinharei sem muito esforço a cor dos olhos, o formato das sobrancelhas, a forma do nariz, o desenho da boca.
E se fechar os olhos, então, não tenho qualquer dúvida que me chegará aos ouvidos o tom da voz e até os tiques de pronúncia.
O perfume virá por último, como se fosse uma bênção - o masculino e o feminino.
Sim, porque nas minhas histórias com cadeiras sentam-se sempre um homem e uma mulher.

02/02/10

a senhora com bigodes de iogurte

Pedi 4 pães.
A pequena figura passou-me à frente e mostrou-me um sorriso cheio de dentes cinzentos.
Quero 20. – Pediu.
Teria um metro e cinquenta e pouco e era gorda como uma pêra.
Tinha os cabelos grisalhos e um puxo como as empregadas das nossas avós.
Um puxo estragado pelo vento e talvez pelo trabalho, com cabelinhos teimosos a emoldurar-lhe o rosto numa espécie de sombra.
Segui para os queijos. Cruzei-me com ela no corredor. Voltou a sorrir-me.
Caminhava a balouçando-se como o Alfa Pendular.
Os pés tortos pelo peso da parte inferior do corpo. Roupa surrada e áspera.
Meti para o corredor da mercearia e ela deve ter ido dar a volta e voltamos a encontrar-nos junto às sopas Knorr. Desta vez não me sorriu porque não me viu.
Encontrei-a depois já na caixa. Eu esperava pela minha vez.
Ela já tinha pago, tinha o saco das compras ainda pousado no balcão e apoiada só numa mão, lambuzava-se com um iorgurte de côco. Colara a boca à embalagem e a língua passeava-se nas suas paredes.
Aquilo demorou algum tempo ante o olhar incrédulo da menina do supermercado que tinha uma placa a dizer “Filipa”.
Quando finalmente terminou aquela operação ininterrupta, meteu a embalagem vazia no saco das compras e olhou para a menina Filipa.
Tinha uma marcazinha branca de iogurte a pintar-lhe a zona do bigode.
Sorriu, saciada e satisfeita. Balouçou-se com os saco das compras, lançou-me um último olhar sorridente e saiu porta fora, depois de pagar 3,67 eur, com 20 pães no saco e uma marca de bigode feita de iogurte a pintar-lhe a boca enrugada.

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